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1965 para a Cadeira n. 21,
sucedendo a Álvaro Moreyra, foi recebido em
28 de abril de 1965 pelo acadêmico Jorge Amado.
Filho de Adonias Aguiar e de Rachel Bastos de Aguiar, fez o
curso secundário no Ginásio Ipiranga, em Salvador, concluindo-o
em 1934, quando começou a fazer jornalismo. Transferiu-se, em
1936, para o Rio de Janeiro, onde retomou a carreira
jornalística, colaborando no Correio da Manhã. Foi crítico
literário dos Cadernos da Hora Presente, de São Paulo (1937);
crítico literário de A Manhã (1944-1945); do Jornal de Letras
(1955-1960); e do Diário de Notícias (1958-1960). Colaborou
também no Estado de S. Paulo e na Folha da Manhã, de São Paulo,
e no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro.
Foi nomeado diretor da Editora A Noite (1946-1950); diretor do
Serviço Nacional de Teatro (1954); diretor da Biblioteca
Nacional (1961-1971); respondeu também pela direção da Agência
Nacional, do Ministério da Justiça. Foi eleito vice-presidente
da Associação Brasileira de Imprensa (1966); membro do Conselho
Federal de Cultura (1967, reconduzido em 1969, 1971 e 1973);
presidente da Associação Brasileira de Imprensa (1972); e
presidente do Conselho Federal de Cultura (1977-1990).
Adonias Filho faz parte do grupo de escritores que, a partir de
1945, a terceira fase do Modernismo, se inclinaram para um
retorno a certas disciplinas formais, preocupados em realizar a
sua obra, por um lado, mediante uma redução à pesquisa formal e
de linguagem e, por outro, em ampliar sua significação do
regional para o universal.
Originário da zona cacaueira próxima a Ilhéus, interior da
Bahia, Adonias Filho retirou desse ambiente o material para a
sua obra de ficção, a começar pelo seu romance de estréia, Os
servos da morte, publicado em 1946. Na obra romanesca, aquela
realidade serviu-lhe apenas para recriar um mundo carregado de
simbolismo, nos episódios e nos personagens, encarnando um
sentido trágico da vida e do mundo. Desenvolveu recursos
altamente originais e requintados, adaptados à violência
interior de seus personagens. É o criador de um mundo trágico e
bárbaro, varrido pela violência e mistério e por um sopro de
poesia. Seus romances e novelas serão sempre a expressão de um
dos escritores mais representativos e fascinantes da ficção
brasileira contemporânea.
Conquistou os seguintes prêmios: Prêmio Paula Brito de crítica
literária (Guanabara, 1968); com o livro Léguas da promissão,
conquistou o Golfinho de Ouro de Literatura (1968), o Prêmio PEN
Clube do Brasil, Prêmio da Fundação Educacional do Paraná (FUNDEPAR)
e o Prêmio do Instituto Nacional do Livro (1968-1969). Obteve o
Prêmio Brasília de Literatura (1973), conferido pela Fundação
Cultural do Distrito Federal. Com o romance As velhas, obteve
pela segunda vez o Prêmio Nacional de Literatura (1975), do
Instituto Nacional do Livro, na categoria de obra publicada
(1974-1975). Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela
Universidade Federal da Bahia, em 1983. (Fonte: Academia
Brasileira de Letras)
Textos escolhidos:
HISTÓRIA DE EMÍLIO
Paulino Duarte sabia, desde que Miguel Duarte morrera, ele sabia
que, bem no abismo da sua alma, havia um grande medo
inexplicável. Uma coisa inexprimível, irreversível, estagnante,
que o fazia ouvir vozes, particularmente aquela voz vazia que
pronunciava o nome de Lica. Era como alguém que endoidecia,
vagando pela casa fechada, trêmulo, escutando alarido do vento
nas palmeiras do quintal. Os ratos corriam na despensa,
calafetava os buracos das paredes com canhamaço. As vozes,
porém, continuavam, fracas como um bocejo. Pálido, da sala, só
encontrava sossego quando abria a porta e chamava os cães aos
berros. Entre eles, as pulgas mordendo, sentia-se calmo e
adormecia. No entanto, na noite seguinte o mesmo martírio, a
mesma tortura. Algumas vezes, no reflexo da luz, distinguia o
rosto do pai bêbado, a barba falhada de Juca Pinheiro. Foi em
uma dessas noites, pouco tempo após a morte de Miguel Duarte,
que ouviu, dentre o ruído da chuva, fortes pancadas na porta da
cozinha. Acorreu, empunhando o facão, e abriu a porta com um
grito: “Quem está batendo aí?” E, encontrando um homem, quase
despido, inteiramente molhado, perguntou: “A quem você procura?”
O homem respondeu: “Miguel Duarte.” Deteve-se, o coração aos
saltos, e respondeu: “Miguel Duarte! Miguel Duarte morreu!” O
homem apertou as mãos, uma na outra, como se estivesse com frio,
e disse: “Eu preciso falar com Miguel Duarte, a minha conversa é
sobre Ubaldo, que está morto e bem morto.” Paulino Duarte
recuou, exaltado: “E foi você quem matou Ubaldo? Ubaldo... Mas,
quem é você? Que tem a ver meu pai com esse Ubaldo?” O homem
fitou-o de relance, respondendo: “Lica, sabe. Faze anos, muitos
anos... Ah! O meu nome? Emílio, sim senhor, Emílio.” Entrou na
cozinha, os olhos nas panelas, dando a entender que estava
faminto.
Comera fartamente, a corcunda deformando o dorso. Depois,
sentando-se, acendeu o cachimbo. Disse, a voz pairando no ar
como uma lástima: “Eu não posso sair, ficarei aqui durante
muitos anos.” Calou-se, sacudindo a cabeça como um tonteado,
embuçado no solilóquio que se revelava pelo cochicho dos lábios.
Paulino Duarte, alegre por encontrar alguém que lhe fizesse
companhia, ouvindo o latejar das próprias têmporas, julgou fosse
ele um pouco doido. Perguntou-lhe: “Mas, como foi isso? De onde
vem seu conhecimento com meu pai? Por que Juca Pinheiro nunca me
falou nisso?” Ele interrompeu: “Espere, espere, eu conto.” E, já
na sala, trajando uma roupa enxuta que Paulino Duarte lhe
emprestara, a luz empalidecendo o seu rosto como se fosse de
cera e um escultor o houvesse feito naquela hora , começou a
narrar a sua história. Paulino Duarte não o interrompeu uma
única vez.
- Coisas existem, na nossa vida, infalíveis como a própria
morte. Tarde ou cedo, acabam por chegar um dia. Precisamos
aguardá-las com insensibilidade, quase com desprezo, para
vencê-las ou por elas sermos vencidos. A desgraça que me
esperava era uma coisa assim. Eu sabia que ela chegaria. Juro,
pela minha honra, que sabia. Aguardei-a, prevenido, dizendo a
mim mesmo, aconselhando-me naqueles ermos de Duas Barras: “O
difícil, Emílio velho, não é vencer, o difícil é saber
fracassar.” E esperava, hora a hora, que viesse, e me agarrasse
impiedosamente, transformando-me nisso, neste homem acuado que
agora sou. Antes - faz tantos anos , apesar de doente, sempre
fora uma criatura mais ou menos feliz. Meu pai, que Deus o tenha
no céu, morrendo, deixou-me a sua pequena fazenda. Vivia
deslumbrado, sem nenhum amargor, amigo de todo mundo. Ali,
esquecido naqueles ermos, aprendi a esmiuçar as coisas, decifrar
os mistérios, o campo me ensinava, ajudava-me a compreender a
vida. Tudo possuía um aspecto de alegria eterna, o sol ou o
vento, a noite ou a água. Gostava de ficar deitado sobre a
“barcaça” aberta, sonhando, contando indefinidamente as estrelas
do céu. Idealizava, naquelas noites de solidão, o céu nos meus
olhos como um desenho mágico, idealizava grandes aventuras,
exóticas histórias de amor e guerra. Sentia-me inocente como a
ave de ninho feito na cumeeira da casa. Assim - como é triste
lembrar! - decorreram anos, muitos anos da minha vida. Uma
tarde, porém, voltando do rio, encontrei um homem, uma pessoa
estranha. Chamava-se Manuel Pedro.
Quer saber quem era Manuel Pedro? Como era Manuel Pedro? Olhos
vivos de gato em uma fisionomia parada de estátua. Dir-se-ia não
haver sangue, sangue e nervos, no rosto chato. Apenas um bloco
de carne, sem pêlos, nariz acurvado como bico, testa ampla, boca
pequena, sempre fechada, escondendo os dentes de animal
carnívoro.
Obras: Renascimento do homem, ensaio (1937); Tasso da Silveira e
o tema da poesia eterna, ensaio (1940); Memórias de Lázaro,
romance (1952); Jornal de um escritor (1954); Modernos
ficcionistas brasileiros, ensaio (1958); Cornélio Pena, crítica
(1960); Corpo vivo, romance (1962); História da Bahia, ensaio
(1963); O bloqueio cultural, ensaio (1964); O forte, romance
(1965); Léguas da promissão, novela (1968); O romance brasileiro
de crítica, crítica (1969); Luanda Beira Bahia, romance (1971);
O romance brasileiro de 30, crítica (1973); Uma nota de cem,
lit. Infantil (1973); As velhas, romance (1975); Fora da pista,
lit. infantil (1978); O Largo da Palma, novela (1981); Auto de
Ilhéus, teatro (1981); Noite sem madrugada, romance (1983). As
obras de Adonias Filho foram traduzidas para o inglês, o alemão,
o espanhol, o francês e o eslovaco.
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