|
Foi o quinto dos sete filhos de Habib Assad Houaiss e Malvina
Farjalla Houaiss. Toda a sua formação intelectual foi no Rio de
Janeiro: primário no ensino público, perito-contador pela Escola
de Comércio Amaro Cavalcanti (1933); curso secundário de
madureza (1935); bacharel (1940) e licenciado (1942) em letras
clássicas pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade
do Brasil. Casou-se, em 1942, com Ruth Marques de Salles
(falecida a 4 de julho de 1988) e não teve filhos.
Foi professor, tendo lecionado português, latim e literatura no
magistério secundário oficial do então Distrito Federal, de 1934
a 1946, quando pediu exoneração, por força da lei de
desacumulação, ao optar pela carreira diplomática. Foi também
membro examinador de português de vários concursos promovidos
pelo DASP para preenchimento de cargos públicos (1941 a 1943);
colaborador permanente do DASP na elaboração de provas de
português para o serviço público (1942-1945), professor
contratado pela Divisão Cultural do Ministério das Relações
Exteriores para lecionar português e dar cursos sobre questões
culturais brasileiras no Instituto de Cultura
Uruguaio-Brasileiro de Montevidéu (1943 a 1945).
Na carreira diplomática, por concurso de provas em 1945, foi
vice-cônsul do Consulado Geral do Brasil em Genebra (1947 a
1949), servindo também como secretário da delegação permanente
do Brasil em Genebra, junto à Organização das Nações Unidas, e
integrando representações brasileiras a assembléias gerais das
Nações Unidas, da Organização Internacional do Trabalho, da
Organização Mundial da Saúde e da Organização Mundial de
Refugiados. Foi terceiro secretário da Embaixada no Brasil em
São Domingos, República Dominicana, de 1949 a 1951, e em Atenas,
de 1951 a 1953; primeiro secretário e depois ministro de segunda
classe da delegação permanente do Brasil junto à Organização das
Nações Unidas em Nova York, de 1960 a 1964; membro da Comissão
de Anistia de Presos Políticos de Ruanda-Urundi que em Usumbura
examinou os processos de 1.220 presos políticos, anistiados
todos pela Assembléia Geral das Nações Unidas por proposta da
referida comissão, em 1962; relator da IV Comissão da Assembléia
Geral das Nações Unidas (tutela e territórios não-autônomos), em
1963.
A serviço do Ministério das Relações Exteriores, consolidou as
14.000 instruções de serviço no primeiro Manual de serviço
(1947) desse Ministério, ainda vigente, com refundições. Foi
assessor de documentação da Presidência da República, de 1957 a
1960, quando foram publicados 83 volumes documentais do
qüinqüênio presidencial, segundo plano sistemário seu.
Aposentado, em 1964, por terem sido suspensos seus direitos
políticos por dez anos.
Foi secretário-geral do Primeiro Congresso Brasileiro de Língua
Falada no Teatro, realizado em 1956, em Salvador, para o qual
apresentou a tese que se tornou base das conclusões - normas da
língua falada culta no Brasil - e encarregado da elaboração dos
Anais respectivos (Rio de Janeiro e Salvador, 1958). Exerceu as
funções de colaborador e pesquisador na Casa de Rui Barbosa, de
1956 a 1958 e de secretário-geral do Primeiro Congresso
Brasileiro de Dialectologia e Etnografia (Porto Alegre, 1958),
elaborando os Anais respectivos, publicados pela Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro, em 1970.
Colaborou na imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, tendo
sido redator do Correio da Manhã (1964-1965). Membro da Comissão
Machado de Assis, desde a sua criação em 1958, e da Academia
Brasileira de Filologia, eleito em 1960. Exerceu a
superintendência na Editora Delta S/A, do Rio de Janeiro, de
1965 a 1970, e foi editor-chefe da Enciclopédia Mirador
Internacional.
Foi Presidente do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro
(1978-1981) e do Conselho de Administração da Associação
Brasileira de Imprensa (1983-1986). Membro da Comissão
constituída pelo Ministro da Justiça para estudar a legislação
censória e suas práticas no Brasil, e propor medidas
anticensórias (março-julho de 1984) e da Comissão para o
Estabelecimento de Diretrizes para o Aperfeiçoamento do
Ensino/Aprendizagem da Língua Portuguesa, instituída pelo
Decreto n. 91.372 de 26 de junho de 1985, com relatório
conclusivo de 20 de dezembro de 1985.
Exerceu o cargo de Delegado do Governo para proceder nos países
de língua oficial portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe), recebeu o convite
de presença à realização do Encontro para a Unificação
Ortográfica da Língua Portuguesa (janeiro - fevereiro de 1986),
foi membro da delegação brasileira no Encontro para a Unificação
Ortográfica da Língua Portuguesa, realizado no Rio de Janeiro de
6 a 12 de maio de 1986, do qual foi o secretário-geral e
delegado porta-voz brasileiro.
Integrou, em Brasília, na Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência, um grupo interdisciplinar sobre “A política da
língua”. Em 1988, organizou o Congresso Internacional de
Tradutores, realizado no Instituto Internacional de Cultura
(Campos - RJ), tendo sido o vice-presidente e o
secretário-executivo do Encontro.
Em 1989, fez parte, em Lisboa, do Júri do primeiro Prêmio Luís
de Camões, conferido a Miguel Torga. Foi nomeado para o Conselho
Federal de Cultura, do qual participou até a sua extinção. Em
1990, recebeu o Prêmio Moinho Santista, na categoria Língua.
Ministro da Cultura do Governo Itamar Franco (1993); foi membro
do Conselho Nacional de Política Cultural, do Ministério da
Cultura (1994-1995), de que foi vice-presidente e renunciou
dessa qualidade em abril de 1995. Foi presidente da Academia
Brasileira de Letras (1996).
CRÍTICA E ANTOLOGIA: Prefácio, in: Vida urbana (1956); Crítica
avulsa (1960); Seis poetas e um problema, estudos de crítica
literária, estilística e ecdótica (1967); Augusto dos anjos,
poesia, antologia, introdução e notas (1960); Qual prefácio, in:
A rima na poesia de Carlos Drummond de Andrade, de Hélcio
Martins (1968); Introdução, in: Reunião: 10 livros de poesia, de
Carlos Drummond de Andrade (1969); Crítica literária e
estruturalismo, in II Simpósio de língua e literatura portuguesa
(1969); Drummond mais Seis poetas e um problema (1976);
Homenagem a Joaquim Cardoso, conferência (1978); Estudos vários
sobre palavras, livros e autores (1979).
FILOLOGIA, BIBLIOLOGIA E DOCUMENTAÇÃO: Tentativa de descrição do
sistema vocálico do português culto na área dita carioca,
dialectologia e ortofonia (1959); Sugestões para uma política da
língua (1960); O Serviço de Documentação da Presidência da
República (1960); Introdução filológica às Memórias póstumas de
Brás Cubas, fixação do texto crítico (1961); Elementos de
bibliologia (1967); A crise de nossa língua de cultura (1983); O
português no Brasil (1985); O que é língua? (1990); A nova
ortografia da Língua Portuguesa (1991).
ENSAIO POLÍTICO: A defesa (1979); Brasil O fracasso do
conservadorismo, em colaboração com Pedro do Coutto (1985);
Brasil-URSS 40 anos do estabelecimento de relações diplomáticas,
obra coletiva (1985); Socialismo e liberdade, em colaboração com
Roberto Amaral (1990); Variações em torno do conceito de
democracia, em colaboração com Roberto Amaral (1992); Socialismo
Vida, morte e ressurreição (1993); A modernidade no Brasil
Conciliação ou ruptura? (1995); Os socialistas e a guerra.
Separata da Revista de Informação Legislativa (1991).
GASTRONOMIA E CULINÁRIA: Magia da cozinha brasileira,
iconografia de Alain Draeger (1979); A cerveja e seus mistérios
(1986).
FIXAÇÃO CRÍTICA DO TEXTO DE CLÁSSICOS BRASILEIROS: Obras, de
Lima Barreto, em colaboração com Francisco de Assis Barbosa e
Manuel Cavalcanti Proença (1956); O texto dos poemas, in:
Gonçalves Dias, poesia e prosa escolhida (1959); Memórias
póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1961); Eu, outras
poesias, poemas esquecidos, de Augusto dos Anjos (1965); Edições
críticas de Obras de Machado de Assis, pela Comissão Machado de
Assis (1975).
EDITORIA E ORGANIZAÇÃO DE OBRAS DE REFERÊNCIA: Anais do Primeiro
Congresso Brasileiro de Língua Falada no Teatro (1956); Novo
dicionário Barsa das línguas inglesa e portuguesa, 2 vols., em
colaboração com Catherine B. Avery (1964); Grande enciclopédia
Delta-Larousse, 12 vols.; Enciclopédia Mirador Internacional, 20
vols. e 1 atlas (1975); Pequeno dicionário enciclopédico
Koogan-Larousse (1979); Vocabulário ortográfico da Língua
Portuguesa, relator (1981); Webster's dicionário
inglês-português, 2 vols., em colaboração com Ismael Cardim e
outros (1982).
LÍNGUA E REALIDADE SOCIAL
O tema que nos reúne é a “expansão da língua”. Suspeito, aí, que
a língua é nossa, a portuguesa, e a expansão é a que houve, está
havendo e poderá ainda haver. Como estamos entre nós, é possível
que a variedade ou variante brasileira seja privilegiada nas
considerações seguintes.
Mas meu tema é a língua e a realidade social, a que está fora
dela, digamos assim, e a que nela, língua, se manifesta.
Importa-nos assim considerar primeiro alguns aspectos da
realidade social. Façamos isso num retrospecto rápido - uma
diacronia da sociedade, uma história da sociedade naquilo que
creio ser relevante para os nossos fins.
Não se trata de tentar sintetizar uma história - externa e
interna - da língua portuguesa no Brasil e a formação da
variedade brasileira ou variedades brasileiras, estudo esse que,
se de conjunto, depois de Serafim Silva Neto e Sílvio Edmundo
Elia, continua em aberto, tão grandes são as novas exigências
postuladas por semelhante empreendimento, ante o que se está
agora fazendo em termos de dialectologia, de etnolingüística e
de sociolingüística - para ficarmos nelas. É de crer mesmo que
convirá um compasso de espera para que possamos amealhar mais
material empírico daquelas procedências, sem contar o muito que
está ainda por fazer, a saber, o crivo da documentação (lato
sensu) histórica disponível e sua interpretação, como achegas
relevantes da história externa e interna da língua no Brasil.
A realidade social em que se insere a língua portuguesa nas
plagas brasílicas é a realidade de um ecúmeno sui generis no
continente americano. Marginal, necessariamente, para a cultura
conquistadora, tecnologicamente muito mais poderosa, sequiosa de
mercancia e mercantilismo, ocidentalmente cobiçosa e cristamente
ambígua no querer e fazer, a cultura indígena era das mais
atrasadas do mundo (e no continente americano só os extintos
patagões rivalizariam com ela nesse particular): os brasílicos
vivíamos (primeira pessoa do plural de empatia...), os
brasílicos vivíamos em estádios culturais compreendidos entre o
meio-fim do paleolítico e o meio-início do neolítico, quer em
culturas de coleta, quer em culturas agrícolas semi-sedentárias.
Em ambos os casos, exigiam-se extensos territórios para cada
nação, que, decorrentemente, era de baixa demografia. Não
sabemos quantos eram os brasílicos ao tempo do chamado
descobrimento e no primeiro século - mas suspeitamos que entre
4,5 e 2,5 milhões, a densidade possível de gente para a
rentabilidade possível da terra, baixa ante a atingida em terras
européias, asiáticas, africanas e mesmo americanas do Pacífico,
América Central e do Norte. Sob o risco de cairmos em
esquematizações excessivas, é lícito dizer que já pelo século
XIX se cria que os nossos indígenas pertenciam, numa
classificação lingüística genealógica, a poucos troncos, a que
se filiavam algumas centenas de línguas, correspondentes a
alguns milhares de tribos ou nações: afinidades étnicas e
lingüísticas permitiriam em certos casos federações e
confederações, desde Anchieta, o que leva a supor um maior ou
menor grau de intercomunicação entre certos grupos:
tratar-se-ia, sob certo aspecto, de uma região de humanidade
recente - 8 a 10 milênios - em que se dera uma progressiva
diferenciação lingüística, com incipientes processos, hoje
obscuros, de unificação, logo seguida de diferenciação (o que
parece ser o caso do chamado tupi).
Essa divisão horizontal, porque eminentemente territorial,
admite pensar, paralelamente, que pequenas ou quase inexistentes
eram, em cada nação, as segmentações verticais - pois salvo
segmentos sociais ocasionais por sexo ou por idade, sobretudo em
ritos de trânsito ou de iniciação, ou em práticas religiosas ou
hedonísticas, a vida era de participação muito comunitária, nada
permitindo supor que a precária divisão de tarefas, sempre
colegiadas, pudesse ser base de uma divisão em classes sociais e
decorrente especializado dialetal de usos lingüísticos. A
divisão horizontal por separação tribal para facilitar a
produção de bens e a reprodução do grupo devia ter sido o
caminho rápido para a diferenciação lingüística e a emergência
de novas línguas.
Assim, pois, é admissível pensar nuns primeiros momentos da
colonização em que a população brasílica está entre os dois
extremos de 4,5 e 2,5 milhões de indígenas, que deviam, de fato,
falar entre 2 - 1,5 mil línguas, em grande número de casos com
intercomunicação através dos línguas, sempre existentes em
situação de paz ou conflito, quando a partição territorial deve
ser permanentemente vigiada e negociada: a técnica de produção
brasílica supunha, para todos, áreas imensas de pousio, para
equilíbrio da natureza, hoje diríamos para reequilibração ou
reciclagem ecológica.
A intromissão do luso foi catastrófica para esse tipo de
estrutura social. Todo um conjunto de superioridades era próprio
ao português as técnicas em geral, em particular as de guerra, e
as econômicas e de relação de produção, pois buscavam o que
desse - produto, coleta, espólio, butim ou rapina - para o
escambo com o ultramar e o entesouramento, desejado de início
para o retorno à metrópole, quando o conquistador não é o
degredado ad vitam.
A partir do momento em que o conquistador busca ser proprietário
de terra, já pelos fins do século XVI, duas conseqüências disso
se positivam: a mão-de-obra nativa preada e baixada, se revela
progressivamente rebelde e, assim, inepta, impondo a experiência
já conhecida da mão-de-obra negra, como necessidade paralela com
a crescente usurpação ou redução dos territórios dos nativos.
Noutros termos, entradas e depois bandeiras - eufemismos para
caça ao nativo ou expulsão do nativo rebelde - foram reduzindo
os territórios dos indígenas, obrigando-os, ipso facto, ou a
deixarem de ser índios, extinguindo-se, ou a deixarem de ser
índios, aculturando-se. Já então se instituíra a prática de
comer: os índios, quando possível (quase nunca o foi) comiam os
lusos antropofágica e vindicativamente; os lusos as comiam,
figurativa mas fecundantemente, iniciando a funda miscigenação.
Com os negros, porém, na medida que diminuíam em número nações e
línguas indígenas, por etnódio ou por unificação indígena para a
resistência, a prática de afastamento dos co-étnicos,
co-linguageiros e co-familiares, prática sistemática que lhes
quebrava a resistência ao opróbrio e a própria identidade, que
só a língua lhes podia dar a fundo prática que só não se manteve
adentro da primeira metade do século XIX, nas antevésperas da
interrupção do tráfico, período em que a importação das peças
foi tão maciça que não houve como separar tais peças por aqueles
critérios - o que é uma da chaves para a compreenssão dos
levantes negros urbanos sangrentos da época.
O caldeamento - vá o termo sem conotação técnica -, o
caldeamento lingüístico deve ter sido enorme. Se os dados
iniciais, com relação aos índios, são aproximativamente os
referidos acima (4,5 a 2,5 milhões), para com os negros são
outros. Pesquisas recentes no Centre National de la Recherche
Scientifique, na França, permitem presumir hoje em dia que, até
a extinção do tráfico, o Brasil importou entre 3,5 a 3,8 milhões
de negros, enquanto os futuros Estados Unidos da América
importaram 800 mil, não mais: a proteção das peças escravas, seu
rendimento máximo, não se fez nas plagas conquistadas pelos
anglo-saxãos sem levar em altíssima conta que se tratava de gado
precioso, cujas crias puras eram também preciosas, donde um
resguardo cuidoso de sua vida média, sem torpezas brutas, pois
mais barato era cultivá-las que comprá-las. No Brasil malgrado
idealizações luso-tropicalescas a vida média do negro foi
baixíssima, e sua sustentação onerosíssima, se comparada com o
preço das peças novas: houve, assim, aqui, dilapidação desse
instrumento, com algumas características interessantes, por
exemplo, o largo uso das fêmeas para todos os fins de fêmeas,
desde os acidentalmente reprodutivos (com enorme mortalidade
infantil) até os prostibulares para rendimento dos seus, delas,
proprietários.
Salvo nos quilombos - alguns dos quais chegaram aos dias de hoje
já abertos a todos - onde falares negros e prováveis línguas
francas se terão desenvolvido, não é lícito supor que outras
influências negras se desenvolveram, pelo menos
lingüisticamente: os escravos, em particular as escravas,
domésticos, solitários étnica e lingüisticamente, terão tido
influências afetivas, sentimentais, conteudísticas e, acaso - e
quando estaremos a esse respeito em condições de negar ou
afirmar? - e acaso, repito, adstratais. No auge da concentração
africana, ademais coesa, adentro (como disse) da primeira metade
do século XIX, as línguas africanas - sobretudo um possível
nagô, franco - já se defrontavam com a língua portuguesa em
situação majoritária, relativa e absolutamente: por relativo,
quer-se dizer que no cotejo de cada grupo lingüístico, numa
região ou local “civilizado”, brasileiro, a língua portuguesa em
situação majoritária, relativa e absolutamente: por relativo,
quer-se dizer que no cotejo de cada grupo lingüístico, numa
região ou local “civilizado”, brasileiro, a língua portuguesa já
era maioria, em face das outras, a franca ou geral e as
localíssimas, supérstites tribais; por absoluto, na aferição
total dos percentuais brasileiros de língua portuguesa, de um
lado, e as outras, quaisquer, de outro.
Na luta linguageira de que o Brasil foi palco durante três
séculos, o cimento comum para a vida prática cotidiana foi, em
crescendo, a língua geral, disciplinada para fins da
“escolarização” incipiente pela didática da catequese jesuítica,
a única escolaridade institucionalizada que, com outra missões
católicas, a terra teve por muitas décadas.
Quando, na segunda metade do século XVIII, a Coroa dispõe que os
papéis oficiais e as relações no Brasil só se fizessem em língua
portuguesa, o que espanta é a visão política: língua outra não
teria o favor do rei, não teria a favor do Estado. Mas que
língua outra - se escrita - seria essa? Latim, espanhol,
francês, holandês? Ou as sós seis cartas em língua escritas em
caracteres latinos por escriba de Filipe Camarão para
congraçamento indígena conta batavos?
Antes da Independência, um evento capital para a língua
portuguesa no Brasil foi o recebimento repentino de 16 - 18 mil
portugueses, de fala “moderna”, isto é, com traços foneticamente
inovadores mas metropolitanos, na capital do vice-reino, a
cidade do Rio de Janeiro, que logo passava a capital do reino
por curto período: essa população adventícia dobrou a população
da cidade e sua periferia, fazendo que a intercomunicação só se
fizesse avassaladoramente através da língua portuguesa
“modernizada”, alastrando-se tais características modernizantes
pela província do Rio de Janeiro, pelo litoral norte acima, pelo
litoral sul abaixo até a baixada e o porto de Santos.
A crítica recíproca dos brasileiros entre si - quanto à “beleza”
e à “correção” de seus falares - desde os inícios do século XIX
documentada, é sintomática de duas coisas: primeiro, a
dialetação horizontal já era uma realidade; segundo, a vertical
na vida social brasileira era também uma realidade; terceiro, a
transvertical ou trans-horizontal entre o Brasil e a Metrópole
era também uma terceira realidade.
Permita-se-me um rápido comentário com relação à dialetação
horizontal: quero relembrar apenas que houve épocas em que ela
se explicava já por influxo indígena, já por africano, já por
uma espécie de crioulização, numa até talvez língua híbrida,
instável por certo bilingüismo ou multilingüismo incompleto,
tese a que se opõe a de dialetação endógena, românica - qualquer
fato dialetal do português do Brasil que pudesse ter paralelo
com fato dialetal românico europeu e em particular peninsular
ibérico e em particular português era mais bem explicado por
essa via.
Com relação à dialetação vertical do português do Brasil, é
mister, desde o início, admitir uma incipiente diferenciação
entre a fala do luso e a fala do nascido e vivido na terra,
diferenciação que a esse título tendeu a crescer. Essa
tendência, aliás, tem sido objeto de inquirições de vários
tipos. Com relação ao âmbito do português, Israel Revah, já na
década de 1950, chamava a atenção para o fato de que, num
sistema cujo foco fora para o português quinhentista e cujos
ramos atuais fossem o português metropolitano, o brasileiro, o
angolano, o moçambicano, o cabo-verdiano, o guineense, o
macauense e o goense, estes últimos todos teriam entre si muito
mais afinidade, sobretudo no vocalismo, do que cada um com o
português moderno. Estematicamente, supor-se-ia um índice de
alternações no português metropolitano, nestes quatro séculos,
maior do que nos portugueses ultramarinos.
Devo ainda relembrar que, com relação ao julgamento de valor do
português do Brasil, seja, a variante brasileira, e o português
de Portugal, seja, a variante portuguesa é conveniente dizer
duas coisas: primeiro, que a língua escrita para fins
artísticos, e mesmo científicos e universalistas, buscou no
Brasil modelar-se mesmo com o interregno de “abrasileiramento”
do romantismo nos padrões portugueses; segundo, aqui mesmo,
cultivamos a “consciência” (diríamos hoje a ideologia) de que os
proprietários da língua eram os portugueses, cabendo-lhes a eles
sós ditar o que fazer com essa coisa sua deles. No plano do
dialeto literário e seu ensino, relembremos que foi com Sousa da
Silveira, por 1928, que se principiou, na preceptiva, a
exemplificar com autores brasileiros, é bem verdade que em
maioria naqueles casos em que os brasileiros coincidiam com os
portugueses...
A realidade social brasileira, do ponto de vista lingüístico,
mostra, ao longo do seu processo histórico, um número ponderável
de traços relevantes. Referirei alguns, ao sabor de minhas -
digamos - preferências.
Eis um: a luta lingüística foi efetivamente popular de
representantes das populações conquistadas e conquistandas, sem
possível direção da classe dominante e do aparelho estatal da
instrução: ironicamente, o ensino de línguas escolarizado foi o
do latim ou o da língua geral. É que fomos, no essencial, uma
cultura ágrafa e continuamos, agora, quase que realizando,
caricaturalmente, por antecipação, o sonho ou o pesadelo ou o
futurograma da “aldeia global”: transitaremos de uma cultura
ágrafa iliteratada de mera comunicação interpessoal para uma
cultura ágrafa para-literatada de comunicação de massas.
Eis outro: houve um brutal hiato entre os pouquíssimos letrados
que a cultura da cana e a do ouro possibilitou continuar pelo
século XIX e inícios do século XX, e a grandíssima parte da
população. Deixando, assim, ao deus-dará tão alto índice de
intercomunicabilidade na unidade linguageira, busca-se com
dificuldade uma explicação para isso: ou se contesta essa
unidade lingüística, apelando-se para o nosso multilingüismo ou
se contesta o unilingüismo, apelando-se para a dialetação
existente. Esta, porém, ainda assim, parece ser - se comparada
com a do âmbito românico - de tipo histórico-social bem
diferente, cuja explicação ou racionalização talvez não comporte
extrapolação ou raciocínio analógico.
Língua de escravos e senhores, ou de senhores e escravos, com
restrita diferenciação social ao longo do processo de
transmissão do português mesmo, a unidade na extensão do
território é um fato, parece um fato, que a culturalização dos
inícios deste século para cá tem alterado. Há, como efeito, já
hoje, uma seção da população que, além da aquisição social não
instrumentada ou institucionalizada da língua como vernáculo,
sofre a influência da escolaridade. Há razões para crer que essa
escolaridade tem tido efeito sobre a fala culta e também
“inculta” dos vários centros urbanos de relevo regional no país.
Quanto à parte aberta, o vocabulário, isso é ponto pacifico.
Assistimos, assim, a um tipo de linguagem que não pode ser
estudado (e transmitido) sob parâmetros lingüísticos “puros” nem
dialetológicos estritos. A um tempo, a sociolingüística urbana e
vertical e sua ação rural e horizontal deve ser acompanhada de
uma sociolingüística da língua literatada, pois a ação dessa
língua dos meios em que é instrumento profissional para a
transmissão dela mesma ou para a comunicação de massa é no
Brasil, como nas culturas complexas modernas ou modernizantes,
elemento de peso cuja análise e interpretação importa cada vez
mais a tal ponto que o indivíduo podo pesar no todo: um idioleto
sofisticado é bem o termo - pode ser multiplicado por um, mil,
um milhão de usuários passivos, que sofrerão por certo a cada
vez um infinitésimo da influência eventualmente estruturável.
Restam-me perguntas:
Não estaremos pobres de instrumentação normativa?
Não devemos ter coragem de pensar numa variedade lingüística
nacional que se compadeça com as regionais e que convivam para o
bem comum. numa variedade mais abrangente?
Entre a aristocratização da língua escrita e sua anarquização,
não haverá um termo de referência democratizante que não nos
lembre que há algo de podre no reino da Dinamarca?
Como criar a escolaridade que efetivamente dê conta da
complexidade da aquisição da linguagem de modo criador?
Como colaborar para que a comunidade lusofônica no mundo seja
uma realidade de partes reciprocamente interessadas nesse bem
comum que lhes é a língua comum?
Sou - como se vê - só indagações, quase sem resposta.
Mas uma coisa eu sei: dizer-lhes muito obrigado pela atenção com
que me ouviram e pela paciência que tiveram: muito obrigado.*
* Palestra no VIII Curso de Férias do Instituto de Estudos
Brasileiros sobre “A expansão da língua” (Revista do Instituto
de Estudos Brasileiros, n. 22, Universidade de São Paulo, São
Paulo, 1980, p. 53-58).
(A crise de nossa língua de cultura, 1983.)
|