Antonio Houaiss

Antonio Houaiss, professor, diplomata, filólogo, lexicógrafo e ensaísta, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 15 de outubro de 1915 e faleceu no dia 07 de março de 1999, na mesma cidade. Eleito em 1º de abril de 1971 para a Cadeira n. 17, na sucessão de Álvaro Lins, foi recebido em 27 de agosto de 1971, pelo acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco.


Foi o quinto dos sete filhos de Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss. Toda a sua formação intelectual foi no Rio de Janeiro: primário no ensino público, perito-contador pela Escola de Comércio Amaro Cavalcanti (1933); curso secundário de madureza (1935); bacharel (1940) e licenciado (1942) em letras clássicas pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Casou-se, em 1942, com Ruth Marques de Salles (falecida a 4 de julho de 1988) e não teve filhos.

Foi professor, tendo lecionado português, latim e literatura no magistério secundário oficial do então Distrito Federal, de 1934 a 1946, quando pediu exoneração, por força da lei de desacumulação, ao optar pela carreira diplomática. Foi também membro examinador de português de vários concursos promovidos pelo DASP para preenchimento de cargos públicos (1941 a 1943); colaborador permanente do DASP na elaboração de provas de português para o serviço público (1942-1945), professor contratado pela Divisão Cultural do Ministério das Relações Exteriores para lecionar português e dar cursos sobre questões culturais brasileiras no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro de Montevidéu (1943 a 1945).

Na carreira diplomática, por concurso de provas em 1945, foi vice-cônsul do Consulado Geral do Brasil em Genebra (1947 a 1949), servindo também como secretário da delegação permanente do Brasil em Genebra, junto à Organização das Nações Unidas, e integrando representações brasileiras a assembléias gerais das Nações Unidas, da Organização Internacional do Trabalho, da Organização Mundial da Saúde e da Organização Mundial de Refugiados. Foi terceiro secretário da Embaixada no Brasil em São Domingos, República Dominicana, de 1949 a 1951, e em Atenas, de 1951 a 1953; primeiro secretário e depois ministro de segunda classe da delegação permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas em Nova York, de 1960 a 1964; membro da Comissão de Anistia de Presos Políticos de Ruanda-Urundi que em Usumbura examinou os processos de 1.220 presos políticos, anistiados todos pela Assembléia Geral das Nações Unidas por proposta da referida comissão, em 1962; relator da IV Comissão da Assembléia Geral das Nações Unidas (tutela e territórios não-autônomos), em 1963.

A serviço do Ministério das Relações Exteriores, consolidou as 14.000 instruções de serviço no primeiro Manual de serviço (1947) desse Ministério, ainda vigente, com refundições. Foi assessor de documentação da Presidência da República, de 1957 a 1960, quando foram publicados 83 volumes documentais do qüinqüênio presidencial, segundo plano sistemário seu. Aposentado, em 1964, por terem sido suspensos seus direitos políticos por dez anos.

Foi secretário-geral do Primeiro Congresso Brasileiro de Língua Falada no Teatro, realizado em 1956, em Salvador, para o qual apresentou a tese que se tornou base das conclusões - normas da língua falada culta no Brasil - e encarregado da elaboração dos Anais respectivos (Rio de Janeiro e Salvador, 1958). Exerceu as funções de colaborador e pesquisador na Casa de Rui Barbosa, de 1956 a 1958 e de secretário-geral do Primeiro Congresso Brasileiro de Dialectologia e Etnografia (Porto Alegre, 1958), elaborando os Anais respectivos, publicados pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em 1970.

Colaborou na imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, tendo sido redator do Correio da Manhã (1964-1965). Membro da Comissão Machado de Assis, desde a sua criação em 1958, e da Academia Brasileira de Filologia, eleito em 1960. Exerceu a superintendência na Editora Delta S/A, do Rio de Janeiro, de 1965 a 1970, e foi editor-chefe da Enciclopédia Mirador Internacional.

Foi Presidente do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro (1978-1981) e do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Imprensa (1983-1986). Membro da Comissão constituída pelo Ministro da Justiça para estudar a legislação censória e suas práticas no Brasil, e propor medidas anticensórias (março-julho de 1984) e da Comissão para o Estabelecimento de Diretrizes para o Aperfeiçoamento do Ensino/Aprendizagem da Língua Portuguesa, instituída pelo Decreto n. 91.372 de 26 de junho de 1985, com relatório conclusivo de 20 de dezembro de 1985.

Exerceu o cargo de Delegado do Governo para proceder nos países de língua oficial portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe), recebeu o convite de presença à realização do Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa (janeiro - fevereiro de 1986), foi membro da delegação brasileira no Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, realizado no Rio de Janeiro de 6 a 12 de maio de 1986, do qual foi o secretário-geral e delegado porta-voz brasileiro.

Integrou, em Brasília, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, um grupo interdisciplinar sobre “A política da língua”. Em 1988, organizou o Congresso Internacional de Tradutores, realizado no Instituto Internacional de Cultura (Campos - RJ), tendo sido o vice-presidente e o secretário-executivo do Encontro.

Em 1989, fez parte, em Lisboa, do Júri do primeiro Prêmio Luís de Camões, conferido a Miguel Torga. Foi nomeado para o Conselho Federal de Cultura, do qual participou até a sua extinção. Em 1990, recebeu o Prêmio Moinho Santista, na categoria Língua.

Ministro da Cultura do Governo Itamar Franco (1993); foi membro do Conselho Nacional de Política Cultural, do Ministério da Cultura (1994-1995), de que foi vice-presidente e renunciou dessa qualidade em abril de 1995. Foi presidente da Academia Brasileira de Letras (1996).

CRÍTICA E ANTOLOGIA: Prefácio, in: Vida urbana (1956); Crítica avulsa (1960); Seis poetas e um problema, estudos de crítica literária, estilística e ecdótica (1967); Augusto dos anjos, poesia, antologia, introdução e notas (1960); Qual prefácio, in: A rima na poesia de Carlos Drummond de Andrade, de Hélcio Martins (1968); Introdução, in: Reunião: 10 livros de poesia, de Carlos Drummond de Andrade (1969); Crítica literária e estruturalismo, in II Simpósio de língua e literatura portuguesa (1969); Drummond mais Seis poetas e um problema (1976); Homenagem a Joaquim Cardoso, conferência (1978); Estudos vários sobre palavras, livros e autores (1979).

FILOLOGIA, BIBLIOLOGIA E DOCUMENTAÇÃO: Tentativa de descrição do sistema vocálico do português culto na área dita carioca, dialectologia e ortofonia (1959); Sugestões para uma política da língua (1960); O Serviço de Documentação da Presidência da República (1960); Introdução filológica às Memórias póstumas de Brás Cubas, fixação do texto crítico (1961); Elementos de bibliologia (1967); A crise de nossa língua de cultura (1983); O português no Brasil (1985); O que é língua? (1990); A nova ortografia da Língua Portuguesa (1991).

ENSAIO POLÍTICO: A defesa (1979); Brasil O fracasso do conservadorismo, em colaboração com Pedro do Coutto (1985); Brasil-URSS 40 anos do estabelecimento de relações diplomáticas, obra coletiva (1985); Socialismo e liberdade, em colaboração com Roberto Amaral (1990); Variações em torno do conceito de democracia, em colaboração com Roberto Amaral (1992); Socialismo Vida, morte e ressurreição (1993); A modernidade no Brasil Conciliação ou ruptura? (1995); Os socialistas e a guerra. Separata da Revista de Informação Legislativa (1991).

GASTRONOMIA E CULINÁRIA: Magia da cozinha brasileira, iconografia de Alain Draeger (1979); A cerveja e seus mistérios (1986).
FIXAÇÃO CRÍTICA DO TEXTO DE CLÁSSICOS BRASILEIROS: Obras, de Lima Barreto, em colaboração com Francisco de Assis Barbosa e Manuel Cavalcanti Proença (1956); O texto dos poemas, in: Gonçalves Dias, poesia e prosa escolhida (1959); Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1961); Eu, outras poesias, poemas esquecidos, de Augusto dos Anjos (1965); Edições críticas de Obras de Machado de Assis, pela Comissão Machado de Assis (1975).

EDITORIA E ORGANIZAÇÃO DE OBRAS DE REFERÊNCIA: Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Língua Falada no Teatro (1956); Novo dicionário Barsa das línguas inglesa e portuguesa, 2 vols., em colaboração com Catherine B. Avery (1964); Grande enciclopédia Delta-Larousse, 12 vols.; Enciclopédia Mirador Internacional, 20 vols. e 1 atlas (1975); Pequeno dicionário enciclopédico Koogan-Larousse (1979); Vocabulário ortográfico da Língua Portuguesa, relator (1981); Webster's dicionário inglês-português, 2 vols., em colaboração com Ismael Cardim e outros (1982).


LÍNGUA E REALIDADE SOCIAL

O tema que nos reúne é a “expansão da língua”. Suspeito, aí, que a língua é nossa, a portuguesa, e a expansão é a que houve, está havendo e poderá ainda haver. Como estamos entre nós, é possível que a variedade ou variante brasileira seja privilegiada nas considerações seguintes.
Mas meu tema é a língua e a realidade social, a que está fora dela, digamos assim, e a que nela, língua, se manifesta.
Importa-nos assim considerar primeiro alguns aspectos da realidade social. Façamos isso num retrospecto rápido - uma diacronia da sociedade, uma história da sociedade naquilo que creio ser relevante para os nossos fins.
Não se trata de tentar sintetizar uma história - externa e interna - da língua portuguesa no Brasil e a formação da variedade brasileira ou variedades brasileiras, estudo esse que, se de conjunto, depois de Serafim Silva Neto e Sílvio Edmundo Elia, continua em aberto, tão grandes são as novas exigências postuladas por semelhante empreendimento, ante o que se está agora fazendo em termos de dialectologia, de etnolingüística e de sociolingüística - para ficarmos nelas. É de crer mesmo que convirá um compasso de espera para que possamos amealhar mais material empírico daquelas procedências, sem contar o muito que está ainda por fazer, a saber, o crivo da documentação (lato sensu) histórica disponível e sua interpretação, como achegas relevantes da história externa e interna da língua no Brasil.

A realidade social em que se insere a língua portuguesa nas plagas brasílicas é a realidade de um ecúmeno sui generis no continente americano. Marginal, necessariamente, para a cultura conquistadora, tecnologicamente muito mais poderosa, sequiosa de mercancia e mercantilismo, ocidentalmente cobiçosa e cristamente ambígua no querer e fazer, a cultura indígena era das mais atrasadas do mundo (e no continente americano só os extintos patagões rivalizariam com ela nesse particular): os brasílicos vivíamos (primeira pessoa do plural de empatia...), os brasílicos vivíamos em estádios culturais compreendidos entre o meio-fim do paleolítico e o meio-início do neolítico, quer em culturas de coleta, quer em culturas agrícolas semi-sedentárias. Em ambos os casos, exigiam-se extensos territórios para cada nação, que, decorrentemente, era de baixa demografia. Não sabemos quantos eram os brasílicos ao tempo do chamado descobrimento e no primeiro século - mas suspeitamos que entre 4,5 e 2,5 milhões, a densidade possível de gente para a rentabilidade possível da terra, baixa ante a atingida em terras européias, asiáticas, africanas e mesmo americanas do Pacífico, América Central e do Norte. Sob o risco de cairmos em esquematizações excessivas, é lícito dizer que já pelo século XIX se cria que os nossos indígenas pertenciam, numa classificação lingüística genealógica, a poucos troncos, a que se filiavam algumas centenas de línguas, correspondentes a alguns milhares de tribos ou nações: afinidades étnicas e lingüísticas permitiriam em certos casos federações e confederações, desde Anchieta, o que leva a supor um maior ou menor grau de intercomunicação entre certos grupos: tratar-se-ia, sob certo aspecto, de uma região de humanidade recente - 8 a 10 milênios - em que se dera uma progressiva diferenciação lingüística, com incipientes processos, hoje obscuros, de unificação, logo seguida de diferenciação (o que parece ser o caso do chamado tupi).

Essa divisão horizontal, porque eminentemente territorial, admite pensar, paralelamente, que pequenas ou quase inexistentes eram, em cada nação, as segmentações verticais - pois salvo segmentos sociais ocasionais por sexo ou por idade, sobretudo em ritos de trânsito ou de iniciação, ou em práticas religiosas ou hedonísticas, a vida era de participação muito comunitária, nada permitindo supor que a precária divisão de tarefas, sempre colegiadas, pudesse ser base de uma divisão em classes sociais e decorrente especializado dialetal de usos lingüísticos. A divisão horizontal por separação tribal para facilitar a produção de bens e a reprodução do grupo devia ter sido o caminho rápido para a diferenciação lingüística e a emergência de novas línguas.

Assim, pois, é admissível pensar nuns primeiros momentos da colonização em que a população brasílica está entre os dois extremos de 4,5 e 2,5 milhões de indígenas, que deviam, de fato, falar entre 2 - 1,5 mil línguas, em grande número de casos com intercomunicação através dos línguas, sempre existentes em situação de paz ou conflito, quando a partição territorial deve ser permanentemente vigiada e negociada: a técnica de produção brasílica supunha, para todos, áreas imensas de pousio, para equilíbrio da natureza, hoje diríamos para reequilibração ou reciclagem ecológica.

A intromissão do luso foi catastrófica para esse tipo de estrutura social. Todo um conjunto de superioridades era próprio ao português as técnicas em geral, em particular as de guerra, e as econômicas e de relação de produção, pois buscavam o que desse - produto, coleta, espólio, butim ou rapina - para o escambo com o ultramar e o entesouramento, desejado de início para o retorno à metrópole, quando o conquistador não é o degredado ad vitam.

A partir do momento em que o conquistador busca ser proprietário de terra, já pelos fins do século XVI, duas conseqüências disso se positivam: a mão-de-obra nativa preada e baixada, se revela progressivamente rebelde e, assim, inepta, impondo a experiência já conhecida da mão-de-obra negra, como necessidade paralela com a crescente usurpação ou redução dos territórios dos nativos. Noutros termos, entradas e depois bandeiras - eufemismos para caça ao nativo ou expulsão do nativo rebelde - foram reduzindo os territórios dos indígenas, obrigando-os, ipso facto, ou a deixarem de ser índios, extinguindo-se, ou a deixarem de ser índios, aculturando-se. Já então se instituíra a prática de comer: os índios, quando possível (quase nunca o foi) comiam os lusos antropofágica e vindicativamente; os lusos as comiam, figurativa mas fecundantemente, iniciando a funda miscigenação. Com os negros, porém, na medida que diminuíam em número nações e línguas indígenas, por etnódio ou por unificação indígena para a resistência, a prática de afastamento dos co-étnicos, co-linguageiros e co-familiares, prática sistemática que lhes quebrava a resistência ao opróbrio e a própria identidade, que só a língua lhes podia dar a fundo prática que só não se manteve adentro da primeira metade do século XIX, nas antevésperas da interrupção do tráfico, período em que a importação das peças foi tão maciça que não houve como separar tais peças por aqueles critérios - o que é uma da chaves para a compreenssão dos levantes negros urbanos sangrentos da época.
O caldeamento - vá o termo sem conotação técnica -, o caldeamento lingüístico deve ter sido enorme. Se os dados iniciais, com relação aos índios, são aproximativamente os referidos acima (4,5 a 2,5 milhões), para com os negros são outros. Pesquisas recentes no Centre National de la Recherche Scientifique, na França, permitem presumir hoje em dia que, até a extinção do tráfico, o Brasil importou entre 3,5 a 3,8 milhões de negros, enquanto os futuros Estados Unidos da América importaram 800 mil, não mais: a proteção das peças escravas, seu rendimento máximo, não se fez nas plagas conquistadas pelos anglo-saxãos sem levar em altíssima conta que se tratava de gado precioso, cujas crias puras eram também preciosas, donde um resguardo cuidoso de sua vida média, sem torpezas brutas, pois mais barato era cultivá-las que comprá-las. No Brasil malgrado idealizações luso-tropicalescas a vida média do negro foi baixíssima, e sua sustentação onerosíssima, se comparada com o preço das peças novas: houve, assim, aqui, dilapidação desse instrumento, com algumas características interessantes, por exemplo, o largo uso das fêmeas para todos os fins de fêmeas, desde os acidentalmente reprodutivos (com enorme mortalidade infantil) até os prostibulares para rendimento dos seus, delas, proprietários.

Salvo nos quilombos - alguns dos quais chegaram aos dias de hoje já abertos a todos - onde falares negros e prováveis línguas francas se terão desenvolvido, não é lícito supor que outras influências negras se desenvolveram, pelo menos lingüisticamente: os escravos, em particular as escravas, domésticos, solitários étnica e lingüisticamente, terão tido influências afetivas, sentimentais, conteudísticas e, acaso - e quando estaremos a esse respeito em condições de negar ou afirmar? - e acaso, repito, adstratais. No auge da concentração africana, ademais coesa, adentro (como disse) da primeira metade do século XIX, as línguas africanas - sobretudo um possível nagô, franco - já se defrontavam com a língua portuguesa em situação majoritária, relativa e absolutamente: por relativo, quer-se dizer que no cotejo de cada grupo lingüístico, numa região ou local “civilizado”, brasileiro, a língua portuguesa em situação majoritária, relativa e absolutamente: por relativo, quer-se dizer que no cotejo de cada grupo lingüístico, numa região ou local “civilizado”, brasileiro, a língua portuguesa já era maioria, em face das outras, a franca ou geral e as localíssimas, supérstites tribais; por absoluto, na aferição total dos percentuais brasileiros de língua portuguesa, de um lado, e as outras, quaisquer, de outro.

Na luta linguageira de que o Brasil foi palco durante três séculos, o cimento comum para a vida prática cotidiana foi, em crescendo, a língua geral, disciplinada para fins da “escolarização” incipiente pela didática da catequese jesuítica, a única escolaridade institucionalizada que, com outra missões católicas, a terra teve por muitas décadas.

Quando, na segunda metade do século XVIII, a Coroa dispõe que os papéis oficiais e as relações no Brasil só se fizessem em língua portuguesa, o que espanta é a visão política: língua outra não teria o favor do rei, não teria a favor do Estado. Mas que língua outra - se escrita - seria essa? Latim, espanhol, francês, holandês? Ou as sós seis cartas em língua escritas em caracteres latinos por escriba de Filipe Camarão para congraçamento indígena conta batavos?

Antes da Independência, um evento capital para a língua portuguesa no Brasil foi o recebimento repentino de 16 - 18 mil portugueses, de fala “moderna”, isto é, com traços foneticamente inovadores mas metropolitanos, na capital do vice-reino, a cidade do Rio de Janeiro, que logo passava a capital do reino por curto período: essa população adventícia dobrou a população da cidade e sua periferia, fazendo que a intercomunicação só se fizesse avassaladoramente através da língua portuguesa “modernizada”, alastrando-se tais características modernizantes pela província do Rio de Janeiro, pelo litoral norte acima, pelo litoral sul abaixo até a baixada e o porto de Santos.

A crítica recíproca dos brasileiros entre si - quanto à “beleza” e à “correção” de seus falares - desde os inícios do século XIX documentada, é sintomática de duas coisas: primeiro, a dialetação horizontal já era uma realidade; segundo, a vertical na vida social brasileira era também uma realidade; terceiro, a transvertical ou trans-horizontal entre o Brasil e a Metrópole era também uma terceira realidade.

Permita-se-me um rápido comentário com relação à dialetação horizontal: quero relembrar apenas que houve épocas em que ela se explicava já por influxo indígena, já por africano, já por uma espécie de crioulização, numa até talvez língua híbrida, instável por certo bilingüismo ou multilingüismo incompleto, tese a que se opõe a de dialetação endógena, românica - qualquer fato dialetal do português do Brasil que pudesse ter paralelo com fato dialetal românico europeu e em particular peninsular ibérico e em particular português era mais bem explicado por essa via.

Com relação à dialetação vertical do português do Brasil, é mister, desde o início, admitir uma incipiente diferenciação entre a fala do luso e a fala do nascido e vivido na terra, diferenciação que a esse título tendeu a crescer. Essa tendência, aliás, tem sido objeto de inquirições de vários tipos. Com relação ao âmbito do português, Israel Revah, já na década de 1950, chamava a atenção para o fato de que, num sistema cujo foco fora para o português quinhentista e cujos ramos atuais fossem o português metropolitano, o brasileiro, o angolano, o moçambicano, o cabo-verdiano, o guineense, o macauense e o goense, estes últimos todos teriam entre si muito mais afinidade, sobretudo no vocalismo, do que cada um com o português moderno. Estematicamente, supor-se-ia um índice de alternações no português metropolitano, nestes quatro séculos, maior do que nos portugueses ultramarinos.

Devo ainda relembrar que, com relação ao julgamento de valor do português do Brasil, seja, a variante brasileira, e o português de Portugal, seja, a variante portuguesa é conveniente dizer duas coisas: primeiro, que a língua escrita para fins artísticos, e mesmo científicos e universalistas, buscou no Brasil modelar-se mesmo com o interregno de “abrasileiramento” do romantismo nos padrões portugueses; segundo, aqui mesmo, cultivamos a “consciência” (diríamos hoje a ideologia) de que os proprietários da língua eram os portugueses, cabendo-lhes a eles sós ditar o que fazer com essa coisa sua deles. No plano do dialeto literário e seu ensino, relembremos que foi com Sousa da Silveira, por 1928, que se principiou, na preceptiva, a exemplificar com autores brasileiros, é bem verdade que em maioria naqueles casos em que os brasileiros coincidiam com os portugueses...

A realidade social brasileira, do ponto de vista lingüístico, mostra, ao longo do seu processo histórico, um número ponderável de traços relevantes. Referirei alguns, ao sabor de minhas - digamos - preferências.

Eis um: a luta lingüística foi efetivamente popular de representantes das populações conquistadas e conquistandas, sem possível direção da classe dominante e do aparelho estatal da instrução: ironicamente, o ensino de línguas escolarizado foi o do latim ou o da língua geral. É que fomos, no essencial, uma cultura ágrafa e continuamos, agora, quase que realizando, caricaturalmente, por antecipação, o sonho ou o pesadelo ou o futurograma da “aldeia global”: transitaremos de uma cultura ágrafa iliteratada de mera comunicação interpessoal para uma cultura ágrafa para-literatada de comunicação de massas.

Eis outro: houve um brutal hiato entre os pouquíssimos letrados que a cultura da cana e a do ouro possibilitou continuar pelo século XIX e inícios do século XX, e a grandíssima parte da população. Deixando, assim, ao deus-dará tão alto índice de intercomunicabilidade na unidade linguageira, busca-se com dificuldade uma explicação para isso: ou se contesta essa unidade lingüística, apelando-se para o nosso multilingüismo ou se contesta o unilingüismo, apelando-se para a dialetação existente. Esta, porém, ainda assim, parece ser - se comparada com a do âmbito românico - de tipo histórico-social bem diferente, cuja explicação ou racionalização talvez não comporte extrapolação ou raciocínio analógico.

Língua de escravos e senhores, ou de senhores e escravos, com restrita diferenciação social ao longo do processo de transmissão do português mesmo, a unidade na extensão do território é um fato, parece um fato, que a culturalização dos inícios deste século para cá tem alterado. Há, como efeito, já hoje, uma seção da população que, além da aquisição social não instrumentada ou institucionalizada da língua como vernáculo, sofre a influência da escolaridade. Há razões para crer que essa escolaridade tem tido efeito sobre a fala culta e também “inculta” dos vários centros urbanos de relevo regional no país. Quanto à parte aberta, o vocabulário, isso é ponto pacifico. Assistimos, assim, a um tipo de linguagem que não pode ser estudado (e transmitido) sob parâmetros lingüísticos “puros” nem dialetológicos estritos. A um tempo, a sociolingüística urbana e vertical e sua ação rural e horizontal deve ser acompanhada de uma sociolingüística da língua literatada, pois a ação dessa língua dos meios em que é instrumento profissional para a transmissão dela mesma ou para a comunicação de massa é no Brasil, como nas culturas complexas modernas ou modernizantes, elemento de peso cuja análise e interpretação importa cada vez mais a tal ponto que o indivíduo podo pesar no todo: um idioleto sofisticado é bem o termo - pode ser multiplicado por um, mil, um milhão de usuários passivos, que sofrerão por certo a cada vez um infinitésimo da influência eventualmente estruturável.

Restam-me perguntas:
Não estaremos pobres de instrumentação normativa?
Não devemos ter coragem de pensar numa variedade lingüística nacional que se compadeça com as regionais e que convivam para o bem comum. numa variedade mais abrangente?
Entre a aristocratização da língua escrita e sua anarquização, não haverá um termo de referência democratizante que não nos lembre que há algo de podre no reino da Dinamarca?
Como criar a escolaridade que efetivamente dê conta da complexidade da aquisição da linguagem de modo criador?
Como colaborar para que a comunidade lusofônica no mundo seja uma realidade de partes reciprocamente interessadas nesse bem comum que lhes é a língua comum?
Sou - como se vê - só indagações, quase sem resposta.
Mas uma coisa eu sei: dizer-lhes muito obrigado pela atenção com que me ouviram e pela paciência que tiveram: muito obrigado.*
* Palestra no VIII Curso de Férias do Instituto de Estudos Brasileiros sobre “A expansão da língua” (Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 22, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1980, p. 53-58).
(A crise de nossa língua de cultura, 1983.)
 

Fonte: Academia Brasileira de Letras

 

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