Freyre no Mundo de Apipucos

Ainda não eram sete horas, na bochornosa manhã de 1958, quando o motorista parou o táxi defronte à velha mansão, que noutros tempos fora casa-grande de engenho. O gringo que viajava no banco de trás botou a cabeça para fora, interrogou com os olhos o chofer, que lhe respondeu, apontando para o portão de ferro: "É aqui." Magro, comprido,  

os olhos quase escondidos por detrás das grossas lentes dos óculos, vestido num conjunto de tweed tão inadequado para a temperatura local, o homem desceu, pagou a corrida e encaminhou-se para o velho portão.

 Mas não conseguiu abri-lo. Velho conhecedor do endereço, o chofer veio em seu auxílio, puxando o ferrolho interno. O gringo agradeceu com um "thank you" e empurrou o portão, que rangeu, fanhoso, nas dobradiças. Depois tomou o caminho de pedra que, margeado de árvores velhas e copudas, numa extensão de uns duzentos metros, vai do portão à escadaria, igualmente de pedra, na entrada principal do casarão. Galgou rápido com suas longas pernas os doze degraus que levam à varanda, tomada pelas begônias e trepadeiras, procurou sem sucesso, na porta fechada, a campainha inexistente, depois bateu palmas, que lhe pareceram excessivamente ruidosas no silêncio úmido e vegetal do ambiente, até então só perturbado na sua modorra pelo atropelado cantar dos pássaros no bosque em derredor.
Minutos depois, sonolento e embrulhado num chambre visivelmente vestido às pressas, o próprio dono da casa veio abrir a porta. Em impecável inglês, o visitante disse:
"Procuro o Professor Freyre. Meu nome é Huxley. Aldous Huxley."
A chegada extremamente matutina de Huxley à casa de Gilberto Freyre, em Recife, tem a sua explicação. Na verdade, ele ali arribava como um náufrago. Em vista oficial (ou oficiosa) ao Brasil, no quinto dia de sua estada, depois das homenagens e do almoço de praxe, o autor de Contraponho vira-se completamente abandonado pelo Itamarati, que deveria ser o seu guia e atento anfitrião. Quem o salvou foi a carta na qual Julien, seu irmão, o recomendava a Gilberto Freyre, um velho amigo brasileiro. Voou, então, para Recife; e do aeroporto, mal o dia clareava e depois de uma rápida passagem pelo hotel, onde deixou as malas, mandou-se aflitivamente para Apipucos, onde chegou gaguejando desculpas e repetindo uma definição do Brasil que ainda hoje G. F. considera perfeita: "Este é um dos países mais improváveis que tenho conhecido."
O conhaque de pitanga e a Toca do Bruxo
Aldous Huxley não era o primeiro (nem seria o último) visitante famoso que Gilberto Freyre iria receber em sua mansão situada no centro de uma miniatura de floresta, no ponto mais alto do bairro de Apipucos, em Recife. John dos Passos, Rossellini (que tinha planos de filmar Casa-Grande & Senzala), o Principe da Bavieda, Robert Kennedy (que lá apareceu comandando um pelotão de trinta pessoas), Albert Camus, Lucien Fèbvre, Georges Gurvitch, Arnold Toynbee, Robert Lowell, Jean Duvignaud, Schelsky e tantos outros, incluindo os portugueses - é grande a lista internacional de gente famosa que lá esteve.
É maior ainda a nacional, o que torna quase impossível enumerar com exatidão todos os escritores, cientistas, poetas, jornalistas, ensaístas e artistas plásticos do primeiro time (e do segundo também) que nos últimos quarenta anos passaram por Apipucos para uma visita de minutos ou de horas. "Apipucos é o Vaticano do Recife", costumava me dizer José Lins do Rego, um dos seus visitantes mais assíduos.
De todos que lá chegam, o dono da casa só exige uma obrigação, espécie de ritual introdutório: que provem do conhaque de pitanga, cuja receita, invenção sua, ele nunca dá por inteiro, por mais que se insista, limitando-se a dizer vagamente que a infusão - realmente deliciosa - deve ter como base a cachaça chamada "de cabeça" (ou seja, a que sai no primeiro jato do alambique), que as pitangas têm que ser "vermelhíssimas, colhidas na hora" e que são imprescindíveis alguns pingos de licor de violeta, "um licor raro, uma beleza de licor misticamente roxo no seu colorido e seráfico no seu odor", fabricado pelas freiras do Convento do Bom Pastor, em Garanhuns. O que mais? Apenas "um pormenor significativo" - mas esse "pormenor" é segredo que G. F. jamais revelou a quem quer que seja, nem mesmo aos seus amigos mais íntimos. "Nem sequer ao alcoólatra mais sincero", diz ele.
Envelhecida cinco anos, a bebida é forte, mas John dos Passos consumiu, imperturbável, um frasco inteiro; Rosselini chegou, euforicamente, à metade de um outro; e um dos poucos que não passaram da primeira dose foi Rubem Braga, segundo me conta o dono da casa. "Ele bebeu meio cálice, fez um muxoxo e pediu uísque."
Durante muito tempo o contínuo desfilar dos visitantes que transitavam pelo Solar de Santo Antônio de Apipucos - uma mistura de casa-grande, biblioteca, museu e galeria de arte - estendia-se por todo o dia e muitas vezes continuava pela noite adentro, com sérios prejuízos para G. F., que não conseguia tempo e tranqüilidade para o seu trabalho. Hoje, o horário em Apipucos está rigorosamente policiado, graças a D. Madalena Guedes Pereira Freyre, a dona da casa, que acabou com as visitas imprevistas ou sem horário certo. Agora, quem quiser avistar-se com G. F. terá de procurá-lo no Instituto Joaquim Nabuco de Ciências Sociais, criado em 1948, no governo Dutra, por sugestão sua e do qual é hoje presidente do Conselho Diretor. Lá ele pode ser encontrado todas as tardes, das 3 às 6. Pela manhã, em Apipucos, nem telefone ele atende, pois não existe extensão na toca do Bruxo - que é como ele chama a dependência, nos fundos da casa, onde se enclausura, "como um frade penitente", das oito ao meio-dia, depois do desjejum, de um rápido caminhar pelo jardim ou uma visita de inspeção ao pitangal. Na verdade, a toca não é mais que um dos segmentos da biblioteca de mais de 30 mil volumes que se espalha por quase todos os dois andares da casa. A Toca do Bruxo é o escritório e o atelier de G. F., pois quando ele não está escrevendo, está pintando. Mas não é fácil, para quem não conhece a topografia da casa, chegar até lá - escala terminal de um verdadeiro e apinhado labirinto de salas, salinhas, corredores e degraus.
"Apipucos é uma projeção da minha pessoa"
A perna esquerda estendida sobre um dos braços da velha poltrona de couro, o bloco de papel apoiado na coxa e munido de uma caneta esferográfica barata - é assim que G.F. escreve, sem precisar de óculos, numa letra regular e perfeitamente legível no seu talho desenhado. À sua volta, a total desarrumação dos livros, quadros recém-pintados (sua pintura pode ser qualificada de um figurativismo naif), pincéis, jornais e revistas, velhos e recentes, e mil e um objetos e souvenirs trazidos de viagens pelo mundo - tudo dando a impressão de um caos absoluto, ao qual o dono da casa de há muito tivesse desistido de impor qualquer ordem ou disciplina. Mas ao que ao estranho parece desordem, é para G. F. a "sua ordem". Na confusão geral - com a segura confiança de um maestro que conhecesse a fundo a sua orquestra - ele sabe perfeitamente onde encontrar o documento que precisa e, nas estantes abarrotadas, o livro que quer consultar. Calculo a catástrofe irremediável que significaria para ele se acontecesse de uma empregada nova, desconhecedora da "ordem" do patrão, resolvesse substituí-la pela sua, pondo casa coisa no seu devido lugar. "Não poderia me acontecer desastre maior", me diz.
É o próprio G. F. quem afirma que a mansão de Apipucos é "uma projeção de sua própria pessoa".
"E não só da minha pessoa, mas também da minha vida, das minhas idéias, da minhas solidões, dos meus mistérios, dos meus sonhos, das minhas memórias, das minhas saudades, das minhas esperanças, das minhas inquietações, do meu gosto da confraternizar com pássaros, que fazem seus ninhos dentro de casa, com plantas, com verdes de árvores. Árvores e pássaros que são quase pessoas de casa ou quase gente da família. Certa vez o pintor Francisco Brennand disse que meu nome está como que para sempre ligado a duas casas: à casa-grande do livro e à casa também grande de Apipucos. É verdade." Num caso, seria a ligação de um autor com a casa de um livro germinal na sua obra; no outro, a de um homem com a casa que lhe pertence e a que ele pertence, há quarenta anos; e onde mora amorosamente: por amor e não apenas por conveniência. São um autor e um homem completados, um, por uma casa simbólica, outro, por uma casa, para ele, mais que real: carnal. Extensão do seu próprio ser ou do seu próprio "estar sendo".
"Na verdade, sou um autor que se autobiografou e, até certo ponto, "autobiografou" quase todo brasileiro - autobiografia coletiva - escrevendo um livro (Casa-Grande & Senzala) talvez único pelo que, revelando um indivíduo em busca de sua identidade, revela também a formação mais íntima de um povo: ou de um Homem coletivo e, esse, o brasileiro, em particular; e o Homem de várias origens situado no Trópico, em geral. Escrito esse livro, o autor se ligaria para sempre - a vida imitando a arte? - a uma ao mesmo tempo particularíssima e brasileiríssima casa para ele idealmente sua. Uma casa que é, como já disse, uma projeção do meu eu múltiplo e de eus mais afins ao meu: o da esposa, os dos filhos, os dos netos e, também, os dos mortos mais queridos, os dos amigos mais amigos, os dos autores de livros mais lidos e relidos, os retratos de família, o leque que foi da minha avó, as esporas de prata que foram de meu avô, as velhas receitas de doces, segredo da família. E mais as pinturas, as esculturas, as cerâmicas, as porcelanas, os móveis mais admirados; e, ainda, as comidas, os seus cheiros, o conhaque de pitanga, os prazeres mais caseiros, os chinelos de todo sem- meias, a rede, a cadeira de balanço, o relógio antigo, os pijamas, os amanheceres, os entardeceres, os anoiteceres mais íntimos.
Mas não só essa projeção desses eus sobre uma casa: também dessa casa sobre esses eus. O mistério de uma reciprocidade. Onde o Homem mais descobre aquilo que Jung chama a sua alma, ou mais comunga com seu Deus ou com seus deuses ou com seus santos; ou mais se sente ao mesmo tempo que uno, plural, do que através da identificação com a sua casa, e através de sua casa, com a gente de que emergiu e com o futuro para o qual ele, indivíduo, e essa gente, como um todo, caminha.
As lembranças todas vivas
Antiguíssimos e pesados móveis de jacarandá de Spiegler e Béranger, algumas das melhores telas de Vicente do Rego Monteiro, óleos e desenhos da primeira fase de Di Cavalcanti, quadros de Cícero Dias (que G.F. considera essencialmente "o pintor da luz brasileira"), Lula Cardoso Ayres e Brenend, retratos de Ismailovitch, um magnífico auto-retrato de Pancetti (na verdade, uma tela dupla, pois do outro lado é uma marinha), um insuspeitado, pelo seu arrogante colorido, Jenner Augusto de 1955; e mais pratas e azulejos portugueses, marfins do Oriente requintadamente trabalhados, tapetes persas, toda uma coleção de armas brancas (na qual se destaca uma imponente espada de samurai), rústicas pulseiras de ébano, presente de um soba africano, caixas de sândalo hindus, uma relíquia de São Francisco Xavier trazida de Goa, jarros de porcelanas de todos os tamanhos, louças portuguesas e inglesas, um jarro pré-marajoara, o busto do poeta Manuel Bandeira feito por Celso Antônio; uma mesa que é como um grande escrínio envidraçado, dezenas de condecorações, medalhas, troféus (inclusive os referentes ao Prêmio Aspen, do Instituto Aspen, dos Estados Unidos, e o Prêmio internacional La Madonina, da Itália, conquistados respectivamente em 1967 e 1969), comendas e colares; e ainda uma infinidade de objetos os mais vários (alguns, preciosidades que têm espicaçado a gula dos antiquários) e que enchem os armários de porta de cristal desenhado, sobram deles, espalham-se pelas mesas, pela beirada das estantes - ocupam, enfim, todos os poucos espaços vazios que ainda restam na casa.
Coroando tudo isso, uma galeria de retratos de ancestrais, reprodução ampliada de velhos daguerreótipos que mostram graves barões e conselheiros, rapazes de aparência tristonha e bigode ralo, senhores de olhar distante, belas e suaves sinhazinhas de colo redondo - autênticos e orgulhosos membros de uma fanada aristocracia canavieira perdida no tempo. Assim é o Solar de Apipucos, onde cada quadro, cada móvel, cada objeto, cada fotografia desbotada pelo tempo ou mais recente, cada carta ou cada livro raro tem a sua história ou lembra alguém ou alguma coisa. História ou alguém que G.F. guarda na memória excepcionalmente inteiriça num homem de 77 anos.
Ele pode dizer o ano, o mês e o dia exatos, e talvez até mesmo a hora, em que recebeu de presente de D. Laurinha Santos Lobo, no seu salon de Santa Tereza, aquele tinteiro de metal representando Sarah Bernhardt que pertenceu a Joaquim Murtinho - e isso foi em 1926. Como também pode reconstituir, como se estivesse repassando uma conversa da véspera, os fraternalmente ásperos diálogos que manteve com Manuel Bandeira, quando, há mais de cinqüenta anos, foi hóspede do poeta na Rua do Curvelo. Só raramente sua memória claudica - no esquecimento ou tropeço de um nome ou de uma data. E quando isso acontece, é imediatamente socorrido por D. Madalena, sua mulher, ela própria um catálogo minucioso do fascinante mundo de Apipucos.
"Um desses raros homens que sabem inaugurar repentinamente uma intimidade"
Tanta preciosidade e lembrança do passado guardada numa só casa poderia fazer crer a quem nunca esteve em Apipucos que a atmosfera que lá reina é solene e formal - como acontece com os museus, onde se deve falar baixo e pisar macio. Mas o fato é que é difícil dizer onde, na mansão, termina a parte doméstica e começa a parte, digamos, erudita, de tal forma as duas estão interligadas pela constância, em quase todas as dependências, dos livros, quadros e peças antigas. E a informalidade é imposta pela maneira de ser dos donos da casa, acolhedora e descontraída - informalidade que cresce ainda mais com a presença, que ali é quase diária, dos filhos, netos, genro e nora. Escrevendo certa vez sobre Gilberto Freyre, Lúcio Cardoso disse dele ser "um desses raros homens que sabem inaugurar repentinamente uma intimidade". Na rápida construção dessa intimidade entra, como principal ingrediente, a própria conversa de G. F. - vária, ecumênica, multidirecional, como se ele, ao tratar de tantos assuntos e abordar temas tão diversos, estivesse à procura do denominador comum capaz de estabelecer entre ele e o interlocutor um entendimento imediato e melhor, mais solto.
Aos mortos que foram seus desafetos, ele se refere muitas vezes com ironia, jamais com ira ou rancor fermentado; e aos que foram seus amigos e íntimos, com uma saudade inconformada. É ele mesmo quem me diz que nada mais o fere que a morte de um amigo.
"E este 1977 tem sido sinistro para mim. Começou levando-me Renato Campos. Depois, Valdemar de Oliveira e Carlos Lacerda. E em seguida Roberto Rossellini.
"De Lacerda ele lembra a pessoa "incessamente dinâmica, o homem criador, renovador e inovador, todo orgulhoso do fato de ser escritor ao lado do homem político que sempre foi".

A propósito de Rossellini, pergunto-lhe se é correta a informação de que o cineasta italiano pretendia filmar Casa-Grande & Senzala, ou alguns episódios do livro, que lera na tradução italiana da Enaudi. G. F. confirma.
"Discutindo muito a respeito. Ele apareceu aqui em Apipucos, de surpresa, trazido pelo Di Cavalcanti. Provou, é claro, do meu conhaque de pitanga, quis saber dos meus projetos, interessou-se pelos móveis de jacarandá da casa, exigindo que eu contasse a história e a procedência de cada um".
Interessou-se também pelos quadros - principalmente pelo auto-retrato de Pancetti. E referindo-se a passagens do livro, provou que realmente havia lido Casa-Grande. Tempos depois recebia eu um telegrama de São Paulo, de amigo comum: Rossellini queria fazer de Casa-Grande & Senzala um grande filme brasileiro que fosse ao mesmo tempo épico e lírico, uma espécie de louvor à morenidade brasileira, à nossa cordialidade. Seria, dizia ele, a mensagem do Brasil dirigida a um mundo dividido por ódios - inclusive os da chamada "raça pura". Mais que o Prêmio Aspen, tido como o Nobel dos Estados Unidos ou o italiano la Madonina, de literatura, ou até mesmo o título de nobreza britânica que por motivo intelectual me foi distinguido por Elizabeth II - nenhum deles me deu maior emoção do que esse puro e, afinal, platônico desejo de Rossellini. Desejo que não foi adiante, pois não encontrou apoio no Brasil. Gorou. Ainda verde, secou, murchou.

José Lins do Rego, com os altos e baixos de sua genialidade ciclotímica - homem de arroubos e desmoronamentos -, é outro personagem sempre presente na conversa de Gilberto Freyre, que a ele se refere como se estivesse vivo. Outro é Assis Chateaubriand, do qual recorda o derradeiro encontro - o jornalista já definitivamente entrevado e tentando exprimir-se num aflito mover de lábios que somente a enfermeira especializada que ele tinha sempre ao seu lado conseguia traduzir.

"Foi penoso. Eu sabia que estava me despedindo. E ele sentiu isso. Encarou-me, num sorriso triste, quase um esgar, começou a balbuciar sons que eu não entendia, o que me tornava ainda mais aflito. O que estaria ele querendo dizer? A enfermeira me traduziu: "Seu Gilberto, a verdade é que nunca tive sorte com as mulheres. Quem sabe se talvez, lá no fundo, eu não passe de um homossexual?" E enquanto a enfermeira recitava, na voz escandida e neutra, essa estranha declaração tão sem propósito, ele Chateaubriand, insistia em me encarar com o mesmo sorriso onde tristeza e zombaria se misturavam."

Outra lembrança é de Juarez Távora, visitante bissexto de Apipucos. Na primeira vez que G.F. levou-o até a Toca, pois ele insistia em conhecer o local onde o dono da casa trabalhava, o homem grandalhão olhou tudo em volta, depois comentou, ingenuamente auto-suficiente: "Aqui eu também escreveria Casa-Grande."

Quando pergunto a G. F. porque tem recusado os convites que lhe foram feitos, para ocupar importantes cargos públicos federais - como o Ministério da Educação, por exemplo, que lhe foi oferecido por Vargas, em 1943, e Castello Branco, em 1964, ele responde:

"É difícil dizer, as razões são várias. Mas entre elas não se incluem a soberba ou o medo da responsabilidade. Talvez tenha acontecido, apenas, me convidarem para o lugar errado na hora errada".

Nossa conversa, que teve início às 10 da manhã, atravessou o almoço (no qual se destacava, soberbo, um peixe ao molho de coco), entrou pela tarde, chegou à boca da noite. O conhaque de pitanga deu lugar, como acompanhamento da refeição, a um esplêndido e agulhento branco português. Depois do café, foi a vez de um velhíssimo porto. Voltou-se novamente ao conhaque de pitanga que no final da tarde, já com as primeira sombras noturnas invadindo a varanda, foi rebatido por um glorioso scoth rótulo preto.

No velho móvel de jacarandá que serve de bar, notei com certo susto que o conhaque de pitanga que pela manhã enchia toda uma frasqueira de cristal descera drasticamente de nível e já mostrava a borra velha e fermentada, lá no fundo - como acontece com a maré vazante quando chega ao seu ponto mais baixo, ou com a ampulheta quando deixa cair o último grão de areia. Era hora de ir embora. Levanto-me, sento-me novamente - porque o dono da casa insiste em que eu o acompanhe num último uísque; ou numa última dose do conhaque de pitanga. Aceito os dois, pois não seria de bom-tom recusar.

 

Fonte: SILVEIRA, Joel. Freyre no mundo de Apipucos. Manchete. Rio de Janeiro, a. 25, n. 1316, p. 98-102, jul. 1977.
 

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