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e uma
mulher. Eu sou o
segundo filho.
Quando completei oito anos, fiquei órfão de pai e tive que
trabalhar muito, ao lado de meu irmão mais velho, para sustentar os
mais novos, pois ficamos em completa pobreza. Com a idade de doze
anos, freqüentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro
meses, porém sem interromper muito o trabalho de agricultor. Saí da
escola lendo o segundo livro de Felisberto de Carvalho e daquele
tempo para cá não freqüentei mais escola nenhuma, porém sempre
lidando com as letras, quando dispunha de tempo para este fim. Desde
muito criança que sou apaixonado pela poesia, onde alguém lia
versos, eu tinha que demorar para ouvi-los. De treze a quatorze anos
comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os serranos,
pois o sentido de tais versos era o seguinte: Brincadeiras de noite
de São João, testamento do Juda, ataque aos preguiçosos, que
deixavam o mato estragar os plantios das roças, etc. Com 16 anos de
idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois
naquele tempo eu já improvisava, glosando os motes que os
interessados me apresentavam. Nunca quis fazer profissão de minha
musa, sempre tenho cantado, glosado e recitado, quando alguém me
convida para este fim.
Quando eu estava nos 20 anos de idade, o nosso parente José
Alexandre Montoril, que mora no estado do Pará, veio visitar o
Assaré, que é seu torrão natal, e ouvindo falar de meus versos, veio
à nossa casa e pediu à minha mãe, para que ela deixasse eu ir com
ele ao Pará, prometendo custear todas as despesas. Minha mãe, embora
muito chorosa, confiou-me ao seu primo, o qual fez o que prometeu,
tratando-me como se trata um próprio filho.
Chegando ao Pará, aquele parente apresentou-me a José Carvalho,
filho de Crato, que era tabelião do 1o. Cartório de Belém. Naquele
tempo, José Carvalho estava trabalhando na publicação de seu livro
"O matuto Cearense e o Caboclo do Pará", o qual tem um capítulo
referente a minha pessoa e o motivo da viagem ao Pará. Passei
naquele estado apenas cinco meses, durante os quais não fiz outra
coisa, senão cantar ao som da viola com os cantadores que lá
encontrei. De volta do Ceará, José Carvalho deu-me uma carta de
recomendação, para ser entregue à Dra. Henriqueta Galeno, que
recebendo a carta, acolheu-me com muita atenção em seu Salão, onde
cantei os motes que me deram.
Quando cheguei na Serra de Santana, continuei na mesma vida de pobre
agricultor; depois casei-me com uma parenta e sou hoje pai de uma
numerosa família, para quem trabalho na pequena parte de terra que
herdei de meu pai.
Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as
injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das
coisas, provenientes talvez da política falsa, que continua fora do
programa da verdadeira democracia.
Nasci a 5 de março de 1909. Perdi a vista direita, no período da
dentição, em conseqüência da moléstia vulgarmente conhecida por
Dor-d'olhos.
Desde que comecei a trabalhar na agricultura, até hoje, nunca passei
um ano sem botar a minha roçazinha, só não plantei roça, no ano em
que fui ao Pará.
ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA, Patativa do Assaré.
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