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Lara Aguiar - Como a senhora analisa a obra de arte?
Clarice Lispector - A obra de arte é um ato de loucura do criador.
Só que germina como não-loucura e abre caminho. É, no entanto,
inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo. A
pré-visão desperta do sono lento da maioria dos que dormem ou da
confusão dos que adivinham que alguma coisa está acontecendo ou vai
acontecer. A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que
estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que
desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos,
enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.
LA - Dentro da sua narrativa, qual a importância da linguagem para a
construção de uma realidade literária?
CL - A linguagem é meu esforço humano. Por destino volto com as mãos
vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser
dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a
construção, é que obtenho o que ela não conseguiu. Ah, mas para se
chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como
vou buscar a realidade; a realidade, antes da minha linguagem,
existia como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui
e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa.
LA - Qual a relevância da escrita para a sua vida?
CL - Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por
que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma
maldição, mas uma maldição que salva. Salva a alma presa, salva a
pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se
entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é
procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o
sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é
também abençoar uma vida que não foi abençoada.
LA - Nas suas obras, a idéia de prazer sempre é vinculada a uma
sensação extrema de morte. De que forma isso acontece na realidade?
CL - O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a
habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem
explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e
se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se
total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem
maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que
chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar
pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver
força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com
uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode
consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou
em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar
com ele. Ele é nós.
LA - Como é Clarice no dia-a-dia, na vida cotidiana?
CL - Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho
que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de
refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O
resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma
intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que
prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos
prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma
alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda
virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou
nunca serei.
LA - Como a senhora lida com a solidão que tanto flameja em seus
escritos?
CL - Eu me dou melhor comigo mesma quando estou infeliz: há um
encontro. Quando me sinto feliz, parece-me que sou outra. Embora
outra da mesma. Outra estranhamente alegre, esfuziante, levemente
infeliz é mais tranqüilo. Quando fico sozinha muito tempo, eu de
repente me estranho e me assusto e me arrepio toda em mim. De agora
em diante eu quero mais do que entender: eu quero superentender, eu
humildemente imploro que esse dom me seja dado. Eu quero entender o
próprio entendimento. Eu quero atingir o mais íntimo segredo daquilo
que existe. Estou em plena comunhão com o mundo.
LA - Quando é que a senhora se deu conta de sua espiritualidade?
CL - Senti a pulsação da veia em meu pescoço, senti o pulso e o
bater do coração e de repente reconheci que tinha um corpo. Era a
primeira vez que eu era una. Una e grata. Eu me possuía. O espírito
possuía o corpo, o corpo latejava ao espírito. Como se estivesse
fora de mim, olhei-me e vi-me. Eu era uma mulher feliz. Tão rica que
nem precisava mais viver. Vivia de graça. Entre a palavra e o
pensamento existe o meu ser. Meu pensamento é puro ar impalpável,
insaisissable. Minha palavra é de terra. Meu coração é de vida.
Minha energia eletrônica é mágica de origem divina. Meu símbolo é o
amor. Meu ódio é energia atômica.
LA - A angústia se mostra muito presente em seus textos. Como a
senhora enxerga esse processo?
CL - Não agüento muito tempo um sentimento porque passo a ter
angústia e meu pensamento fica ocupado com o sentimento e eu me
desvencilho dele de qualquer jeito para ganhar de novo a minha
liberdade de espírito. Sou livre para sentir. Quero ser livre para
raciocinar. Aspiro a uma fusão de corpo e alma. Não consigo
compreender para os outros. Só na desordem de meus sentimentos é que
compreendo para mim mesma e é tão incompreensível o que eu sinto que
me calo e medito sobre o nada.
LA - Utilizando uma narrativa intimista, a senhora traz à tona o
psicológico e o espiritual. Na rotina da existência, como a mulher
Clarice Lispector vê o natural?
CL - Em primeiro lugar devemos seguir a Natureza, não esquecendo os
momentos baixos, pois que a Natureza é cíclica, é ritmo, é como um
coração pulsando. Existir é tão completamente fora do comum que se a
consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós
enlouqueceríamos. A solução para esse absurdo que se chama “eu
existo”, a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos
que exista.
LA - O que dizer dos conflitos diários inerentes aos relacionamentos
pessoais?
CL - Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de
propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos
defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa.
Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às
vezes parecem farpas. Quando o amor é grande demais torna-se inútil:
já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de
receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no
amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos
sentimentos é extremamente burguesa.
Lara Aguiar
Autora da entrevista-montagem com Clarice Lispector. Jornalista,
acadêmica em Letras Vernáculas e pós-graduanda em Filosofia pela
Universidade Federal de Ouro Preto.
Apaixonada pela obra de Clarice, aceitou com satisfação o convite
para realizar esse diálogo literário.
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