Moacyr Scliar

Veja aqui uma entrevista concedida pelo escritor Moacyr Scliar ao Professor Wagner Lemos.

Saiba aspectos da vida e da obra do autor de “O Sertão Vai Virar Mar”, desse gaúcho membro da Academia Brasileira de Letras.

Desta vez entrevistamos Moacyr Scliar, autor brasileiro de reconhecimento internacional. Gaúcho de Porto Alegre, médico e escritor, Moacyr tem seus livros traduzidos para diversos idiomas e publicados em mais de vinte países, é autor premiado, bem como membro da Academia Brasileira de Letras. Sua vasta obra inclui títulos como: O Centauro no Jardim, A mulher que Escreveu a Bíblia, O Exército  de  um Homem Só, Os Deuses de Raquel, O Ciclo das Águas, A Orelha de Van Gogh, o Sertão Vai Virar Mar e outros tantos romances e ensaios.  

Wagner Lemos - Conte-nos um pouco sobre sua trajetória, sua infância, suas primeiras leituras, enfim suas origens... 
Moacyr Scliar:
Nasci em Porto  Alegre, e me criei no bairro do Bom Fim, bairro de imigrantes judeus-russos, o caso do meu pai. Nossa família era muito pobre. Meu pai, homem inculto, era, no entanto um grande contador de histórias e acho que dele herdei o prazer de narrar. Minha mãe, também pobre, era no entanto professora primária e foi ela quem me introduziu à leitura. Comecei por Monteiro Lobato, continuei com Érico Veríssimo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector... 

Wagner Lemos - O que o levou a estudar Medicina?  
Moacyr Scliar:
O medo da doença. Eu não tinha medo de ficar doente, ao contrário, até gostava, porque assim podia faltar às aulas; mas quando meus pais adoeciam eu entrava em pânico. Cheguei à medicina por esta mistura de medo e de fascínio. 

Wagner Lemos - Em que momento de sua vida as profissões de médico e escritor se encontraram?  
Moacyr Scliar:
Na Faculdade de Medicina. Comecei a escrever histórias sobre minhas vivências como estudante, depois reunidas em um livro, "Histórias de médico em formação." Mas o tema da medicina aparece em muitas de minhas obras: Sonhos Tropicais, baseado na vida de Oswaldo Cruz, A Majestade do Xingu, inspirado no sanitarista Noel Nutels. Isto sem falar nos vários ensaios que escrevi sobre o tema. 

Wagner Lemos - A temática judaica é uma constante em sua obra. Fale um pouco sobre essa relação Judaísmo-Literatura.
Moacyr Scliar:
A tradição judaica é muito rica em histórias, em narrativas, e ao mesmo tempo valoriza a palavra escrita, o que explica o grande número de escritores judeus (Saul Bellow, prêmio Nobel, e recentemente falecido, é exemplo). A mim atrai particularmente o humor judaico, aquele humor melancólico que é a defesa de um grupo historicamente discriminado contra o desespero. A marginalidade em que os judeus muitas vezes viveram proporcionou-lhe um olhar original sobre a sociedade, um olhar que para o escritor é um grande recurso. 

Wagner Lemos - Ainda sobre Judaísmo, o senhor é judeu praticante?  
Moacyr Scliar:
Não. Não sou religioso, embora respeite as pessoas religiosas. Minha aproximação ao judaísmo é cultural, é histórica e é afetiva.  

Wagner Lemos - Sua obra “O Sertão Vai Virar Mar” é leitura obrigatória do vestibular seriado (1ºano) da Universidade Federal de Sergipe,  fale-nos como surgiu a idéia de fazer esse romance.  
Moacyr Scliar:
O livro faz parte de uma coleção da Ed.Ática, cuja proposta aos autores é escrever uma história em que um clássico desempenhe papel   importante.   Ora,   "Os  Sertões"  é   obra fundamental para se entender o Brasil, mas, ao mesmo tempo, redigida em uma linguagem complexa, como era a linguagem literária da época. Assim como meus jovens personagens descobrem Euclides, eu gostaria que os jovens leitores também o fizessem... 

Wagner Lemos - Em que fase de sua vida o senhor teve o primeiro contacto com Os Sertões, de Euclides da Cunha?  
Moacyr Scliar:
Na adolescência. Senti que a obra era importante, mas percebi também que era difícil. 

Wagner Lemos - Sobre o Moacyr Scliar da vida pessoal... quais são os seus autores preferidos (quais deles apontaria como influência sobre a sua obra), quais os gostos musicais e até mesmo os gastronômicos? Dê aos nossos leitores um pouco dessas particularidades.   
Moacyr Scliar:
Meus autores prediletos: no Brasil, Guimarães Rosa, Clarice, Drummond, João Cabral; no exterior, Franz Kafka. Gosto de MPB, sou fã de Chico, Caetano e Gil, gosto de música erudita (Mozart e Bach), mas, em matéria de gastronomia, sou muito simples: prefiro comida honesta, como são os pratos típicos de nosso país. 

Wagner Lemos - Como foi seu ingresso na Academia Brasileira de Letras? O que isso significou para sua vida? Quais as mudanças que ocorreram?  
Moacyr Scliar:
Eu não era um candidato natural à ABL. Foi a gente do RS que me incentivou a concorrer a uma vaga e foi em nome da cultura gaúcha que eu o fiz. Fiquei felicíssimo com a eleição, porque a ABL é uma grande instituição com pessoas notáveis (basta lembrar o falecido Celso Furtado), mas isto não mudou em nada minha vida: continuo sendo o cara simples que eu era. 

Wagner Lemos - Como gostaria de ser lembrado no futuro?
Moacyr Scliar:
Como alguém que amou as pessoas, amou seu país e sua cultura, amou a  literatura, amou a medicina.
 

Wagner Lemos - Deixe uma mensagem para os estudantes que farão vestibular analisando sua obra.
Moacyr Scliar:
Gente, é uma glória ser lido por vocês. Espero que vocês tenham tanto prazer na leitura quanto eu tive escrevendo. E espero que meus livros ajudem vocês a entender um pouco melhor a nossa realidade e a vida em geral.  

 

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