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Era o primeiro dos 14 filhos do casal Melchisedech Amado e Ana
Amado. Fez os estudos primários em Itaporanga, também no
interior do Sergipe. Depois estudou Farmácia na Bahia e
diplomou-se pela Faculdade de Direito de Recife, da qual se
tornou, ainda muito moço, catedrático de Direito Penal.
Em 1910, transferiu-se para o Rio de Janeiro, iniciando a sua
colaboração na imprensa, no Jornal do Commercio com um estudo
sobre Luís Delfino. Passou depois a ocupar uma coluna semanal,
em O País. Em 1912, realizou sua primeira viagem à Europa
assunto de um de seus livros de memórias e em 1913, como era
então a moda, pronunciou, no salão nobre do Jornal do Commercio,
a convite da Sociedade dos Homens de Letras, uma conferência em
que fez o elogio do espírito contemplativo A chave de Salomão,
que no ano seguinte, juntamente com outros escritos, seria
publicada em livro.
Em 1915, foi eleito deputado federal por Sergipe. Sua atuação na
Câmara se fez sentir, sobretudo, através de discursos que se
tornaram famosos, como o que pronunciou na sessão de 11 de
dezembro de 1916 sobre "As instituições políticas e o meio
social no Brasil". Nos últimos anos da República Velha, exerceu
mandato no Senado, até encerrar-se a sua carreira política, com
a Revolução de 1930. Em 1931, chamou a atenção do país, e
especialmente dos revolucionários de 30, vitoriosos mas
indecisos, para problemas de direito político, como os sistemas
representativos, a representação proporcional, o sufrágio
universal. Depois de um curso de conferências sobre esses temas,
publicou Eleição e representação (1932), de viva atualidade
ainda hoje. Por essa época, voltou ao magistério superior, na
Faculdade de Direito do Distrito Federal, iniciando um novo e
fecundo período em sua vida, de estudos e trabalhos.
Em 1934, deu início ao que foi, desde então, a sua atividade
permanente: a diplomacia. Foi nomeado consultor jurídico do
Ministério das Relações Exteriores, sucedendo a Clóvis Beviláqua.
Desse posto passou ao de embaixador, sendo a sua primeira missão
junto ao governo do Chile (1936). De 1939 a 1947, foi ministro
na Finlândia. A partir de 1948, tornou-se membro da Comissão de
Direito Internacional da ONU, sediada em Genebra. Os arquivos do
Itamarati guardam os numerosos relatórios, pareceres e teses de
Gilberto Amado, documentos da sua contribuição ao estudo do
Direito Internacional, durante o período de 28 anos em que
integrou essa Comissão. Foi também delegado do Brasil a todas as
sessões ordinárias da Assembléia Geral da ONU, desde as
primeiras, realizadas ainda em Lake Success, logo depois da
assinatura da Carta de São Francisco, até à última a que pôde
comparecer, reunida em Nova York em 1968. São de sua autoria
publicações que se encontram no Anuário das Nações Unidas, tais
como: "Direitos e deveres dos Estados", "Definição da agressão",
"Processo arbitral", "Reservas às Convenções multilaterais", e
outras.
Afastado do Brasil em missões oficiais no exterior, Gilberto
Amado aos poucos foi se tornando, entre nós, figura mítica.
Periodicamente vinha ao Brasil, fazendo quase sempre coincidir
sua permanência no Rio com o lançamento de um novo livro. Como
toda figura mítica, tornou-se conhecido, sobretudo, pelas lendas
e anedotas que circulavam a seu respeito, reproduzindo ditos
espirituosos e atitudes inusitadas. A carreira de escritor
seguiu sempre paralela à do político e do diplomata. Em 1917
publicou os versos de Suave ascensão, lírico intermezzo numa
fase de intensas preocupações críticas, filosóficas, jurídicas e
sociológicas, que se exprimem em sucessivos ensaios sobre
problemas brasileiros. Em 1932, publicou Dança sobre o abismo,
em que retorna ao ensaio literário, e, no ano seguinte, Dias e
horas de vibração, crônicas de Paris. Surgiu como romancista, em
1941, com Inocentes e culpados e, no ano seguinte, com Os
interesses da companhia. Em 1954 iniciou a publicação de sua
memórias, com História da minha infância, a que se seguiram mais
quatro volumes.
Obras: A chave de Salomão e outros escritos, ensaios (1914); A
suave ascensão, poesia (1917); Grão de areia, ensaio (1919);
Aparências e realidades, ensaio (1922); Eleição e representação,
conferências (1932); Dança sobre o abismo, ensaio (1932);
Espírito do nosso tempo, ensaio (1933); Dias e horas de
vibração, crônicas (1933); Inocentes e culpados, romance (1941);
Os interesses da companhia, romance (1942); Poesias (1954);
Assis Chateaubriand, ensaio (1953).
MEMÓRIAS: História da minha infância (1954); Minha formação no
Recife (1955); Mocidade no Rio e primeira viagem à Europa
(1956); Presença na política (1958); Depois da política (1960).
Fonte: Academia Brasileira de Letras
Textos Escolhidos
CHEGADA AO RECIFE
O ano era 1905. Cheguei a tempo da matrícula. Fim de março,
começo de abril, não posso precisar. Uma certeza tenho. Chovia.
Porque, com a intenção de olhar de longe Olinda (Oh, linda
posição para uma cidade...), subi ao tombadilho para não perder
a vista famosa. Engravatado, deixei o camarote, gingando com o
Jacuípe da Companhia Pernambucana, que lutava desesperadamente
com as ondas brabas do Lamarão. Não guardo outra visão que esta
de chuva caindo. Atracação, desembarque, cais, Lingüeta,
Capibaribe... Tudo se oblitera num fundo, de que, aliás, nada
desejo arrancar. Certo eu poderia, a propósito da chegada ao
Recife, alinhar períodos e períodos, compor mesmo capítulos de
reminiscências históricas e evocações poéticas, mas mentiria se
falasse de João Fernandes Vieira, em guerra dos Mascates, em
Nunes Machado, em Pedro Ivo, de Maciel Pinheiro, de “À Vista do
Recife”, de Tobias Barreto, de Castro Alves. Estaria fazendo
literatura... da pior, da convencional, da que não devo fazer.
Nada disso me veio. Nenhuma das imagens que esses nomes sugerem
existia ainda em meu espírito, virgem de história do Brasil.
Tobias Barreto, só de nome conhecia. Exagero. Já devia ter visto
no Almanaque de Sergipe ou ouvido recitar, na Estância, ou em
Aracaju, o “Beija-Flor”, que eu ia depois, quando me interessei
por poesia, saber de cor, para prazer próprio e para demonstrar
aos parnasianos do Rio o que era poesia romântica na sua melhor
expressão no Brasil.
Uma imagem risca-me a memória e se projeta para a pena: uma
tabuleta – Hotel de França. Mas ter-me-ia ficado perdida na
chuva da hora do desembarque se o preto que carregava a minha
mala na cabeça, e que ia na minha frente, não me tivesse dito:
“O senhor entre aqui no hotel até a chuva abrandar”. Entrei... e
este momento tomou importância extraordinária por sua
repercussão psicológica, por sua sobrevivência e recorrência no
meu espírito. Entrei no hotel. Um gato escapuliu da sala
deserta. Do interior vinha uma voz de mulher falando francês.
Achei-me, pela primeira vez, diante de uma coisa que eu nunca
tinha visto: enormes espelhos de que só tinha conhecimento pelas
descrições de romances. No que estava na frente, meu olhar
começou a navegar como num mar siberiano, numa cinza líquida
carregada de mistério. Em Sergipe, todos os espelhos do Estado,
do litoral ao sertão, de São Cristóvão e Estância, cidades
velhas, a Aracaju, cidade nova, colados um ao outro, não dariam
um só do tamanho dos que vi no Recife nessa primeira hora. Eu
havia estado dois anos na Bahia, mas aí só vivera em república,
só freqüentara casas de professores, jamais residências de luxo.
Recife e espelhos... eis a primeira imagem. A dona do hotel, a
quem depois tanto conheci, veio de dentro e disse: “Bom dia,
senhorrr!” Escancarou a porta por onde eu entrara e a outra. O
salão clareou-se. A luz derramou-se nos espelhos. Vi-me não só
de frente como de lado, multiplicado e devolvido a mim mesmo do
fundo daqueles lagos luminosos. Então tive a grande surpresa...
A mulher retirou-se de novo. Eu não tirava os olhos de mim
mesmo.
Pela primeira vez me via de corpo inteiro. Até então só me tinha
olhado em espelho pequeno, de parede ou pequeníssimo, de bolso,
reproduzindo só rosto, gravata, pescoço. Jamais assim... todo,
paletó, calças, sapatos. Tive um choque. Aí é que tomei
conhecimento da minha fealdade. Experimentei uma espécie de
recuo diante de mim próprio. Eu era “aquilo”?! Mentiria se
especificasse impressões ou nuanças de sentimento. Do que
recordo é do estremeção recebido. Esse choque iria repetir-se a
vida toda. Era ver-me em espelho grande, de frente, e sobretudo
de perfil, era ser abalado por uma sensação brusca, quase diria
de susto, diante de mim mesmo, ao me ver tal qual “a natureza em
mim próprio me resolvia”. Toda vez que ia experimentar roupa em
alfaiate, onde os espelhos conjugados nos mostram de frente, de
lado e de costas, essa sensação me assaltava. Sensação de
mal-estar, quase diria de inimizade com o meu físico. A cabeça,
grossa e pesada, se me enterrava nos ombros, formando com o
torso empinado um ângulo agudo. A queixada aproava num arremesso
antipático. Depois, sempre, na casa da Viscondessa do Livramento
(avó de Rosa e Silva Júnior), onde os havia tão grandes como os
do hotel, na casa de João Elíseo de Castro Fonseca, senador
estadual, na de Genaro Guimarães, professor da Faculdade, na do
velho Gibson, onde me casei, ao me descobrir todo, ao passar em
frente desses grandes espelhos da Europa, acometia-me o espanto
de me ver e de me encontrar tal qual me havia feito a natureza.
Os alfaiates que me serviram, o Almeida Rabelo da Rua do
Ouvidor, os da França, o de Londres, da Itália, da Suíça, e nos
últimos anos o Brum da Rua dos Ourives, sorriam sempre
simpaticamente, com benevolência, abanando a cabeça com
denegações compassivas diante da minha exclamação a respeito de
mim mesmo. “Ô camarada feio!...” Devo notar que a essa
sensação... de mal estar, de antipatia, de constatação, não se
juntava desgosto, constrangimento ou tristeza propriamente dita.
Era um fato... Nunca a realidade, por pior que fosse, me foi
ensejo a lamentação inútil. O que eu experimentava era apenas a
estocada fina que me atravessava coração, onde ficava pungindo.
Pungência, é a expressão que define o que eu sentia. E por
paradoxal que pareça, é sensação parecida com a que me produz a
beleza subitamente revelada. Um rosto de mulher cheio de amor,
um descortinar de paisagem, um pedaço de música em que Beethoven
abre um rasgo inesperado de bondade na face da vida, sacode-me o
peito e perfura-me o coração com a intensidade de uma facada
penetrante. “Como a beleza punge!” escrevi num dos meus poemas.
Minha reação em presença da minha fealdade era a mesma que me
despertava a de outros. Ver gente feia me dói. Sinto-me
profundamente em desacordo com certas caras, certos jeitos,
certas maneiras de caminhar. Tenho que lutar para conservar em
relação à gente feia a minha bondade. Tenho que fazer apelo a
todos os recursos da cultura para não ser descaridoso dentro de
mim, sobretudo com mulher ou criança feia. Por isso não gosto de
me olhar em espelho. Tenho medo de me indispor comigo mesmo.
Ao me reconhecer como era, sentia ao mesmo tempo no meu
arcabouço inóspito respirar um sopro intenso de vida. Tive a
revelação do efeito em outras pessoas dessa força íntima, que
palpitava em mim, anos depois desse primeiro encontro com os
espelhos grandes de Pernambuco, em 1912, na Holanda, quando ouvi
Graça Aranha, então nosso ministro em Haia, exclamar diante das
provas de uma fotografia minha que lhe fui mostrar pedindo
conselho sobre qual escolher: “Oh, quanta vida! Até faz medo!”
De fato, na crueza da placa revelada a minha fisionomia pulava
como propulsada por uma violência que os olhos, queimando o
papel mal podiam conter.
– “Vambora!” disse o preto, botando a cabeça dentro do salão.
– “Vamos!”
A rala rede da chuva, que se rarefazia, apanhou-me nos seus fios
moles. Não parava na sua morrinha. O negro ia na frente, com a
mala na cabeça, patinhando. Atravessei uma ponte...
(“Minha Formação no Recife” - Gilberto Amado) |