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Nascimento: 30 de maio de 1939 na cidade de Campo do Brito
- Sergipe. Em razão de deslocamento de seus pais para Riachão do
Dantas - SE, esse foi oficialmente anotado como seu local de
nascimento. Estudos primários no Grupo Escolar Tobias Barreto da
cidade de Tobias Barreto (Sergipe) onde passou a infância e leu os
primeiros livros na Biblioteca pública do mesmo nome. Estudos
ginasiais e secundários no Colégio N.S. de Lourdes e Ateneu Sergipense
em Aracaju. Desde adolescente declamava suas poesias em solenidades
estudantis. Teve sua apresentação na imprensa feita por Epifânio Dória
(13/01/ 1955 no Sergipe Jornal)e daí em diante publicou poemas,
artigos e crônicas em diversos jornais de Sergipe. Nos anos 50 e 60
participou de programas culturais de emissoras de rádio. Membro da
Arcádia Estudantil do Colégio Estadual de Sergipe (Atheneu),
participou da fundação do Clube Sergipano de Poesia. Seu primeiro
livro de poesias, Rosa do Tempo), foi publicado em 1958, em Aracaju,
pelo Movimento Cultural de Sergipe. No ano seguinte, iniciando seus
estudos universitários em Belo Horizonte, ganhou ali o 1° prêmio no
Concurso Universitário de Poesia, e em 1960 um prêmio com o ensaio,
João Ribeiro e a História do Brasil, em concurso promovido pela
Secretaria de Educação e Cultura de Sergipe. Transferindo-se para
Salvador para continuar seus estudos, colaborou ali em revistas
universitárias.
Graduada em Filosofia e em Psicologia pela Universidade Federal da
Bahia, recebeu o grau de Doutora, em Psicologia, pela Universidade de
Lyon (França), realizando, mais tarde, estágio pós-doutoral na
Universidade de Paris XIII. Na Universidade Federal da Bahia trabalhou
no Departamento de Psicologia (do qual foi também chefe), e no
Mestrado em Educação do qual foi Coordenadora e uma das fundadoras da
ANPED. Na UFS foi professora do Departamento de Psicologia e
Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação. Foi professora visitante na
Universidade de Nice (França). Prestou serviços a outras Universidades
brasileiras e a instituições públicas nacionais como CFE, CNPq, CAPES
e outras. Foi a primeira Secretária Regional da SBPC (Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência) em Sergipe (1981-86) e membro
do Conselho Nacional dessa entidade científica (1986 a 91).
Além de sua tese de doutorado, L'Ecriture et la Lecture - (1969),
defendida em 13 de janeiro de 1970, publicou trabalhos científicos em
livros, revistas, anais, e Pesquisa e Realidade no Ensino de 1° Grau,
org. (Cortez Editora, São Paulo, 1980). Entre os ensaios, Esboço para
uma análise do significado da obra poética de Santo Souza (Aracaju,
1996).
Mais recentemente vem se dedicando ao romance e já publicou:
. Jane Brasil, Gráfica J. Andrade, Aracaju, 1986.
. Ibiradiô - as várias faces da moeda, Aracaju, 1990./
Edição francesa: Éditions du Petit Véhicule, Nantes, France, 1999.
. Preparem os agogôs, (Menção Honrosa no Concurso Nacional de
Romance, promovido pela SEC do Estado do Paraná - 1994). Ed. Bagaço,
Recife, 1996.
. Absolvo e Condeno, Editora Vertente, São Paulo, 2000 (Menção
Especial do Prêmio A.J.Cabassa, UBE, 2002)
Feliz Aventureiro, Scortecci Editora, São Paulo, 2001.
(Prêmio A.J.Cabassa, Especial do Júri, UBE, 2002).
Poesia:
.Rosa do Tempo, Movimento Cultural de Sergipe, Liv. Regina, Aracaju,
1958.
. Baladas do inútil silêncio (com Núbia Marques e Carmelita Fontes),
Artes Gráficas, Salvador, 1965.
Acaso, Multigraf, Salvador, 1975.
. Verdeoutono (com Núbia Marques e Carmelita Fontes),
Gráfica J. Andrade, Aracaju,1982.
.Cantos ao Parapitinga ou Louvações ao São Francisco, Aracaju, 1992.
Participação em diversas coletâneas (também em jornais e revistas),
entre as quais:
.Aperitivo Poético, Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de
Aracaju, SE. Edições de 1986/ 87/ 88/ 89.
. Palavra de Mulher, Maria de Lourdes HORTAS (org.), Ed. Fontana, RJ,
1979.
. NORdestinos, Pedro Américo de FARIAS (org.), Ed. Fragmentos/Ltda,
Lisboa, Portugal, 1994.
Prêmio: 1º lugar no Concurso Universitário de Poesia, Belo
Horizonte, 1959.
Inéditos: Poemas de Amar (divulgação artesanal)
Sonatas da Quarta Dimensão
Crônicas e contos:
Retalhos da Vida - coluna mantida na Gazeta de Sergipe -1960/61.
Participação em: Contos e Contistas Sergipanos, SEC, Aracaju,
1979.
Ensaios:
. João Ribeiro e a História do Brasil (prêmio em Concurso de
Monografias sobre J. Ribeiro), em: Caderno de Cultura , nº 1, Edição
da SEC. de Sergipe, 1960.
. Esboço para uma análise do significado da obra poética de Santo
Souza, Gráfica J. Andrade, Aracaju, 1996.
. A Trajetória poética de Núbia Marques, em Caminhos e Atalhos, N. N.
Marques, Segrase, Aracaju, 1997.
Um estudo sobre IBIRADIÔ
OS TRÊS TEMPOS DE IBIRADIÔ
Janaína Amado*
Ibiradiô, romance de Gizelda Morais publicado em segunda edição pela
Scortecci Editora, utiliza recursos narrativos variados, narradores
múltiplos, engenharia sofisticada e pesquisa histórica aprofundada.
Devido a essas e a outras qualidades, é um romance que apaixona e faz
pensar, aberto a diversas leituras e mergulhos.
Neste pequeno texto, exploro um aspecto de Ibiradiô que considero
central, tanto neste romance quanto na vida: as diferentes,
complicadas e contraditórias relações que se criam entre passado,
presente e futuro. São essas relações que conduzem a história, é a
consciência delas que nos torna humanos, elas é que nos conferem, ou
não, identidades, delas dependem os nossos destinos, como dependeram
os destinos de nossos antepassados e dependerão os de nossos filhos e
netos. Dos múltiplos e surpreendentes cruzamentos entre passado e
presente, história e memória, fato e versão, história e ficção, se
constroem as nossas vidas, os nossos futuros e belos livros como
Ibiradiô.
O romance é composto em dois tempos narrativos: o passado, formado
pelos dramáticos acontecimentos históricos da invasão e conquista de
Sergipe no final do século XVI, quando os brancos atacaram com
ferocidade a população indígena que há muito habitava a região, e
praticamente a exterminaram. E o presente da narrativa, em tipos
itálicos no livro, quando três jovens, Cristóvão, Diogo e Gaspar,
reunidos em torno do projeto de realização de um filme sobre aqueles
acontecimentos históricos sergipanos, se debruçam sobre o passado e,
com base nele, discutem o presente. Todos os capítulos do romance
contêm os dois tempos narrativos. O passado é reconstituído por meio
de um pré-roteiro, espécie de esboço de um futuro filme, escrito pelo
jovem Cristóvão. O tempo presente, isto é, aquele em que vivem os três
candidatos a cineasta, é retratado por meio de diálogos vivos e
inteligentes entre eles.
Ao escolher esse formato, Gizelda Morais escolheu também colocar em
evidência uma questão crucial da relação passado-presente: o passado
não é auto-evidente, ou seja, ele não está ali, intacto e ordenado, à
nossa espera; para poder ser alcançado e ganhar significados, o
passado precisa ser reconstituído, reconstruído, reinventado por
pessoas do presente. No dia-a-dia das sociedades, essa reconstrução
acontece por variados meios, como a pesquisa e a narrativa históricas,
a arte (literatura, pintura, música, dança...), as comemorações, as
lendas, os rituais, etc. Se essa reconstrução não acontece, as pessoas
e os fatos do passado não existem, continuam mortos.
Em Ibiradiô, a reconstrução da conquista de Sergipe se faz por meio da
narrativa do personagem Cristóvão. À medida que realiza pesquisas
históricas sobre o assunto, Cristóvão vai compondo seu pré-roteiro,
para o filme que deseja fazer (o qual, por sua vez, será uma nova
forma de recriar o passado).
No pré-roteiro de Cristóvão, aparecem e atuam vários personagens
históricos, como o conquistador Cristóvão de Barros, o jesuíta Luiz de
Grã, o capitão Álvaro Rodrigues, o soldado Diogo de Crasto, o padre
Gaspar, etc., cujas trajetórias são hoje em dia conhecidas, ou
vislumbradas, graças a documentos históricos - isto é, graças também
a narrativas -, sobretudo as escritas pelos jesuítas. No pré-roteiro
de Cristóvão movimentam-se e interagem, com essas figuras históricas,
personagens de ficção, criados pela imaginação de Cristóvão/Gizelda
Morais, como o aventureiro Francisco Velho e as índias Iramitã e Inaiá.
E há ainda Ibiradiô, que quase não aparece mas dá título ao livro, o
mestiço de nome composto, filho de Iramitã (personagem de ficção) e de
Diogo de Crasto (personagem cuja passagem pela história é brevemente
referida, porém, no romance, é largamente ficcionalizado) - Ibiradiô,
ele próprio uma invenção, alegoria do nascimento do Brasil.
Ibiradiô vai ainda mais fundo em sua exploração dos vínculos entre o
ontem e o hoje: demonstra que toda narrativa é construída a partir de
um ponto de vista. E como o romance faz isso? Criando um narrador para
o pré-roteiro de Cristóvão. Esse narrador é Diogo de Crasto, um
soldado amigo dos índios, figura que Cristóvão descobriu em suas
pesquisas históricas sobre Sergipe. São as aventuras e desventuras
ficcionalizadas de Diogo de Crasto, contadas pelo próprio, que
constituem o cerne do roteiro de Cristóvão. Portanto, Cristóvão
pesquisa e escreve, mas a perspectiva da história do roteiro, seu
ponto de vista, é o de Diogo de Crasto: "No meu texto, Diogo é o
narrador. Sendo quase jesuíta, ele ressalta a perspectiva dos padres,
destacando o sentimento religioso dos índios, mais que o prático ou o
social", explica Cristóvão. Cada narrador tem portanto seu próprio
ponto de observação, suas piniões, cada qual tecendo o seu enredo.
Assim, parece nos dizer Ibiradiô, existem diversas reconstituições de
um mesmo passado, dependendo de quem narra e de quando narra. Se
Cristóvão fosse o narrador do pré-roteiro, a história narrada seria,
decerto, diferente.
Além disso, o roteiro de Cristóvão sofre, ao longo de todo o romance,
críticas ferozes. Os amigos do futuro cineasta o acusam, entre outras
coisas, de ser condescendente com os jesuítas, de não saber traduzir
os sentimentos dos índios, de ser inverossímil, de colocar pensamentos
e sentimentos atuais nas cabeças e nos corações dos antigos... Ou
seja: sendo o passado reconstruído por meio de narrativas - no caso,
de um pré-roteiro -, ele não é sagrado, intocável, imutável. Ao
contrário: é móvel, mutável, maleável. O passado pode receber
críticas, adesões, correções, atualizações, pode, enfim, ser mudado,
como acontece, em Ibiradiô, com o roteiro de Cristóvão/ Diogo de
Crasto. Assim se explica por que, no mundo, os fatos passados são
contados e recontados tantas vezes, ao longo do tempo: existem
diferentes narradores, diferentes ouvintes/ leitores, diferentes
épocas históricas, cada qual com a sua opinião, com as suas formas de
criar, de contar e de se apropriar do passado.
Ibiradiô trata ainda de outro aspecto importante da relação entre os
tempos: a enorme influência que o passado tem sobre o presente. O fato
de os três jovens terem se deslocado para Sergipe, para ali preparar
um filme inspirado na história sergipana, já é motivo suficiente para
provocar reações e transformações nas pessoas do lugar. A
professorinha local Inaiá, interessada em Gaspar e na história dos
índios, convida o novo amigo para contar essa história aos alunos
dela. Quando o vereador Matias, dono de todas as terras da região,
contudo, sabe disso, não gosta nem um pouco: aquela história passada,
recriada e renovada na escola, cheira-lhe a subversão, a vontade de
mudar o presente! E tudo o que o vereador deseja é que o presente não
mude.
Por seu lado, os três jovens também vão modificando suas idéias e
comportamentos, devido à experiência de trabalhar, no presente, com os
fatos históricos sergipanos. Gaspar se aflige por estar mergulhado no
passado longínquo, enquanto tantas urgências clamam por soluções no
presente. A sensibilidade de Cristóvão é tocada de modo diferente: ele
acha que, para entender os problemas presentes, é preciso compreender
suas origens, seu passado. Ao final, Diogo muda de vida, decidindo
permanecer em Sergipe, para desenvolver um trabalho junto a uma
cooperativa de pescadores.
Seria possível seguir indefinidamente esses labirintos de espelhos,
pois o belo e profundo Ibiradiô surpreende a cada página, recriando
histórias dentro de histórias dentro de histórias, apresentando
narradores que narram a outros narradores, os quais misturam memórias
com ficções com histórias, baseadas em documentos, em argumentos, em
mitos, em canções, em rezas, em guerras, cruzes e arcabuzes,
embaralhando tempos. A esse incessante diálogo entre passado e
presente nem os nomes dos personagens escapam. Os jovens Cristóvão,
Diogo e Gaspar têm, no passado, personagens homônimos: o conquistador
Cristóvão de Barros, o soldado Diogo de Crasto e o padre Gaspar. Mas
seriam esses personagens de nomes iguais também iguais na essência, o
passado repetindo-se no presente, o presente idêntico ao passado? Ao
contrário: alguns apresentam índoles e comportamentos opostos, como o
implacável capitão-mor Cristóvão de Barros e o generoso cineasta
Cristóvão.
O épico Ibiradiô nos lembra que, no caleidoscópio dos tempos, passado
e presente, misturados, interdependentes, estão em constante
transformação para criar um terceiro tempo, o futuro. Que pode ser
bom, melhor até do que tudo o que conhecemos, a depender de como cada
pessoa lida com o passado e constrói o presente, a depender do
compromisso que cada um tiver com a sua paixão, como diz Cristóvão, o
jovem cineasta.
* A escritora Janaína Amado é historiadora, professora titular
aposentada do Departamento de História da Universidade de Brasília. |