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Órfão de pai aos 9 anos, o menino foi entregue aos cuidados do
tio Padre Odilon Benvindo. José Américo fez seus estudos no
Seminário da capital do Estado e no Liceu Paraíbano. Em 1903
ingressou na Faculdade de Direito do Recife e obteve do governo
a nomeação para o cargo de promotor público na comarca de Sousa.
Em 1911 passou a ocupar as elevadas funções de Procurador Geral
do Estado.
A publicação do romance "A bagaceira", em 1928, projetou-lhe o
nome em todo o país, com o destaque dado à literatura
regionalista que, ainda no século XIX, se concentrara,
sobretudo, nas obras de Franklin Távora e de Domingos Olímpio,
este, já no início do século seguinte, com "Luzia Homem", livro
considerado por Afrânio Peixoto como "um modelo de romance
regional".
Em 1922 publicara José Américo as "Reflexões de uma cabra" a que
se seguiu "A Paraíba e seus problemas"(1923) obra de grande
conteúdo social.
Secretário do Interior e Justiça durante o governo de João
Pessoa na Paraíba, teve de enfrentar os conflitos políticos na
região de Princesa.
Com a vitória da Revolução de 1930 assumiu, de 1930 a 1934, o
Ministério da Viação e Obras Públicas. Um desastre aéreo na
cidade de Salvador, em 1932, deixou-o seriamente ferido.
Em 1934 Getúlio Vargas o nomeou para o cargo de Embaixador do
Brasil junto à Santa Sé. Eleito Senador em 1935 seria, algum
tempo depois, designado Ministro do Tribunal de Contas da União.
Depois do êxito de "A bagaceira" publicou, ainda, os romances "O
boqueirão"(1935) e "Coiteiros", competindo, nessa época com os
nordestinos José Lins do Rego e Jorge Amado, bem como com Amando
Fontes, este nascido em Santos (São Paulo), de família
sergipana.
Em 1937 foi apresentado como candidato dos partidos governistas
à presidência da República, com grandes probabilidades de
vitória, mas o golpe de Estado de 10 de novembro desse ano
suprimiu a campanha eleitoral. O Congresso Nacional foi
dissolvido e outorgada ao país uma Carta Constitucional, pela
qual era implantado, no país, o Estado Novo.
Em fevereiro de 1945, com uma entrevista ao matutino carioca
"Correio da Manhã" José Américo contribuiu decisivamente para
pôr fim à ditadura implantada por Getúlio Vargas em 10 de
novembro de 1937.
Nas eleições de 2 de dezembro de 1945 José Américo foi eleito
Senador pelo seu Estado natal. Mais tarde, recompôs-se
politicamente com o ex-ditador voltando a ocupar a pasta
ministerial da Viação e Obras Públicas, cargo em que se
conservou até o suicídio do Presidente na manhã de 24 de agosto
de 1954.
Entregou-se José Américo à tarefa de escrever as suas memórias
e, em 1966, ingressou na Academia Brasileira de Letras, ocupando
a vaga deixada pelo trágico falecimento do professor Maurício de
Medeiros.
A União Brasileira de Escritores presta-lhe significativa
homenagem - em 1977 - como "O Intelectual do Ano".
No ano anterior publicara o homenageado mais um livro de
memórias, intitulado "Antes que me esqueça".
Obras publicadas: Reflexões de uma cabra,1922; A Paraíba e seus
problemas, 1923; A bagaceira, 1928; O boqueirão, 1935; Coiteiros,
1935; Ocasos de sangue, 1954; Discursos de seu tempo, 1964; A
palavra e o tempo, 1965; O ano do nego, 1968; Eu e eles, 1970;
Quarto minguante, 1975; Antes que me esqueça, 1976; Sem me rir,
sem chorar, 1984.
TEXTOS:
Há muitas formas de dizer a verdade. Talvez a mais persuasiva
seja a que tem a aparência de mentira.
*
Se escapar alguma exaltação sentimental, é a tragédia da própria
realidade. A paixão só é romântica quando é falsa.
*
O naturalismo foi uma bisbilhotice de trapeiros. Ver bem não é
ver tudo: é ver o que os outros não vêem.
*
A alma semibárbara só é alma pela violência dos instintos.
Interpretá-la com uma sobriedade artificial seria tirar-lhe a
alma.
*
Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter
o que comer na terra de Canaã.
*
É um livro triste que procura a alegria. A tristeza do povo
brasileiro é uma licença poética ...
*
Os grandes abalos morais são como as bexigas: se não matam,
imunizam. Mas deixam a marca ostensiva.
*
O regionalismo é o pé-do-fogo da literatura... Mas a dor é
universal, porque é uma expressão de humanidade. E nossa ficção
incipiente não pode competir com os temas cultivados por uma
inteligência mais requintada: só interessará por suas
revelações, pela originalidade de seus aspectos despercebidos.
*
O amor aqui é um tudo-nada de concessão lírica ao clima e à
raça. É um problema de moralidade com o preconceito da vingança
privada.
*
Um romance brasileiro sem paisagem seria como Eva expulsa do
paraíso. O ponto é suprimir os lugares-comuns da natureza.
*
A língua nacional tem rr e ss finais... Deve ser utilizada sem
os plebeísmos que lhe afeiam a formação. Brasileirismo não é
corruptela nem solecismo. A plebe fala errado; mas escrever é
disciplinar e construir ...
*
Valem as reticências e as intenções.
O Romancista
OS SALVADOS
Findo o almoço - podiam ser 9 horas - Dagoberto Marçau correu à
janela, que é uma forma de fugir de casa, sem sair fora de
portas, como se movesse uma grande curiosidade. Mas, debruçado,
apoiou o queixo na mão soerguida e entrefechou os olhos, num
alheamento de enfado ou displicência.
Vivia ele, desse jeito, entre trabalheiras e ócios, como o
homem-máquina destas terras que ou se agita resistentemente, ou,
quando pára, pára mesmo, como um motor parado.
Como que cobrara medo ao vazio interior. Não há deserto maior
que uma casa deserta.
Entrava afobado, comia, ou, antes, engolia, de cabeça descaída,
o repasto invariável e ou saía de golpe ou ficava a espiar para
fora.
A presença do filho recém-chegado, em férias, não lhe modificava
essa impressão. Em vez de confortar-lhe o abandono, agravava-o,
mais e mais, como uma sombra intrusa.
Lúcio voltou da cachoeira com a toalha enrolada na cabeça, como
um turbante.
Levantou o braço num gesto de quem mais parecia dar do que pedir
a bênção. E foi, por sua vez, sentar-se à mesa.
Não se defrontavam, sequer, nesse ponto de comunhão familiar,
onde as almas se misturam numa intimidade aperitiva.
Forravam-se, assim, ao constrangimento dos encontros calados ou
das conversas contrafeitas e escassas.
A casa-grande, situada numa colina, sobranceava o caminho
apertado, no trecho fronteiro, entre o cercado e o açude.
Num repentino desenfado, Dagoberto estirou o olhar, por cima das
mangueiras meãs enfileiradas ladeira abaixo, para a estrada
revolta.
Parecia a poeira levantada, a sujeira do chão num pé de vento.
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios
antigos - esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor
das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos
e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez
de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não
tinham pressa em chegar, porque não sabiam onde iam. Expulsos do
seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos,
no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os
levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de
mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos - doentes da alimentação
tóxica - com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os
retirantes. Nada mais.
Meninotas, com as pregas da súbita velhice, careteavam, torcendo
as carinhas decrépitas de ex-voto. Os vaqueiros másculos, como
titãs alquebrados, em petição de miséria. Pequenos fazendeiros,
no arremesso igualitário, baralhavam-se nesse anônimo
aniquilamento.
Mais mortos do que vivos. Vivos, vivíssimos só no olhar. Pupilas
do sol da seca. Uns olhos espasmódicos de pânico, assombrados de
si próprios. Agônica concentração de vitalidade faiscante.
Fariscavam o cheiro enjoativo do melado que lhes exacerbava os
estômagos jejunos. E, em vez de comerem, eram comidos pela
própria fome numa autofagia erosiva.
Lúcio almoçava com o sentido nos retirantes. Escondia côdeas nos
bolsos para distribuir com eles, como quem lança migalhas a aves
de arribação.
A cabroeira escarninha metia-os à bulha:
- Vem tirar a barriga da miséria ...
Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do
trabalho e de uma dependência que os desumanizava, eram os mais
insensíveis ao martírio das retiradas.
A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações
periódicas. Os sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome
de brejeiro cruelmente pejorativo.
Lúcio responsabilizava a fisiografia paraibana por esses choques
rivais. A cada zona correspondiam tipos e costumes marcados.
Essa diversidade criava grupos sociais que acarretavam os
conflitos de sentimentos.
Estrugia a trova repulsiva:
Eu não vou na sua casa,
Você não venha na minha,
Porque tem a boca grande,
Vem comer minha farinha...
Homens do sertão, obcecados na mentalidade das reações cruentas,
não convocavam as derradeiras energias num arranque selvagem. A
história das secas era uma história de passividades.
Limitavam-se a fitar os olhos terríveis nos seus ofensores.
Outros ronronavam, como se estivessem engolindo golfadas de
ódio.
E nas terras copiosas, que lhes denegavam as promessas
visionadas, goravam seus sonhos de redenção.
Dagoberto olhava por olhar, indiferente a essa tragédia viva.
A seca representava a valorização da safra. Os senhores de
engenho, de uma avidez vã, refaziam-se da depreciação dos tempos
normais à custa da desgraça periódica
O feitor alvitrava a admissão dos retirantes:
- Paga-se pouco mais ou nada ...
Mas Dagoberto escarmentava a convergência molesta. Desafogava a
fazenda da superpopulação imprestável, consignada à caridade
pública.
À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula
espetral detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do
engenho como uma grande essa armada no negrume do teto velho.
Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos,
na mobilidade incerta.
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam
mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas
atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos
de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino
irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras
poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o
rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
Dagoberto despercebia-se do desfile macabro. A seca infundia-lhe
um sentimento contrastante.
Era uma inquietação serôdia, como a brasa remanescente que
procura acender o cinzeiro.
Num período de vida em que o homem realiza o que sonhou, ele
voltava a sonhar. Amor - pólvora que se acaba com a primeira
explosão, Amor que sabe a frutos apodrecidos. Era como o
caminheiro que, fatigado da jornada, estuga o passo para chegar
antes de anoitecer.
Beirava uma idade em que o instinto sexual instigado se difunde
por todos os sentidos e é mais imaginação que materialidade,
como a saudade do que se não gozou. Crise das uniões
retardatárias.
Havia coisa de 18 anos, inveterava-se na viuvez desconfortada,
por uma jura indiscreta:
- Mas eu não encontro outra mulher assim...
E gabava-lhe com minúcias de formas os caracteres da beleza e as
prendas ocultas:
- Mulherão! mulherão!
Os dias do campo decorriam-lhe recreativos. Mas, à noite, quando
as portas se cerravam, cerrava-se-lhe o coração.
A solidão entretinha intimidades desiguais. Admitia o feitor em
suas confidências:
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- Qual o quê! O senhor encruou ... Se duvidar, com esse calibre
é capaz de passar a perna em seu Lúcio.
A mata fronteira, o padrão majestoso, estava acesa uma cor de
incêndio.
Havia uma semana, surdira um toque estranho na monotonia da
verdura. Dir-se-ia um ramo amarelido à torreira da estação.
Dominava ainda a esmeralda tropical. Mas, com pouco, emergia o
mesmo matiz em outro trecho vizinho, como um efeito de luz, um
beijo fulgurante do sol em árvore favorita. E, logo, o
pau-d’arco assoberbou a flora, como um banho de ouro na
folhagem.
Nessa manhã luminosa a mata resplandecia com uma orgia de
desabrocho em sua pompa auriverde.
Sem a percepção da paisagem, com a sensibilidade obtusa e
entorpecida aos primores da natureza, Dagoberto inquietava-se,
pela primeira vez, perante o ouro que frondejava. Parecia-lhe
que o sol tinha baixado sobre a selva fulva.
Era, talvez, a cor que lhe suscitara o interesse chambão. As
pétalas áureas ...
E semicerrou, novamente, os olhos descuriosos. (...)
(A bagaceira, 1928)
CORRESPONDÊNCIA
Paraíba, 10 de Novembro de 1925.
Meu caro Inojosa:
Gostei muito de sua conferência - O Brasil Brasileiro. Não são
simples frases, mas conceitos oportunos e estimulantes.
Já estou enfarado da literatura pela literatura. A inteligência
só serve como reguladora de energias. Estamos em tempo de passar
do sonho à ação. E, ainda utilizando os padrões do progresso
material e cultural de outros povos, devemos construir obra
nossa, isto é, atender às exigências de nosso ambiente físico e
social, como condição de continuidade e de permanência dessas
conquistas.
V. vai mito bem por aí, com a orientação deliberada e o talento
que Deus (com licença da palavra...) lhe liberalizou.
Só tem direito de reivindicar as prerrogativas da mocidade
brasileira u’a mocidade assim.
Aprecio, também, especialmente, a moderação de seu modernismo.
Aceite, com muitos agradecimentos, um afetuosos abraço do (2)
Confrade e amigo
José Américo de Almeida
(2) Outra carta de real valor histórico nas relações de José
Américo com o modernismo. Agradecia o exemplar da plaqueta que
lhe enviara do Recife, contendo a conferência O Brasil
Brasileiro, em que estudava as idéias nacionalistas contidas no
bojo do modernismo, aquelas que, partidas do poema Juca Mulato,
de Menotti del Picchia, de 1917, haviam caracterizado a poesia e
a prosa da Semana e pós-Semana de 22.
Se na carta anterior, de 1924, mostrava sua condescendência pelo
espírito novo, nesta, de um ano depois, deixava entrever, na
fímbria da linguagem, os motivos seca/bagaceira do seu futuro
romance, quando definia que era preciso "construir obra nossa,
isto é, atender às exigências do nosso ambiente físico e
social"-, ... Deus (com licença da palavra") - alusão às minhas
idéias monistas de então.
Paraíba, 25 de junho de 1928.
Amigo Joaquim Inojosa:
Acabo de receber sua delicada carta.
Esperei-o, durante todo o domingo, para mais longa troca de
idéias sobre o movimento que nos interessa. É pena que tivesse
saído à noite, perdendo, assim, a oportunidade de sua gentil
visita.
Não fui vê-lo à estação porque não tive notícia prévia da hora
do seu embarque.
A União publicou seu belo e forte discurso que repercutiu nas
rodas entendedoras, de forma mais simpática.
Quando tiver uma folga, irei até aí para rever os confrades e
participar do grato contato do seu espírito moderno.(3)
Meus respeitos à sua Exa. Senhora.
Aceite um abraço afetuoso do
José Américo de Almeida
(3) Carta inserta no vol. 1.o do livro "O Movimento Modernista
em Pernambuco"
Em junho de 1928, proferi na capital paraibana discurso de
paraninfo da turma de formandos da Escola Remington. Aproveitei
para dar um balanço do que fora a campanha modernista de outubro
de 1922 àquela data, com o romance a Bagaceira já nas livrarias,
revelando o resultado da renovação na Paraíba numa espécie de
canto do cisne da propaganda diante do êxito maior. Daí que,
integrado na batalha modernista, houvesse José Américo usado das
expressões: "para mais longa troca de idéias sobre o movimento
que nos interessa" e "participar do grato contato do seu
espírito moderno", aludindo ao desencontro da visita programada.
Constitui a carta mais um importante documento revelador da
filiação de José Américo ao modernismo paulista ... "o movimento
que nos interessa", excluindo a hipótese de outra qualquer
influência na elaboração da sua obra imortal.
Tambaú, 24 de fevereiro de 1966
Caro Joaquim Inojosa:
Recebi sua carta e fiquei pensando. O apanhado do nosso encontro
está muito bem lançado, mas me coloca numa posição que, definida
por mim, me deixa de certo modo contrafeito São coisas que
poderão ser expressas por outras pessoas, sem reivindicação de
minha parte.
Gostaria assim que você eliminasse a segunda página o período
que começa por Por isso considero... e o que começa por Jamais
me deixei...
Agradeço-lhe, bem como ao nosso Ivan, a oferta do livro do
Wilson Martins, muito útil para se formar um conceito do
modernismo em São Paulo.
Desculpe a demora desta resposta. Cheguei ao Rio incapacitado
até para escrever uma carta.
Faço votos pelo êxito do seu próximo livro que terá, como
sempre, a marca de sua consciência de escritor.
Abraços do
José Américo de Almeida
(4) Refere-se esta carta ao encontro que mantive no Rio, em
1967, com José Américo de Almeida. Transformei, ao chegar a
casa, a longa palestra numa entrevista. Lendo-a, já na Paraíba,
apenas a modificou em dois ligeiros trechos. Acha-se publicada
no vol. 1o - 1968 - do livro O movimento Modernista em
Pernambuco. Confessava, pela primeira vez, que levara cerca de
três anos para concluir o romance A Bagaceira, fruto do monismo
em voga:
- "A proporção que o modernismo se expandia, inclusive no que
representava de
polêmico em Pernambuco, foi-se concretizando dentro de mim a
idéia de igualmente
formarmos uma reação nordestina contra os cânones antigos, a que
se chamava de
"passadismo", sem que perdêssemos o sentido universal da cultura
brasileira. Reagir
como nordestino, queria dizer aproveitar tipos linguagem,
costumes regionais do
Nordeste, secas e cangaços, dentro da integração nacionalista
pregada pelos
modernistas. Literatura universalista, pois que a literatura,
mesmo que fixe aspectos
regionais, não perde, por isso, o seu aspecto de universalidade.
O certo é que o
modernismo, na fase inicial, nos dava a impressão de combate
puro e simples a tudo o
que fosse "passado". Evidentemente que isto se modificaria
rumando os modernistas
para o nacionalismo".
Eis aí um breve histórico confessional do romance A Bagaceira,
com as suas raízes encravadas no modernismo paulista, o que
depois o autor iria repetir na Academia Brasileira de Letras:
- "Poetas, sim, o modernismo deu dos maiores."(...)
- "Chegou a minha vez. O Norte precisava estar presente"(...) -
"O que houve de
minha parte foi ousadia, numa hora ainda indecisa."( ...) - "O
modernismo foi um
dia e aí está o romance moderno na sua maturidade ..."(...) - "-
o modernismo teve o
seu desenvolvimento e esse, sim, é que foi o fenômeno".
Fenômeno que, no afirmar do novo acadêmico, atingira no romance
a escritores ... "cariocas, paulistas, gaúchos, mineiros,
baianos, pernambucanos, cearenses, maranhenses, piauienses,
quase todo o Norte com esse novo padrão".
João Pessoa (Tambaú) 15 de nov. De 1966
Caro Joaquim Inojosa:
Ora, meu caro Inojosa, fiquei surpreendido em saber que Ivan,
chegado agora, não recebeu minha carta em que juntara outra para
você, por ignorar seu endereço.
Logo que saiu aqui seu artigo a respeito de minha candidatura à
Academia, tive pressa em escrever-lhe agradecendo essa sua
contribuição, das mais relevantes, para o efeito moral de minha
vitória. Não ignora como sei medir o seu valor. Apreciei o seu
trabalho não só por esse cunho de autoridade, como pela força da
análise e oportunidade dos argumentos. (5)
Até abril ou maio. Estaremos sempre juntos.
Cordialmente,
José Américo
(5) Artigo publicado em O Jornal - Rio - de 18 de outubro e
1966, Ivan: Ivan Bichara.
(Algumas cartas a Joaquim Inojosa, 1980)
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