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Filho de João do Rego Cavalcanti e de Amélia Lins Cavalcanti,
fez as primeiras letras no Colégio de Itabaiana, PB, no
Instituto N. S. do Carmo e no Colégio Diocesano Pio X de João
Pessoa. Depois estudou no Colégio Carneiro Leão e Osvaldo Cruz,
em Recife. Desde esse tempo revelaram-se seus pendores
literários. É de 1916, por exemplo, o primeiro contato com O
Ateneu, de Raul Pompéia. Em 1918, aos 17 anos portanto, José
Lins travou conhecimento com Machado de Assis, através do Dom
Casmurro. Desde a infância, já trazia consigo outras raízes, do
sangue e da terra, que vinham de seus pais, passando de geração
em geração por outros homens e mulheres sempre ligados ao mundo
rural do Nordeste açucareiro, às senzalas e aos negros rebanhos
humanos que a escravidão foi formando.
Passou a colaborar no Jornal do Recife. Em 1922 fundou o
semanário Dom Casmurro. Formou-se em 1923 na Faculdade de
Direito do Recife. Durante o curso, ampliou seus contatos com o
meio literário pernambucano, tornando-se amigo de José Américo
de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes, e
outros. Gilberto Freyre, voltando em 1923 de uma longa temporada
de estudos universitários nos Estados Unidos, marcou uma nova
fase de influências no espírito de José Lins, através das idéias
novas sobre a formação social brasileira.
Ingressou no Ministério Público como promotor em Manhuçu, MG, em
1925, onde entretanto não se demorou. Casado em 1824 com d.
Filomena (Naná) Masa Lins do Rego, transferiu-se em 1926 para a
capital de Alagoas, onde passou a exercer as funções de fiscal
de bancos, até 1930, e fiscal de consumo, de 1931 a 1935. Em
Maceió, tornou-se colaborador do Jornal de Alagoas e passou a
fazer parte do grupo de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz,
Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti,
Aloísio Branco, Carlos Paurílio e outros. Ali publicou o seu
primeiro livro, Menino de engenho (1932), chave de uma obra que
se revelou de importância fundamental na história do moderno
romance brasileiro. Além das opiniões elogiosas da crítica,
sobretudo de João Ribeiro, o livro mereceu o Prêmio da Fundação
Graça Aranha. Em 1933, publicou Doidinho, o segundo livro do
"Ciclo da Cana-de-Açúcar".
Em 1935, já nomeado fiscal do imposto de consumo, José Lins do
Rego transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde passou a residir.
Integrando-se plenamente no ambiente carioca, continuou a fazer
jornalismo, colaborando em vários jornais com crônicas diárias.
Foi secretário geral da Confederação Brasileira de Desportos de
1942 a 1954. Revelou-se, então, por essa época, a faceta
esportiva de sua personalidade, sofrendo e vivendo as paixões
desencadeadas pelo futebol, o esporte de sua predileção.
Romancista da decadência dos senhores de engenho, sua obra
baseia-se quase toda em memórias e reminiscências. Seus romances
levantam todo um sistema econômico de origem patriarcal, com o
trabalho semi-escravo do eito, ao lado de outro aspecto
importante da vida nordestina, ou seja, o cangaço e o
misticismo. O autor destacou como desejaria que a sua obra
romanesca fosse dividida: Ciclo da cana-de-açúcar: Menino de
engenho, Doidinho, Bangüê, Fogo morto e Usina; Ciclo da cangaço,
misticismo e seca: Pedra Bonita e Cangaceiros; Obras
independentes: a) com ligações nos dois ciclos: Moleque Ricardo,
Pureza, Riacho Doce; b) desligadas dos ciclos: Água-mãe e
Eurídice.
Prêmios recebidos: Prêmio da Fundação Graça Aranha, pelo romance
Menino de engenho (1932); Prêmio Felipe d’Oliveira, pelo romance
Água-mãe (1941), e Prêmio Fábio Prado, pelo romance Eurídice
(1947).
ROMANCE: Menino de engenho (1932); Doidinho
(1933); Bangüê (1934); O moleque Ricardo (1935);
Usina (1936); Pureza (1937); Pedra Bonita
(1938); Riacho Doce (1939); Água-mãe (1941);
Fogo morto (1943); Eurídice (1947); Cangaceiros
(1953); Romances reunidos e ilustrados, 5 vols.
(1980).
MEMÓRIAS: Meus verdes anos (1956).
LITERATURA INFANTIL: Histórias da velha Totônia (1936).
CRÔNICA: Gordos e magros (1942); Poesia e vida
(1945); Homens, seres e coisas (1952); A casa e o
homem (1954); Presença do Nordeste na literatura
brasileira (1957); O vulcão e a fonte (1958).
VIAGEM: Bota de sete léguas (1951); Roteiro de Israel
(1955); Gregos e troianos (1957).
FILMES: Pureza, direção de Chianca de Garcia (1940);
Menino de engenho, direção de Valter Lima (1965); Fogo
morto, direção de Marcos Farias (1976).
Romances de José Lins do Rego foram traduzidos na Alemanha,
Argentina, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália,
Portugal e Coréia.
EXILADOS EM FERNANDO DE NORONHA
Eles iam para Fernando de Noronha. O governo caíra em cima dos
centros operários com uma fúria de ciclone. Não ficou um que não
fosse arrebentado e que os seus diretores não comessem virola e
cadeia. O Dr. Pestana, metido em prisão por umas horas, teve a
mulher para gritar por ele, habeas-corpus que o livrasse dos
constrangimentos. Os chefes operários iriam para Fernando. Lá
estavam os ladrões e criminosos curtindo penas. Para lá iriam os
operários. Sebastião e o povo da padaria de seu Alexandre
estavam na lista para seguirem. Diziam os jornais que Sebastião
era um perigoso agitador e a padaria onde ele trabalhava um foco
terrível. Fernando de Noronha com eles.
Seu Lucas andava triste. Foi ao desembargador que ele curara da
mulher, mas o homem lhe desenganou. Ninguém fosse falar ao
governo em favor de operário. O governador queria fazer uma
limpeza na cidade, porque a canalha não deixava ninguém
descansar com esta história de greve todos os dias. Ele estava
perdendo o tempo. E a mulher de Jesuíno e os filhos nas grades
do jardim do seu Lucas, chorando.
- Vai para casa, mulher! - dizia o pai-de-terreiro. Ele volta!
Um dia ele volta!
E os fihos de Deodato e os de Simão pedindo notícias a seu
Alexandre:
- Foram para os infernos! Perderam-se porque quiseram! Agora que
agüentem!
Mas seu Alexandre se lastimava. Os homens sabiam trabalhar de
verdade. Os outros que tinham vindo substituí-los não valiam
nada. Onde encontrar um boca-de-fogo como Deodato, um pãozeiro
como Ricardo, um masseiro como Simão? Seu Antônio foi ao patrão
e disse mesmo:
- Precisas fazer voltar esses homens senão eu me retiro.
- Voltar como, homem de Deus? Já falei com o Dr. Demócrito. O
governo faz questão de castigar, de dar um termo a esta greve.
Não havia mesmo jeito. Os homens iriam mesmo para Fernando. Seu
Lucas, no jardim, andava triste, debruçava-se sobre as roseiras
sem entusiasmo. Os negros iriam para Fernando. Jesuíno e Ricardo
na ilha com os ladrões e criminosos. O jardineiro olhava o chão
pensando nos homens. O que tinham feito eles demais? Jesuíno e
Ricardo não mataram ninguém, não tiraram o alheio. Iam para
Fernando. Seu Lucas viu o sol nas suas plantas sem saber o que o
sol fazia. Botava água nos canteiros, sem saber o que a água
fazia. Os amigos dele seriam mandados de navio para o mar, para
o meio do mar, com ladrões e assassinos. E os outros? Simão e
Deodato? Eram bons também, as mulheres também chorariam de fome.
Por que não mandavam o Dr. Pestana? De cócoras, mexendo na terra
molhada, o velho censurava as coisas, o velho sentia a miséria
das coisas. Aquilo era uma ruindade sem tamanho.
Numa manhã, os homens saíram para Fernando. Ricardo, Deodato,
Simão, Jesuíno para um canto do navio olhavam o Recife coberto
ainda de sombras da madrugada. Viam vapores grandes no cais,
catraieiros trabalhando àquela hora. Mas havia um silêncio
grande, um silêncio medonho nos barcos dormindo e nas águas do
rio. Eles olhavam para o lado do cais e viam as casas e a terra
que iam deixar. Simão para um lado, triste, de cabeça baixa,
Deodato dizendo:
- Se ao menos eu pudesse ver os meninos!
E o negro Jesuíno sentado em cima de umas cordas. Sebastião só
fazia dizer:
- A gente volta. Um dia a gente volta.
Ricardo olhava para todos. Ele sentia uma vontade desesperada de
vomitar, aquele cheiro aborrecido de bordo lhe embrulhava o
estômago. Iam para Fernando. Conhecera no engenho um homem, um
assassino que estivera em Fernando de Noronha. Chamava-se Noé e
contava tanta coisa triste de lá. Fernando de Noronha, ninho de
tudo que era homem sem remédio e sem jeito. Ele ia para lá e não
sabia o mal que tivesse feito.
- Homem, dizia Jesuíno para Simão, o governo só faz isto porque
não tem família.
- Eu até nem penso mais nos meninos, respondia Simão. Vai se
perder tudo, Jesuíno. Vai se perder tudo.
Deodato era mais forte:
- Não faz mal, eles arranjam jeito de viver.
Sebastião, de pé:
- É isto mesmo. Se a gente esmorecer, sofre mais.
Ricardo se lembrava da mãe Avelina. Com que alegria ela recebera
a carta dizendo que ele ia! Os negros todos da rua se assanharam
na certa com a notícia. Ricardo ia chegar calçado de botina e de
gravata no pescoço, como o José Ludovina no dia da eleição.
Ricardo no Recife não tirava a botina dos pés, mas agora era
isto que estava se vendo. Cercado de água por todos os lados,
para o resto da vida. Morreriam por lá.
Agora o sol já cobria o cais, já os sobrados altos se mostravam
para eles. E o navio ia sair com pouco mais, com as máquinas
dando sinal. Eles viram então seu Lucas em pé no cais. O vapor
já não estava atracado. Seu Lucas dava com as mãos para eles. O
negro velho em pé, com o sol na cabeça branca, dando com os
braços para eles. Ricardo olhava para o amigo.Sempre ele tinha o
que lhe perguntar nas grades de seu jardim. O negro velho
gostava dele. E o vapor ia saindo devagarinho. Simão botava as
mãos na cabeça para chorar. Deodato firme e Jesuíno gritando:
- Lá está pai Lucas! Pai Lucas, toma conta dos menino!
Sebastião não dizia nada. O vapor ia virando para o outro lado e
eles correram para dar com as mãos para o velho amigo. O negro
velho em pé como uma estaca de cercado no cais de cimento.
Os negros bons iam para Fernando. O que tinham feito eles? dizia
seu Lucas voltando para casa. O que tinham feito eles, os negros
que não faziam mal a ninguém? Jesuíno era uma besta de bondade,
Ricardo tão bom! Os outros deviam ser também. O que tinham feito
eles para ir pra Fernando? Seu Lucas não sabia. Queriam de
comer, queriam de vestir, queriam viver. E seu Lucas chegou no
jardim com esta dor no coração. Vira os seus negros no vapor
mandados para Fernando. Murchassem as roseiras, cortassem as
formigas as folhinhas das plantas, secassem os canteiros. Os
seus negrinhos iam pra Fernando. Que tinham feito eles para ir
pra Fernando? Seu Lucas cuidava das plantas. Os trens passavam
roncando pelas grades de seu jardim. Passavam vendedores
cantando as suas vendagens. O homem da vassoura parou para
falar:
- Soube, seu Lucas, o navio saiu hoje cheio de gente. Da minha
rua foi um. Ninguém fez nada não. Foi por causa da greve.
Seu Lucas não disse nada e o homem se foi. O feiticeiro sentiu
uma cousa de fora entrando dentro dele. Era bem diferente da
entrada de Deus em seu corpo. Era uma coisa que nunca tinha
sentido em sua vida. Tinha sofrido muito neste mundo de Deus.
Prisões, cadeia, mas tudo ele agüentava com fé, agüentava
sabendo que era bom para ele sofrer. Agora não. Uma coisa de
fora mexia com o negro velho. O sol queimava as folhas de suas
plantas, as roseiras abriam-se para o sol. Seu Lucas não via o
jardim, a sua cássia-régia gloriosa, as dálias cheias de vida.
Não olhava, não via. Os seus negrinhos iam para Fernando. Num
mar navegando, num mar carregados para o cativeiro. Ficou
pensando. Uma coisa esquisita entrava pelo seu corpo. Que
fizeram os negros? Que fizeram Ricardo e Jesuíno? Mataram?
Roubaram? O governo mandara os infelizes pra Fernando.
Seu Lucas ficou assim até de noite. Era noite de culto, noite de
rezar para o seu Deus.
Os cantos das negras, os passos das negras, no Fundão, tiniam no
terreiro com os instrumentos roncando. Naquela noite o negro
velho vestia as suas vestes sagradas sem saber o que ia fazer.
Todos já estavam prontos para os ofícios, para as rezas
familiares. Seu Lucas de lado tirava as rezas. Era o cantar mais
triste que um homem podia tirar de sua garganta. Os negros
respondiam no mesmo tom. E foi crescendo a mágoa e foi subindo a
queixa para o céu estrelado do Fundão. O sapatear dos negros
estremecia o chão, os instrumentos acompanhavam as queixas, os
lamentos. E com pouco seu Lucas começou a dizer o que não
queria, o que sentia. As palavras do ritual não eram aquelas que
lhe queriam sair da boca. Deus estava no céu. Ogum no céu com S.
Sebastião. Ele queria cantar outra coisa que não aquilo que ele
cantava todas as noites. E os negros na dança iam ouvindo o que
pai Lucas dizia. O mestre falava dos negros que iam pra
Fernando.
- Que fizeram eles? Que fizeram eles?
- Ninguém sabe não.
Que fizeram os negros que iam pra Fernando? A voz de Lucas
vibrava. Todo o seu corpo se estremecia.
- Que fizeram eles que vão pra Fernando?
E os negros respondiam misturando a língua da reza deles com as
perguntas do sacerdote, de braços estendidos para o céu.
- Que fizeram eles? Ninguém sabe não!
E o canto subia, subia com uma força desesperada. As negras
sacudiam os braços para os lados como se sacudissem para fora do
corpo. Os peitos, as carnes se movimentando numa impetuosidade
alucinante. A terra do Fundão estremecia. Pés de doidos, de
furiosos furavam a terra. E seu Lucas com a boca para cima
misturando as mágoas com as suas rezas:
- Que fizeram ele que vão pra Fernando? Ninguém sabe não!
O sacerdote quebrando o ritual para deixar escapar a sua dor.
Seu Lucas era mais um Deus naquela hora. Como um homem qualquer
ele falava pelos pobres que no mar se perdiam. O canto dele
varava a noite, varava o mundo:
- Que fizeram eles que vão pra Fernando? Ninguém sabe não!
(O moleque Ricardo, 1935.)
O ENGENHO DE SEU LULA
Chegou a abolição e os negros do Santa Fé se foram para os
outros engenhos. Ficara somente com seu Lula o boleeiro Macário,
que tinha paixão pelo ofício. Até as negras da cozinha ganharam
o mundo. E o Santa Fé ficou com os partidos no mato, com o negro
Deodato sem gosto para o eito, para a moagem que se aproximava.
Só a muito custo apareceram trabalhadores para os serviços do
campo. Onde encontrar mestre de açúcar, caldeireiros, purgador?
O Santa Rosa acudiu o Santa Fé nas dificuldades, e seu Lula pôde
tirar a sua safra pequena. O povo cercava os negros libertos
para ouvir histórias de torturas.
Fazia-se romance com os sofrimentos das vítimas de Deodato.
Quando o carro do capitão Lula de Holanda passava, corria gente
para ver o monstro, todo bem vestido, com a família cheia de
luxo, que ia para a missa. Um jornal da Paraíba falara em crimes
da escravidão e nomeava o Santa Fé, o Itapuá, como de senhores
algozes. D. Amélia leu o artigo e chorou com as palavras
impiedosas. Não era assim. Tudo aquilo perturbava a vida do
Santa Fé. Ela bem que sentia que o marido vinha mudando de
humores. Raras vezes era aquele Lula de outrora, de olhar
cismarento, o homem de tanta ternura para com sua mulher. Agora
não parecia que a quisesse como antigamente. Via-o no pegadio
com a filha que voltara do colégio de Recife, uma moça feita.
Neném era a cara do pai. Dela não tenha coisa nenhuma. Achava
linda a sua filha. Tinha aqueles cabelos louros, e os olhos
azuis, a pele macia, branca como alfenim. E era uma menina doce,
tão sem gênio que encantava a todo o mundo. Viera do primeiro
ano do colégio das freiras cheia de devoção, com modos de moça.
O pai cercava-a de cuidados, de um zelo que ela, como mãe,
achava até exagerado. Seria a sua filha a moça mais bem educada
da várzea. Iam ao Pilar de carruagem, e reparava como o marido
olhava embevecido para a menina, no banco da frente, vestida
como gente grande. Sabia que o povo falava mal de seu marido.
Via os olhares que sacudiam em cima de todos quando entravam na
igreja. No tempo de seu pai tudo era bem diferente. Viam-se
cercados dos conhecidos do Pilar, das filhas do juiz, das irmãs
do padre, dos amigos do capitão Tomaz. Agora era sair do carro e
entrar na igreja: voltar da igreja para o carro. O que haveria
contra Lula para aquela hostilidade? Seria que fosse inveja?
Lula era homem de sua casa, de certo trato, de orgulho que ela
não apoiava. Era o orgulho do marido. Havia nele uma maneira de
sentir as coisas que talvez desgostasse a gente do Pilar. Lula
falava de sua família de Pernambuco com soberba. Não procurava
discussão com o marido por motivos assim, sem importância.
Deixava que ele ficasse com seu orgulho de raça. Para que
brigar? Família era para Lula coisa sagrada. Fora infeliz com o
pai, sofrera o diabo com a mãe viúva, perseguida pela política.
Lula tinha razão de falar do seu povo com aquela arrogância
toda. Em casa ele só via a filha. Dizia sempre que Neném era a
cara da sua mãe. Nunca vira semelhança igual. Tinha tudo da
família de Recife, dos velhos Chacon, gente que sabia entrar e
sair, gente de trato, sem aquela bruteza dos engenhos. D. Amélia
não contrariava o marido mas sentia-se com aquele falar de
desprezo com os seus. Por que Lula falava assim contra o povo
dos engenhos?
Não era ele parente do povo do seu pai? Até aquele dia não
tivera a menor rusga com o seu marido. O que ele queria que
fizesse, fazia sem protesto. Neném era como se só fosse filha
dele. Lula fazia de pai e de mãe da menina. A princípio achou
bonito aquela dedicação do marido. Tudo que fosse para Neném
teria que ser feito por ele. Agora via que Lula exagerava. Moça
só se entendia bem com a mãe. Seria a mãe quem saberia melhor de
sua precisão, de seus desejos. Lula fazia de Neném toda a razão
de sua vida. Quando a menina estava no colégio escrevia cartas
compridas, longas cartas que ela não sabia o que mandavam dizer.
Que assunto teria o seu marido para escrever tanto a uma filha
moça de colégio? Não lhe falava daquilo para que ele não
desconfiasse. Neném escrevia muito ao pai. Às vezes, Lula lhe
lia as cartas da filha, doutras não lhe mostrava nada.
Perguntava-lhe:
- Então, Lula, o que Neném mandou dizer?
O marido dava uma desculpa qualquer e mudava de assunto. Neném
era uma menina tão cândida, tão doce. Tinha receio que as
cavilações do pai estragassem a menina. Por mais que temesse não
se meteria a contrariar o marido. Lembrava-se da fúria que se
apoderara dele quando o procurou para condenar as ações de
Deodato. Sabia que os negros estavam apanhando sem necessidade e
procurara Lula para lhe falar daquela miséria. Nunca vira uma
pessoa exasperar-se tanto. Era como se ela tivesse se revoltado.
Vira o que sua mãe sofrera com a malquerença de Lula. Pobre de
sua mãe que se dera como uma escrava aos seus deveres. Fora
ingrata com ela. Uma das coisas que mais lhe doíam era pensar na
morte dela, depois daquela noite da discussão com Lula. Tudo por
causa de Neném. Aquele amor de seu marido, aquele cuidado pela
filha, não podia ser boa coisa para a criação da moça. E era
todo o pensamento de D. Amélia. Os negros do engenho se foram,
até as negras de sua mãe não quiseram ficar na cozinha. Os do
Santa Rosa haviam ficado na senzala. Eram amigos do senhor de
engenho. Se o seu pai estivesse vivo, tudo seria como no Santa
Rosa. Via-se D. Amélia cercada de pensamentos que não desejava
que fossem seus. Lula não gostava dos negros. No dia da abolição
os pobres foram para a frente do engenho, doidos de alegria.
Teve medo. O feitor ganhara a catinga, e Lula trouxera para a
sala os clavinotes armados. Os negros cantavam no pátio, com uma
fogueira acesa. Ninguém dormiu naquela noite. A negra Germana
chorava como menina. A cantoria era de coco, era de reza, era
dança, e ao mesmo tempo parecia um bendito de igreja. Lula
trancara Neném no quarto, e de clavinote entre as pernas ficara
sentado no sofá, à espera de inimigo que lhe viesse ao encontro.
A noite se foi, a madrugada apareceu. Na estrada, os negros dos
outros engenhos passavam aos gritos. Gritaram na porta da
casa-grande. Lula permanecera na porta e eles partiram. Era um
cabra do Pilar, com um grupo de negros.
- Capitão, nós estamos atrás de Deodato.
Lula, com a voz trêmula de raiva, não se conteve. Aos gritos
respondeu que fossem para o inferno. O cabra não continuou, mas
quando o capitão Lula de Holanda cessou a raiva ele foi dizendo:
- Capitão, nós estamos aqui para pegar o seu feitor. É ordem do
delegado.
- Ordem de quem? Ordem de quem?
E D. Amélia viu o seu marido pegar do clavinote e apontar para
os negros:
- Cambada de cachorros, saiam de minha porta senão mando fogo.
Os negros se foram de cabeça baixa, e ela viu pela primeira vez
uma coisa horrível. O seu marido empalidecer, procurar o sofá e
cair com o corpo todo se torcendo, como se tudo nele fosse se
partir. Aquilo durou uns minutos, mas foram os instantes piores
da sua vida. A baba branca que saía da boca de Lula, o bater
desesperado dos braços, das pernas, fizeram-lhe medo. Correu
para dentro de casa. E não havia uma viva alma lá dentro. Todas
as negras tinham se ido. A casa vazia. Só Olívia no quarto
falava, falava sem parar. Voltou para a sala e viu que Lula
voltava a si, e teve pena de ver o marido no estado em que
estava.
- Amélia, Amélia, manda Germana preparar um escalda-pé para mim.
E com aquela impressão terrível voltou para a cozinha. Lá havia
um silêncio mortal. A cozinha do Santa Fé, sem uma negra,
despovoada de sua gente. Todos se foram, todas as negras
ganharam o mundo, até a negra Margarida que criara Neném. Não
havia quem quisesse ficar no Santa Fé. O ataque de Lula
obrigara-a a pensar na vida com medo. O marido era um homem
doente. Vivera com ele até aquele dia e nunca acontecera nada
demais. Era um homem de boa saúde. E de repente vira-o naquele
estado de penúria. Sofria de ataques. E quando apareceu com a
bacia com a água quente, Lula parecia que voltara da morte.
Tinha os olhos fundos, a cara de um homem dez anos mais velho.
Ficara ele em silêncio absoluto até o dia seguinte. A noite, na
casa-grande, Olivia resmungava, falava, com aquela agonia de
sempre. Ela estava só, completamente só. Lula deitara-se para
dormir. Começou a ter medo. Era capaz de os negros libertos de
outros engenhos aparecerem ali para atacá-los. As cantorias do
coco enchiam a noite de um batecum que não parava. Agora
percebia bem o canto da negrada, lá para as bandas do Pilar. Os
negros dançavam de alegria, na festa da liberdade. Os negros de
seu engenho, os que foram de seu pai, estavam no coco fazendo o
que bem quisessem.
[...]
O senhor de engenho do Engenho Velho começou a luta contra o
Santa Fé. O Dr. Eduardo do Itambé, moço de fama, advogado de
força, tomara a defesa do seu Lula. Todos os senhores de engenho
da várzea ficaram com ele. O José Paulino do Santa Rosa mandou
chamar o catingueiro e pediu para ele parar com a questão. O
homem, porém, estava com vontade de ir longe. Viu-se então seu
Lula criar alma nova para lutar pela terra. O homem calado,
taciturno, deu para andar pelo Pilar, pelo Itambé, pela Paraíba,
com uma energia que não se esperava dele. Não era um ladrão de
terra. No jornal "O Norte" apareceu um artigo assinado pelo seu
adversário pedindo justiça ao governador. Sentia-se perseguido
pelos senhores de engenho da várzea. Seu Lula revidou com
palavras duras. Falou em Nunes Machado, na família dos homens
sérios, na miséria da injustiça. E a questão correu, com a
diligência e os incidentes normais. Mas tudo ficaria sem nada
demais, se não fosse a agressão que o cabra do Engenho Velho
tentou contra seu Lula no cartório de Manuel Viana. Quando
descera ele do cabriolé e ia falar com o escrivão, o homem
apareceu-lhe para tomar satisfações. Seu Lula virou-lhe as
costas e o homem insistiu. Então trocaram palavras e o homem
levantou a mão para seu Lula, com gritos de injúria. Manuel
Viana evitou a agressão.
E pela várzea correu a história como um crime. Tinham querido
dar no senhor de engenho do Santa Fé. O cel. José Paulino do
Santa Rosa montou a cavalo e foi ao Engenho Velho. E de lá
voltou com a questão morta. No outro dia passariam a escritura
da propriedade. Comprara o Engenho Velho para servir ao inimigo
apertado. Dera pelas terras mais do que elas valiam para que ali
na várzea não existisse um cabra atrevido que ousasse fazer
aquilo que estava fazendo com o Santa Fé.
Seu Lula e a família foram de cabriolé agradecer a intervenção
generosa do vizinho. E nem parecia aquele homem calado, seco,
taciturno. Falou naquela tarde para espanto de sua gente. D.
Amélia e a filha na conversa com as moças da casa-grande, e seu
Lula a falar em voz alta, a contar casos de parentes do Recife,
a falar de Nunes Machado, das lutas do seu pai, no berço das
matas de Jacuípe. Quando voltaram para a casa, já era de noite.
As cajazeiras da estrada pareciam cobertas de cal, de tão
brancas. As rodas do cabriolé enterravam-se na areia fofa e os
cavalos corriam e as campainhas acordavam os pássaros dormiando,
espantavam os calangros. Uma raposa cortou a estrada aos saltos,
e os faróis do carro pareciam olhos que se encandeavam na luz
branca da lua. D. Amélia e Neném falavam das filhas do cel. José
Paulino, da alegria, da bondade de todas elas. Mas seu Lula de
repente sentiu-se coberto de vergonha. Era um medroso, era um
homem sem força, no meio dos outros. O boleeiro desviava o carro
duma poça d’água. Mais para diante era a casa do seleiro Amaro,
homem valente que viera de Goiana, com uma morte nas costas. Seu
Lula passou pela porta do seleiro e pela cabeça atravessou-lhe
uma idéia como um relâmpago. Por que não se servira do velho
Amaro para se defender contra o cabra atrevido? Poderia ter
liquidado o atrevido e não ficar, como ficara, um homem que
precisara da proteção dos outros para resolver uma questão que
era sua só. Não era um senhor de engenho. O carro parou na
porta, e a lua iluminava os números do portão: 1850. Tempo de
fartura, de força. Entraram, e o cheiro de mofo da sala de
visita era como um bafo de morte. O piano, os tapetes, os
quadros na parede, o retrato de olhar triste de seu pai. O
capitão Lula de Holanda pegou no braço da cadeira, e a sua vista
escureceu, um frio de morte varou-lhe o coração. Caiu no chão,
estrebuchando. A mulher e a filha pararam estarrecidas perto
dele, que batia com uma fúria terrível. Era o ataque. D. Amélia
não deixou que Neném se chegasse para perto, mas ela pegou-o,
pôs-lhe a cabeça no seu colo, e as lágrimas corriam de seus
olhos sobre o pai, como morto, parado, agora, como se estivesse
num sono profundo. Na cozinha, D. Amélia esquentou a água para o
escalda-pé do marido. Passara uma tarde tão feliz, e agora Lula
tinha aquele ataque, na presença da filha. D. Olívia falava
muito alto, gritava. A lua entrava pelas telhas de vidro da
casa-grande, a lua que pintava as cajazeiras, que dava ordens em
D. Olívia, que fazia os cachorros uivarem na solidão.
Dois dias depois, seu Lula ainda estava de cama e o cel. José
Paulino passava no Santa Fé para oferecer ao vizinho a patente
de tenente-coronel do batalhão da guarda nacional que o governo
pedira para ele organizar no Pilar.
(Fogo morto, 2ª parte, capítulo 4, 1943.)
SEU LULA DE HOLANDA
O caso de Neném com o promotor crescia para ele cada dia. Uma
desconfiança constante não o deixava descansado. Na tarde em que
viu o rapaz passar pela sua porta, num cavalo muito bonito, com
destino ao Santa Rosa, imaginou que lhe preparasse uma traição
em casa. Neném e Amélia estariam combinadas para qualquer
movimento contra ele. Viu-o sumir-se na estrada e foi ver se a
filha estaria na janela do alpendre do jardim. Lá estava Neném,
debruçada, com os cabelos louros soltos. Seu Lula, quando a viu,
não teve força para andar para a frente, mas gritou-lhe:
- Hein, menina sem-vergonha? Eu bem sabia que tu estavas aí
esperando aquele cachorro, hein?
Neném, estupefata, não teve coragem para uma palavra. Mas D.
Amélia chegou-se para saber o que se passava.
- Tu chegaste aqui, hein? Tudo está combinado.
- Combinado o que, Lula?
- Hein, pensam que me enganam? Vai lá para dentro, Neném.
D. Amélia ficou só com ele. Fez-se um silêncio pesado entre os
dois. Foi o marido quem começou :
- Eu sei de tudo, hein, Amélia? Vocês duas pensam que me
enganam, não é, Amélia? Hein, Amélia?
D. Amélia, mansa, com a voz trêmula:
- Mas Lula, você não está vendo que não há coisa nenhuma? Que
tudo isto é sonho seu?
- Sonho, hein, Amélia ? Ninguém me engana. E com a voz dura:
Mato esta menina e ela não se casa com este cafajeste. Ouviste,
Amélia ?
E saiu para o alpendre onde a tarde amaciava tudo. Era tarde de
junho, de verde pelos matos, de campo coberto de flores. Pela
estrada passava uma tropa de aguardenteiros. Um homem parou para
falar com o Coronel Lula. Era um sujeito de Goiana, velho
conhecido do capitão Tomaz.
- Coronel, tem açúcar sumeno?
Seu Lula fez um esforço tremendo para falar :
- Não tem não, seu Félix. Vendi tudo para o sertão.
Mas o homem queria falar mais.
- Coronel, não tem aqui uma terrinha que me ceda para um mano
meu? É homem trabalhador, Coronel, mas anda muito perseguido lá
em Goiana. Tudo por questão de uma filha a quem fizeram mal a
ela. E o mano teve que fazer um serviço no freguês. Família é o
diabo, meu Coronel.
Seu Lula despertou com aquela história e quis saber de tudo, por
que o homem matara o sujeito.
- Coronel, o tal era casado. E desencabeçou a menina. Ora, um
homem de sentimento não podia fazer outra coisa. Comeu o bicho
na faca. Foi pra rua, mas estão perseguindo ele por causa dum
senhor de engenho que protegia o canalha.
Seu Lula dava o sítio ao irmão do velho Félix. E quando ele se
foi, começou a imaginar em Neném. Não deixaria que a sua filha,
que ele criara com tanto mimo, se casasse com um tipo de rua, um
filho de alfaiate. Não, tudo que estivesse em suas mãos ele
faria para evitar. O pobre irmão de Félix tivera coragem para
liquidar o miserável que desgraçara a filha inocente. Era o que
faria também. Mataria, sim, mataria o atrevido. Estava só, era
doente, não tinha a fortuna de José Paulino, mas saberia
defender a sua filha com a vida, com a sua morte, se preciso
fosse. A casa-grande estava ainda no escuro e a voz de sua
cunhada começava a impotuná-lo. Era um falar rouco, com as
mesmas palavras. Nunca se importava com o que ela dizia dias e
noites seguidas, a falar sem que desse por isto; e no entanto,
agora dera para crescer-lhe aos ouvidos como gritos. Amélia
acendeu o candeeiro da sala de jantar e mosquitos rodeavam a luz
em enxames. A lâmpada do quarto dos santos queimava o azeite da
lamparina de prata. Seu Lula chegou-se para lá e viu a cara
comprida, os braços estendidos, as mãos sangrando de Deus. Olhou
bem para a cara de seu Cristo. Era uma cara que ele gostava de
ver, de sentir a dor que ela exprimia. Deus fora assim na terra,
torturado, surrado, morto pelos infiéis. A casa, no vazio de
todos os seus. Ele só naquela casa sabia que Deus derramara seu
sangue para que o mundo o amasse. Não. Não, ele não deixaria que
a sua filha se perdesse, se entregasse ao camumbembe. Por que
amava a sua filha um miserável daqueles? Que havia nela que a
conduzisse para a degradação? Antes morta, antes no caixão que
nos braços do camumbembe. Ajoelhou-se para rezar. Ali, só no
quarto, com os santos pelas paredes, com a imagem descarnada de
S. Francisco, com o corpo estendido no túmulo de S. Severino,
ele se sentia na maior intimidade com o seu Deus, com a sua
Providência. Rezou até tarde da noite. Uma dormência tomou-lhe a
perna direita. Amélia chamou-o para a ceia, e só com a voz da
mulher lembrou-se que estivera ali mais de duas horas. Começara
a chover forte. As portas da casa-grande estavam fechadas. Saiu
para examinar os ferrolhos, as trancas. Tudo estava muito bem
fechado. Neném não viera para a mesa do chá. Quis que ela
viesse. Mandou que a mulher fosse chamá-la. E quando a viu de
olhos vermelhos de chorar, com a cabeça baixa, imaginou o ódio
que não lhe teria. Era pai, e pai era somente para agüentar as
fraquezas dos filhos. Estava sereno. Deus lhe dera calma, força
para vencer os tumultos de sua alma. Não falou Amélia parecia
com medo de qualquer coisa. O vento batia nas portas, bulindo
com os ferrolhos. Tudo estava muito bem trancado. Então, seu
Lula pôde olhar para a sua filha como uma propriedade sua, que
ninguém tocaria. Uma onda de ternura envolveu-o naquele
instante. Teve vontade de acariciá-la, de tocar nos seus cabelos
louros, de vê-los entre as suas mãos como nos tempos de menina.
Por que não era mais aquela menina que ele punha nos joelhos,
que ele criara como a uma santa? Por que amaria aquele tipo, por
que fugia de sua casa, de seus olhos, de suas mãos? Seria
castigo de Deus? Não podia ser castigo de Deus. Deus era seu
amigo, era todo seu. Olhava para Neném, e via nela a imagem de
Nossa Senhora, a imagem de manto azul, de cabelos compridos,
aquela que não fora tocada pelos homens. Não, Neném não poderia
se entregar a um camumbembe, um pobre diabo. Quando ele se
levantou para ir para o quarto de dormir, lembrou-se da
infância, das noites de chuva, quando ia botá-la na cama, tão
mansa, tão serena, tão do céu naqueles instantes. Não, ele não
permitiria que mãos de homens fossem magoar a sua filha.
[...]
Seu Lula estirou-se no marquesão. Nisto ouviu passos de cavalo
rondando a casa-grande. Acertou bem o ouvido e na calçada do
alpendre batiam cascos de cavalos. De repente lhe veio à cabeça
a idéia de um rapto. Sem dúvida que o promotor haveria combinado
o furto de Neném. Estremeceu com aquela idéia, e quando deu por
si já estava com o velho clavinote. Foi ao quarto da filha e
esta ainda estava vestida, de vela acesa, lendo um livro de
orações. A sua cara devia ser de uma fúria desesperada, porque
Neném se levantou com medo. Não lhe disse nada, mas chamou
Amélia que se recolhera.
- Amélia, hein, Amélia, daqui ela não sai.
A mulher alarmada procurou falar e não pôde. Seu Lula de arma
nas mãos andava de um lado para outro, como se estivesse
acossado, pronto para um ataque de vida ou morte.
- Mato estes cachorros, hein, Amélia, tudo estava preparado.
Na porta da sala de visita parou para escutar numa posição de
caçador que espreita. Ouviram-se muito bem as passadas de um
cavalo.
O miserável pensa que estou dormindo. Mas este desgraçado vai
ver quem sou, hein?
As negras tremiam. D. Amélia correra para o oratório, e Neném
chorava alto, enquanto D. Olívia no quarto chamava pela escrava
que a criara.
- Ó Dorotéia, ó Dorotéia, vem me catar, Dorotéia.
Ouvia bem a voz de D. Amélia, rezando alto.
- Pára Amélia, pára. O desgraçado vai ver.
Aí seu Lula levantou a voz, como se falasse com o inimigo a dois
passos:
- Miserável, sai de minha porta.
A chuva intensa e as passadas do cavalo continuavam na calçada
do alpendre.
Seu Lula gritou outra vez com mais força.
- Eu te mato, miserável.
Fez-se outra vez silêncio. Só a chuva roncava com ventania que
batia nas portas. O cavalo continuava pisando forte na calçada.
D. Amélia chegara-se para perto do marido para contê-lo. Seu
Lula empurrou-a para o lado.
- Eu mato este cachorro.
E num esforço desesperado, chegou-se para a porta, e abriu o
ferrolho de ferro. O cavalo batia no tijolo da calçada. Seu
Lula, com a porta aberta, correu para o alpendre e se ouviu o
disparo rouco do clavinote. Com o tiro houve uma correria para o
terreiro da casa-grande. Pouco depois o boleeiro Macário chegou
espantado. Saíram com uma lamparina e encontraram estendida no
chão, banhada em sangue, uma das bestas da almanjarra que havia
saída do curral e se abrigara no alpendre, com o frio da noite.
Seu Lula estava lívido, em pé, como se tivesse voltado dum
imenso perigo. Não via nada e com o corpo todo estendeu-se no
chão, com o ataque.
(Fogo morto, 2ª parte, capítulo 5, 1943.)
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