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Filho do Cel. João Amado de Faria e de D. Eulália Leal Amado,
com um ano de idade, foi para Ilhéus, onde passou a infância e
aprendeu as primeiras letras. Cursou o secundário no Colégio
Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, em Salvador — cidade que
costumava chamar de Bahia — onde viveu, livre e misturado com o
povo, os anos da adolescência, tomando conhecimento da vida
popular que iria marcar fundamentalmente sua obra de romancista.
Fez os estudos universitários no Rio de Janeiro, na Faculdade de
Direito, pela qual foi bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais
(1935), não tendo, no entanto, jamais exercido a advocacia.
Aos 14 anos, na Bahia, começou a trabalhar em jornais e a
participar da vida literária, sendo um dos fundadores da
"Academia dos Rebeldes", grupo de jovens que, juntamente com os
do "Arco & Flecha" e do "Samba", desempenhou importante papel na
renovação das letras baianas. Comandados por Pinheiro Viegas,
figuraram na "Academia dos Rebeldes", além de Jorge Amado, os
escritores João Cordeiro, Dias da Costa, Alves Ribeiro, Edison
Carneiro, Sosígenes Costa, Válter da Silveira, Áidano do Couto
Ferraz e Clóvis Amorim.
Foi casado com Zélia Gattai e com ela teve dois filhos: João
Jorge, sociólogo e autor de peças para teatro infantil, e Paloma,
psicóloga, casada com o arquiteto Pedro Costa. Foi irmão do
médico neuropediatra Joelson Amado e do escritor James Amado.
Em 1945, foi eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo,
tendo participado da Assembléia Constituinte de 1946 (pelo
Partido Comunista Brasileiro) e da primeira Câmara Federal após
o Estado Novo, sendo responsável por várias leis que
beneficiaram a cultura. Viajou pelo mundo todo. Viveu exilado na
Argentina e no Uruguai (1941-42), em Paris (1948-50) e em Praga
(1951-52).
Escritor profissional, viveu exclusivamente dos direitos
autorais de seus livros. Recebeu no estrangeiro os seguintes
prêmios: Prêmio Internacional Lênin (Moscou, 1951); Prêmio de
Latinidade (Paris, 1971); Prêmio do Instituto
Ítalo-Latino-Americano (Roma, 1976); Prêmio Risit d'Aur (Udine,
Itália, 1984); Prêmio Moinho, Itália (1984); Prêmio Dimitrof de
Literatura, Sofia — Bulgária (1986); Prêmio Pablo Neruda,
Associação de Escritores Soviéticos, Moscou (1989); Prêmio
Mundial Cino Del Duca da Fundação Simone e Cino Del Duca (1990);
e Prêmio Camões (1995).
No Brasil: Prêmio Nacional de Romance do Instituto Nacional do
Livro (1959); Prêmio Graça Aranha (1959); Prêmio Paula Brito
(1959); Prêmio Jabuti (1959 e 1970); Prêmio Luísa Cláudio de
Sousa, do Pen Club do Brasil (1959); Prêmio Carmen Dolores
Barbosa (1959); Troféu Intelectual do Ano (1970); Prêmio
Fernando Chinaglia, Rio de Janeiro (1982); Prêmio Nestlé de
Literatura, São Paulo (1982); Prêmio Brasília de Literatura —
Conjunto de Obras (1982); Prêmio Moinho Santista de Literatura
(1984); prêmio BNB de Literatura (1985).
Recebeu também diversos títulos honoríficos, nacionais e
estrangeiros, entre os quais: Comendador da Ordem Andrés Bello,
Venezuela (1977); Commandeur de l'Ordre des Arts et des Lettres,
da França (1979); Commandeur de la Légion d'Honneur (1984);
Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (1980) e
do Ceará (1981); Doutor Honoris Causa pela Universidade Degli
Studi de Bari, Itália (1980) e pela Universidade de Lumière Lyon
II, França (1987). Grão Mestre da Ordem do Rio Branco (1985) e
Comendador da Ordem do Congresso Nacional, Brasília (1986).
Foi membro correspondente da Academia de Ciências e Letras da
República Democrática da Alemanha; da Academia das Ciências de
Lisboa; da Academia Paulista de Letras; e membro especial da
Academia de Letras da Bahia. Obá do Axê do Opó Afonjá, na Bahia,
onde viveu, cercado de carinho e admiração de todas as classes
sociais e intelectuais.
Exerceu atividades jornalísticas desde bem jovem quando
ingressou como repórter no Diário da Bahia (1927-29), época em
que também escrevia na revista literária baiana A Luva. Depois,
no Sul, atuou sempre na imprensa, tendo sido redator-chefe da
revista carioca Dom Casmurro (1939) e colaborador, no exílio
(1941-42), em periódicos portenhos — La Crítica, Sud e outros.
Retornando à pátria, redigiu a seção "Hora da Guerra", no jornal
O Imparcial (1943-44), em Salvador, e, mudando-se para São
Paulo, dirigiu o diário Hoje (1945). Anos após, participou, no
Rio, da direção do semanário Para Todos (1956-58).
Estreou na literatura em 1930, com a publicação, por uma editora
do Rio, da novela Lenita, escrita em colaboração com Dias da
Costa e Édison Carneiro. Os seus livros, que ao longo de 36 anos
(de 1941 a 1977) foram editados pela Livraria Martins Editora,
de São Paulo, integraram a coleção Obras Ilustradas de Jorge
Amado. Atualmente, as obras de Jorge Amado são editadas pela
Distribuidora Record, do Rio. Publicados em 52 países, seus
livros foram traduzidos para 48 idiomas e dialetos, a saber:
albanês, alemão, árabe, armênio, azerbaijano, búlgaro, catalão,
chinês, coreano, croata, dinamarquês, eslovaco, esloveno,
espanhol, esperanto, estoniano, finlandês, francês, galego,
georgiano, grego, guarani, hebreu, holandês, húngaro, iídiche,
inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, macedônio,
moldávio, mongol, norueguês, persa, polonês, romeno, russo
(também três em braile), sérvio, sueco, tailandês, tcheco,
turco, turcomano, ucraniano e vietnamita.
Teve livros adaptados para o cinema, o teatro, o rádio, a
televisão, bem como para histórias em quadrinhos, não só no
Brasil mas também em Portugal, na França, na Argentina, na
Suécia, na Alemanha, na Polônia, na Tcheco-Eslováquia, na Itália
e nos Estados Unidos.
Obras: O país do carnaval, romance (1931); Cacau, romance
(1933); Suor, romance (1934); Jubiabá, romance (1935); Mar
morto, romance (1936); Capitães de areia, romance (1937); A
estrada do mar, poesia (1938); ABC de Castro Alves, biografia
(1941); O cavaleiro da esperança, biografia (1942); Terras do
sem fim, romance (1943); São Jorge dos Ilhéus, romance (1944);
Bahia de Todos os Santos, guia (1945); Seara vermelha, romance
(1946); O amor do soldado, teatro (1947); O mundo da paz,
viagens (1951); Os subterrâneos da liberdade, romance (1954);
Gabriela, cravo e canela, romance (1958); A morte e a morte de
Quincas Berro d'Água, romance (1961); Os velhos marinheiros ou o
Capitão de longo curso, romance (1961); Os pastores da noite,
romance (1964); Dona Flor e seus dois maridos, romance (1966);
Tenda dos milagres, romance (1969); Teresa Batista cansada de
guerra, romance (1972); O gato Malhado e a andorinha Sinhá,
historieta (1976); Tieta do Agreste, romance (1977); Farda,
fardão, camisola de dormir, romance (1979); Do recente milagre
dos pássaros, conto (1979); O menino grapiúna, memórias (1982);
A bola e o goleiro, literatura infantil (1984); Tocaia grande,
romance (1984); O sumiço da santa, romance (1988); Navegação de
cabotagem, memórias (1992); A descoberta da América pelos
turcos, (1994); O milagre dos pássaros, (1997).
INFÂNCIA
Pouco me recordo de meu pai. Ficamos muito crianças eu e minha
irmã, eu com cinco anos, quando ele morreu. Lembro-me apenas que
minha mãe soluçava, os cabelos caídos sobre o rosto pálido e que
meu tio, vestido de preto, abraçava os presentes com uma cara
hipócrita de tristeza. Chovia muito. E os homens que seguravam o
caixão andavam depressa, sem atender aos soluços de mamãe, que
não queria deixar que levassem o seu marido.
Papai, quando vinha da fábrica, me fazia sentar sobre os seus
joelhos e me ensinava o ABC com a sua bela voz. Era delicado e
incapaz, como diziam, de fazer mal a uma formiga. Brincava com
mamãe como se ainda fossem namorados. Mamãe, muito alta e muito
pálida, as mãos muito finas e muito longas, era de uma beleza
esquisita, quase uma figura de romance. Nervosa, às vezes
chorava sem motivo. Meu pai tomava-a então nos seus braços
fortes e cantava trechos musicais que faziam com que ela
sorrisse. Nunca ralhavam conosco.
Depois que ele morreu, mamãe passou um ano meio alucinada,
jogada para um canto, sem ligar aos filhos, sem ligar às roupas,
fumando e chorando. Tinha ataques por vezes horríveis. E enchia
de gritos dolorosos as noites calmas do meu Sergipe.
Quando após esse ano ela voltou ao estado normal e quis acertar
os negócios de papai, meu tio provou, com uma papelada imensa,
que a fábrica era dele só, pois meu pai — afirmava com o rosto
vermelho e as mãos levantadas num gesto de escândalo — meu pai,
meio louco e meio artista, deixara unicamente dívidas que meu
tio pagaria para não se desmoralizar o nome da família.
Mamãe silenciou, coitada, e nos apertou nos seus braços, pois
nós tremíamos toda a vez que meu tio aparecia com a sua cara
vermelha, a sua barriga cultivada, a sua roupa de brim e aqueles
olhos pequenos e perversos.
Vivia passando as mãos pela barriga. O meu tio... Mais velho que
meu pai dez anos, cedo se tocara para o Rio de Janeiro, onde
levou muito tempo sem dar notícias e sem que se soubesse o que
fazia. Quando os negócios de meu pai estavam prósperos, ele
escreveu a queixar-se da vida, dizendo que queria voltar. E
veio, logo após a carta. Papai deu-lhe sociedade na fábrica.
Veio com a esposa, tia Santa, santa de verdade, pobre mártir
daquele homem estúpido.
Papai vivia inteiramente para nós e para o seu velho piano. Na
fábrica conversava com os operários, ouvia as suas queixas, e
sanava os seus males quanto possível. A verdade é que iam
vivendo em boa harmonia ele e os operários, a fábrica em
relativa prosperidade. Nunca chegamos a ser muito ricos, pois
meu pai, homem avesso a negócios, deixava escapar os melhores
que lhe apareciam. Fora educado na Europa e tivera hábitos de
nômade. Esquadrinhara parte do mundo e amava os objetos velhos e
artísticos, as coisas frágeis e as pessoas débeis, tudo que dava
idéia ou de convalescença ou de fim próximo. Daí talvez a sua
paixão por mamãe. Com a sua magreza pálida de macerada, ela
parecia uma eterna convalescente. Papai beijava as suas mãos
finas devagar, muito de leve, com medo talvez que aquelas mãos
se partissem. E ficavam horas perdidas em longo silêncio de
namorados que se compreendem e se bastam. Não me recordo de
tê-los ouvido fazer projetos.
Nós, eu e minha irmã, éramos como que bonecos para papai e
mamãe.
Quando meu tio chegou mudou tudo. Ele não fora à Europa e se
parecia muito com vovó, que fizera dos dezoito anos de vida em
comum com meu avô uma dessas tantas tragédias anônimas e
horríveis que nascem do casamento da estupidez com a
sensibilidade. Dava nos filhos dos operários, o que não
admirava, porque, como murmuravam pela cidade, ele espancava a
esposa.
Pobre tia Santa! Tão boa, amava tanto as crianças e rezava tanto
que tinha calos nos dedos, provocados pelas contas do rosário.
Morreu, e a doença foi o marido. Meu tio deflorara uma operária
e fora viver com ela publicamente. Santa não resistiu ao
desgosto e morreu com o rosário entre as mãos, pedindo a papai
que não abandonasse o miserável.
A fábrica prosperou muito. Nunca consegui compreender por que o
salário dos operários diminuiu. Papai, fraco por natureza, não
tinha coragem de afastar titio da fábrica e um dia, quando
tocava ao piano um dos seu trechos prediletos, teve uma síncope
e morreu.
[...]
Quando meu pai morreu e após meu tio declarar a nossa miséria,
fomos morar numa casinhola no começo de uma ladeira. Eu fiquei
muito mais perto do proletariado da "Cu com Bunda" do que da
aristocracia da decadente São Cristóvão.
Acostumei-me a jogar futebol com os filhos dos operários. A
bola, pobre bola rudimentar, fazia-se de bexiga de boi cheia de
ar. Tornei-me camarada de um garoto Sinval, rebento único de uma
operária, cujo marido morrera em São Paulo, metido numas
encrencas com a polícia, não sei bem por quê. Sei que os
operários falava dele como de um mártir. E Sinval desancava os
patrões o que mais que podia. Franzino, os ossos quase a
aparecer, possuía no entanto uma voz firme e um olhar agressivo.
Chefiava a gente nos furtos às mangas e cajus dos sítios
vizinhos. E toda vez que meu tio passava, cuspia de lado. Dizia
que apenas completasse dezesseis anos embarcaria para São Paulo,
para lutar como seu pai. Só muito depois é que eu vim
compreender o que significava tudo isso.
Freqüentamos, eu e Elza, a escola. Mamãe fazia rendas e seus
pais ajudavam o nosso sustento. Quando fiz quinze anos fui
trabalhar na fábrica. Eu era então um rapazola forte, troncudo.
O menino anêmico que eu fora se transformara em um adolescente
de músculos rijos treinados em brigas de moleques.
Aparentava muito mais idade do que tinha realmente. Vivera
sempre entre molecotes pobres da cidade, pobre que eu era como
eles. Agora ia ser igual a eles completamente, operário da
fábrica. Sinval não me diria mais com seu sorriso mofador:
— Menino rico...
Cinco anos aturei na fábrica a brutalidade do meu tio. Sinval,
aos dezessete, vendera o que possuía em roupas e móveis e tocara
para as fábricas ou para as fazendas de São Paulo. A primeira e
última notícia que tivemos dele foi dois anos depois. Estava
metido numa greve e esperava ser preso a qualquer momento.
Depois nem uma carta, nem um bilhete, nada. Os operários
afirmavam:
— Seguiu o destino do pai — e cerravam os punhos enraivecidos.
Mas a fábrica apitava e eles se curvavam, magros e silenciosos.
Minhas mãos estavam então calejadas e meus ombros largos.
Esquecera muito do pouco que aprendera na escola, mas em
compensação sentia um certo orgulho da minha situação de
operário. Não trocaria meu trabalho na fiação pelo lugar de
patrão. Meu tio, o dono, estava bem mais velho e mais vermelho e
mais rico. A barriga era o índice da sua prosperidade. À
proporção que meu tio enriquecia ela se avolumava. Estava
enorme, indecente, monstruosa. Poucas fortunas em Sergipe
igualavam nesse tempo à sua. Dava esmolas unicamente ao convento
(onde papava jantares) e ao orfanato. A este ele dava esmolas e
órfãs. Não se podia contar pelos dedos, nem juntando os dos pés,
o número de operárias desencaminhadas por meu tio.
Paixão que tive aos catorze anos por uma rameira gasta e
sifilítica, com a qual iniciei a minha vida sexual. Amor, aos
dezoito, platônico, por uma loura pequena do orfanato que foi
ser freira, e enfim aos vinte, o pensamento de me amigar com a
Margarida, operária como eu. Isso deu maus resultados. Meu tio
andava também de olho na Margarida, que ostentava uns seios
altos e alvos, junto a um rosto de criança travessa. Margarida
um dia me contou que o patrão andava a apalpá-la. E ria, cínica.
Eu acho que foi o seu riso que me fez ir às fuças de meu tio.
Estraguei-lhe a cara hipócrita. Fui despedido.
São Paulo parecia à minha mãe e a Elza o fim do mundo. Por nada
deixariam que eu fosse para lá. Eu comecei a falar em Ilhéus,
terra do cacau e do dinheiro, para onde iam levas e levas de
emigrantes. E como Ilhéus ficava apenas a dois dias de navio de
Aracaju, elas consentiram que eu me jogasse, numa manhã
maravilhosa de luz, na terceira classe do "Murtinho", rumo à
terra do cacau, eldorado em que os operários falavam como da
terra de Canaã.
Mamãe chorava, Elza chorava, quando me abraçaram na tarde em que
segui para Aracaju — tomar o vapor. Eu olhei a velha cidade de
São Cristóvão, o coração cheio de saudade. Tinha certeza de que
não voltaria mais à minha terra.
Os filhos dos operários jogavam futebol com uma bexiga de boi
cheia de ar.
CACAU
No sul da Bahia cacau é o único nome que soa bem. As roças são
belas quando carregadas de frutos amarelos. Todo princípio de
ano os coronéis olham o horizonte e fazem as previsões sobre o
tempo e sobre a safra. E vêem então as empreitadas com
trabalhadores. A empreitada, espécie de contrato para colheita
de uma roça, faz-se em geral com os trabalhadores, que, casados,
possuem mulher e filhos. Eles se obrigam a colher toda uma roça
e podem alugar trabalhadores para ajudá-los. Outros
trabalhadores, aqueles que são sozinhos, ficam no serviço
avulso. Trabalham por dia e trabalham em tudo. Na derruba, na
juntagem no cocho e nas barcaças. Esses formavam uma grande
maioria. Tínhamos três mil e quinhentos por dia de trabalho, mas
nos bons tempos chegaram a pagar cinco mil-réis.
Partíamos pela manhã com as compridas varas, no alto das quais
uma pequena foice brilhava ao sol. E nos internávamos cacauais
adentro para a colheita. Na roça que fora de João Evangelista,
uma das melhores da fazenda, trabalhava um grupo grande. Eu,
Honório, Nilo, Valentim e uns seis mais, colhíamos. Magnólia, a
velha Júlia, Simeão, Rita, João Grilo e outros juntavam e
partiam os cocos. Ficavam aqueles montes de caroços brancos de
onde o mel escorria. Nós da colheita nos afastávamos uns dos
outros e mal trocávamos algumas palavras. Os da juntagem
conversavam e riam. A tropa de cacau mole chegava e enchia os
cacauais. O cacau era levado para o cocho para os três dias de
fermento. Nós tínhamos que dançar sobre os caroços pegajosos e o
mel aderia aos nossos pés. Mel que resistia aos banhos e ao
sabão massa. Depois, livre do mel, o cacau secava ao sol,
estendido nas barcaças. Ali também dançávamos sobre ele e
cantávamos. Os nossos pés ficavam espalhados, os dedos abertos.
No fim de oito dias os caroços de cacau estavam negros e
cheiravam a chocolate. Antônio Barriguinha, então, conduzia
sacos e mais sacos para Pirangi, tropas de quarenta e cinqüenta
burros. A maioria dos alugados e empreiteiros só conhecia do
chocolate aquele cheiro parecido que o cacau tem.
Quando chegavam ao meio-dia (o sol fazia de relógio), nós
parávamos o trabalho e nos reuníamos ao pessoal da juntagem para
a refeição. Comíamos o pedaço de carne seca e o feijão cozido
desde pela manhã e a garrafa de cachaça corria de mão em mão.
Estalava-se a língua, e cuspia-se um cuspe grosso. Ficávamos
conversando sem ligar para as cobras que passavam, produzindo
ruídos estranhos nas folhas secas que tapetavam completamente o
solo. Valentim sabia histórias engraçadas, e contava para a
gente. Velho de mais de setenta anos, trabalhava como poucos e
bebia como ninguém. Interpretava a Bíblia a seu modo,
inteiramente diverso dos católicos e protestantes. Um dia
contou-nos o capítulo de Caim e Abel:
— Vosmecês não sabe? Pois tá nos livros.
— Conte, véio.
— Deus deu de herança e Caim e Abel uma roça de cacau pra eles
dividirem. Caim que era home mau, dividiu a fazenda em três
pedaços. E disse a Abel: esse primeiro pedaço é meu. Esse do
meio meu e seu. O último, meu também. Abel respondeu: não faça
isso meu irmãozinho, que é uma dor do coração... Caim riu: ah! é
uma dor do coração? Pois então tome. Puxou do revólver e — pum —
matou Abel com um tiro só. Isso já foi há muitos anos...
— Caim deve ser avô de Mané Frajelo.
— Anda. A avó de Mané Frajelo era rapariga no Pontal.
— Você sabe, Honório?
— Sei. A mãe morreu de fome quando não pôde mais trepar com home.
O fio nem aí...
— Miserave.
— Mas ele tinha vergonha da mãe.
— Mãe dele...
(Cacau, 1933.)
A CAATINGA
1
Agreste e inóspita estende-se a caatinga. Os arbustos ralos
elevam-se por léguas e léguas no sertão seco e bravio, como um
deserto de espinhos. Cobras e lagartos arrastam-se por entre as
pedras, sob o sol escaldante do meio-dia. São lagartos enormes,
parecem sobrados do princípio do mundo, parados, sem expressão
nos olhos fixos, como se fossem esculturas primitivas. São as
cobras mais venenosas, a cascavel e o jararacuçu, a jararaca e a
coral. Silvam ao bulir dos galhos, ao saltar dos lagartos e a
coral. Silvam ao bulir dos galhos, ao saltar dos lagartos, ao
calor do sol. Os espinhos se cruzam na caatinga, é o
intransponível deserto, o coração inviolável do Nordeste, a
seca, o espinho e o veneno, a carência de tudo, do mais
rudimentar caminho, de qualquer árvore de boa sombra e de sugosa
fruta. Apenas as umburanas se levantam, de quando em quando,
quebrando a monotonia dos arbustos com a sua presença amiga e
acolhedora. No mais são as palmatórias, as favelas, os
mandacarus, os columbis, as quixibas, os croás, os xiquexiques,
as coroas-de-padre, em meio a cuja rispidez surge, como uma
visão de toda beleza, a flor de uma orquídea. Um emaranhado de
espinhos, impossível de transpor. Por léguas e léguas, através
de todo o Nordeste, o deserto da caatinga. Impossível de varar,
sem estradas, sem caminho, sem picadas, sem comida e sem água,
sem sombra e sem regatos. A caatinga nordestina.
E através da caatinga, cortando-a de todos os lados, viaja uma
inumerável multidão de camponeses. São homens jogados fora da
terra pelo latifúndio e pela seca, expulsos de suas casas, sem
trabalho nas fazendas, que descem em busca de São Paulo,
Eldorado daquelas imaginações. Vêm de todas as partes do
Nordeste e na viagem de espantos, cortam a caatinga abrindo
passo pelos espinhos, vencendo as cobras traiçoeiras, vencendo a
sede e a fome, os pés calçados nas alpargatas de couro, as mãos
rasgadas, os rostos feridos, os corações em desespero. São
milhares e milhares se sucedendo sem parar. É uma viagem que há
muito começou e ninguém sabe quando vai terminar porque todos os
anos os colonos que perderam a terra, os trabalhadores
explorados, as vítimas da seca e dos coronéis, juntam seus
trapos, seus filhos e suas últimas forças e iniciam a jornada. E
enquanto eles descem em busca de Juazeiro ou de Montes Claros,
sobem os que voltam, desiludidos, de São Paulo, e é difícil, se
não impossível, descobrir qual a maior miséria, se a dos que
partem ou a dos que voltam. É a fome e a doença, os cadáveres
vão ficando pelo caminho, estrumando a terra da caatinga e mais
viçosos nascem os mandacarus, maiores os espinhos para rasgar
novas carnes dos sertanejos fugidos. Famílias numerosas iniciam
a viagem e quando atingem Pirapora a doença e a fome as reduziu
a menos de metade. Ouvem-se, nessas cidades que bordejam a
caatinga, as mais incríveis histórias, sabe-se das desgraças
mais tremendas, aquelas que nenhum romance poderia conter sem
parecer absurdo. É a viagem que jamais termina, recomeçada
sempre por homens que se assemelham aos que os precederam como a
água de um copo à água de outro copo. São os mesmos rostos de
indefinida cor, os pés gigantescos, de dedos abertos, sobrando
das alpargatas, o cabelo ralo, o corpo magro e resistente. As
mesmas mulheres sem beleza nas faces cansadas. Enchendo o
deserto da caatinga com suas vidas desesperadas, com seus ais de
dor, seu passo abrindo picadas que logo se fecham em espinhos.
Aqui, na caatinga, habitam os cangaceiros. Os soldados da
vingança, os donos do sertão. Não têm paz nem descanso, não têm
quartel nem bivaques, não têm lar nem transporte. Sua casa e seu
quartel, sua cama e sua mesa, são a caatinga para eles
bem-amada. Os soldados da policia que os perseguem não se
atrevem a penetrar por entre os arbustos de espinhos, os pés de
xiquexique e croás. Ao lado das serpentes e dos lagartos, vivem
os cangaceiros na caatinga e também eles, por vezes, liquidam no
tiro das suas repetições os sertanejos que descem e que sobem na
contínua migração.
E aqui surgem, no coração seco da caatinga, os beatos mais
famosos, aqueles que arrastam multidões dramáticas no seu passo,
enchendo o sertão de orações estranhas, de ritos supersticiosos,
anunciando pela boca repleta de profecias o fim do mundo e do
sofrimento dos camponeses. Na caatinga habitaram Lucas de Feira,
Antônio Silvino, Corisco e Lampião, hoje habita Lucas Arvoredo
com seus jagunços. Na caatinga surgiram Antônio Conselheiro e o
beato Lourenço. Do mais distante do deserto surge agora, com as
mesmas alucinadas palavras de profeciais, o beato Estêvão.
Só os imigrantes são os mesmos, os nomes podem mudar, mas são
idênticos rostos, a mesma fome, o mesmo fatalismo, a mesma
decisão no caminhar. Atravessando a caatinga, sobre as pedras,
os espinhos, as cobras, os lagartos, para frente, indo para São
Paulo onde dizem que existe terra de graça e dinheiro farto,
voltando de São Paulo onde não existe nem terra nem dinheiro.
Lá vão eles, são centenas, são milhares, na viagem de espantos.
Durante meses atravessam a caatinga. Os cadáveres vão ficando
pelos caminhos improvisados e nem mesmo eles modificam a
paisagem desolada onde, ao sol causticante, dormem indiferentes
lagartos. Água, só lá embaixo, onde termina a miséria da
caatinga e começa a miséria do rio São Francisco.
***
Na frente iam João Pedro e Agostinho aparando os galhos mais
agressivos dos arbustos. Quem visse a estreiteza do caminho
diria que há muito não passava gente por ali. É que os
espinheiros logo se entrecruzavam, fechando a picada quase
imediatamente depois da passagem dos homens. Havia rastros pelo
chão, muitos pés haviam pousado sobre as pedras e o pó daquela
estrada. Por ali cortavam caminho. Jerônimo, no tempo que
trabalhava de boiadeiro acostumara-se a percorrer todos esses
atalhos da caatinga e os conhecia passo a passo durante grande
extensão. Caminhava logo após o irmão e o filho, tocando o
jumento. As mulheres iam atrás, em fila, porque a picada não
dava para mais de um Dinah que conduzia a criança pequena,
defendia-se com o braço contra os espinhos.
Noca viajava agora num dos caçuás que Jeremias levava sobre a
cangalha. Haviam-no esvaziado e ali Jucundina colocara a menina
doente, sentada, o pé cada vez mais inchado, a febre cada vez
mais alta. Parara de gemer, numa indiferença por tudo, e era
Gertrudes quem conduzia a gata. Nos primeiros dias de febre,
Noca ainda corria ao ver Marisca e gostava de levá-la consigo,
de acariciar seu dorso sedoso, de ouvir os seus miados. Mas, com
o suceder do tempo, foi caindo num torpor que amedrontava
Jucundina. Ao demais, desde a primeira noite de febre, Zefa não
cessara de repetir aquelas palavras como uma praga:
- Vai morrer...
Parecia ter esquecido todos os demais termos do seu pequeno
vocabulário de maldições e ameaças. Reduzira-se a essa previsão
da morte de Noca e a princípio foi intolerável para os viajantes
o constante ressoar daquelas palavras, era um agouro que todos
desejavam afastar. Mas foram se habituando e se convencendo.
Desde a noite em que os gemidos de Noca acordaram Jucundina, a
menina só fizera piorar. Não havia mastruço nem chá que desse
jeito, "a ferida arruinara", como dizia Jerônimo. Dentro de cada
um deles as palavras de Zefa foram se transformando numa certeza
indiscutível: vai morrer. E ficaram à espera de que a hora
chegasse, quando Noca fechasse os olhos e deixasse de sofrer.
Dois dias passaram parados junto a um poço numa agonia diante da
criança doente. E como ela nem melhorasse nem morresse,
resolveram no terceiro dia continuar a viagem pois não podiam
gastar mantimento inutilmente. E agora fazem por não se lembrar
de Noca que vai no caçuá. Apenas Jucundina e Marta chegam de vez
em quando e dão uma espiada no rosto amarelo da doente, de olhos
semicerrados, a respiração arfante.
Zefa repete, não pensando mais sequer em Noca, maquinalmente, as
palavras agourentas. E os demais, depois de todos esses dias de
espera, já estão, cada um para si, achando que era melhor que
ela morresse logo porque está atrasando a viagem, têm que andar
no passo mais lento, o sofrimento se arrasta e a comida se
acaba.
***
E naquele dia não houve água em todo o percurso. O sol
escaldava, as pedras da estrada mais pareciam brasas acendidas,
as cobras moviam-se entre os arbustos, João Pedro matou uma
cascavel com o seu bordão e Tonho apareceu correndo, branco de
susto, certa hora, porque encontrara um jararacuçu na estrada.
Andavam com cuidado e a sede ia aumentando. A pouca água que
levavam, um moringue pela metade, Jucundina a reservara toda
para Noca.
Em determinado momento foi necessário colocar Tonho em cima da
cangalha. O menino já não agüentava andar. E a marcha se fez
mais vagarosa, os olhos de Noca mais fechados, e o cansaço de
todos cada vez maior.
Pelas três horas da tarde Dinah arriou:
- Não agüento mais...
Pararam todos, João Pedro e Agostinho baixaram os facões.
Nenhuma árvore nas proximidades, nenhuma casa à vista, nem uma
clareira, nem um descampado. Somente a caatinga, agressiva e
inóspita. Até mesmo Zefa, a quem o delírio sustentava, se deixou
sentar e pediu de beber. Os homens se espalharam em busca de
água.
Agostinho aproximou-se do jumento, olhou a sobrinha no caçuá:
- Não passa dessa noite...
E dizia com um alívio na voz.
(Seara vermelha, 1946.)
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