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Era filho de lavradores de Trás-os-Montes, norte de Portugal, o
pequeno comerciante Bonifácio de Carvalho e Maria Cândido de
Carvalho, que se fixaram em Campos de Goitacases. Aos oito anos,
por doença do pai, veio morar algum tempo no Rio de Janeiro,
quando trabalhou, como estafeta, na Exposição Internacional de
22. Desses tempos fabulosos da história do mundo, os alegres
anos 20, o menino guardou lembranças inesquecíveis. Logo voltou
a Campos, onde continuou a estudar em escolas públicas. Nas
férias trabalhava como ajudante de farmacêutico, cobrador de uma
firma de aguardente e trabalhador de uma refinação de açúcar.
Ao anunciar-se a Revolução de 30, José Cândido trocou o comércio
pelo jornal. Iniciou a atividade de jornalista na revisão de O
Liberal. Entre 1930 e 1939, exerceu funções de redator e
colaborador em diversos periódicos de Campos, como a Folha do
Comércio, que se honrava com um dos jornalistas mais cintilantes
de sua geração, R. Magalhães Júnior, O Dia, onde passou a
comentar a política internacional, e ainda a Gazeta do Povo e o
Monitor Campista. Admirador de Rachel de Queiroz e José Lins do
Rego, começou a escrever, em 1936, o romance Olha para o céu,
Frederico!, publicado em 1939, pela Vecchi, na coleção "Novos
Autores Brasileiros". Concluiu seus preparatórios no Liceu de
Humanidades de Campos e veio conquistar o diploma de bacharel de
Direito, em 1937, pela Faculdade em Direito do Rio de Janeiro.
Passou a morar no Rio, em Santa Teresa, entrando para a redação
de A Noite, um jornal de quatro edições diárias. Como
funcionário público, conseguiu um cargo de redator no
Departamento Nacional do Café, mas ali ficou por pouco tempo. Em
1942, Amaral Peixoto, então interventor no Estado do Rio,
convidou-o para trabalhar em Niterói, onde vai dirigir O Estado,
um dos grandes diários fluminenses, e onde passa a residir. Com
o desaparecimento de A Noite, em 1957, vai chefiar o copidesque
de O Cruzeiro e dirigir, substituindo Odylo Costa, filho, a
edição internacional dessa importante revista.
Somente 25 anos depois de ter publicado o primeiro romance, José
Cândido publica, em 1964, pela Empresa Editora de O Cruzeiro, o
romance O coronel e o lobisomem, uma das obras-primas da ficção
brasileira, que teve imediatamente grande sucesso. A segunda
edição saiu também pela empresa de O Cruzeiro. A partir de 1970,
a Editora José Olympio passou a reeditar o romance, que em 1996
atingiu a 41a edição. Não demorou a ser publicado também em
Portugal e ser traduzido para o francês e o espanhol. Obteve o
Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Coelho
Neto, da Academia Brasileira, e o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa,
do PEN Clube do Brasil.
Em 1970, José Cândido de Carvalho foi diretor da Rádio
Roquette-Pinto, onde se manteve até 74, quando assumiu a direção
do Serviço de Radiodifusão Educativa do MEC. Em 75, foi eleito
presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio de
Janeiro. De 1976 a 1981, foi presidente da Fundação Nacional de
Arte (Funarte), cargo para o qual foi convidado por uma de suas
maiores admirações políticas, o ministro Nei Braga. De 1982 a
1983 foi presidente do Instituto Municipal de Cultura do Rio de
Janeiro (Rioarte). Estava escrevendo um novo romance, O rei
Baltazar, que ficou inacabado.
Além do grande romance que o inscreveu na literatura brasileira
como um autor singular, José Cândido publicou dois livros de
"contados, astuciados, sucedidos e acontecidos do povinho do
Brasil" e reuniu, em Ninguém mata o arco-íris, uma série de
retratos jornalísticos. Sua obra de ficcionista é das mais
originais, graças à linguagem pitoresca e aos personagens, ora
picarescos, ora populares extraídos do "povinho do Brasil".
Obras: Olha para o céu, Frederico!, romance (1939); O coronel e
o lobisomem, romance (1964); Porque Lulu Bergantim não
atravessou o Rubicon, (1970); Um ninho de mafagafos cheio de
mafagafinhos (1972); Ninguém mata o arco-íris, crônicas (1972);
Manequinho e o anjo de procissão, contos (1974); Notas de viagem
ao Rio Negro (1983).
O CORONEL
1
A bem dizer, sou Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de
patente, do que tenho honra e faço alarde. Herdei do meu avô
Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto do
mais fino. Leio no corrente da vista e até uns latins arranhei
em tempos verdes de infância, com uns padres-mestres a dez
tostões por mês. Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei
no assoalho do Foro mais de um doutor formado. Mas disso não
faço glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no
trato, de palavra educada. Já morreu o antigamente em que
Ponciano mandava saber nos ermos se havia um caso de lobisomem a
sanar ou pronta justiça a ministrar. Só de uma regalia não abri
mão nesses anos todos de pasto e vento: a de falar alto, sem
freio nos dentes, sem medir consideração, seja em compartimento
do governo, seja em sala de desembargador. Trato as partes no
macio, em jeito de moça. Se não recebo cortesia de igual porte,
abro o peito:
- Seu filho de égua, que pensa que é?
Nos currais do Sobradinho, no debaixo do capotão de meu avô,
passei os anos de pequenice, que pai e mãe perdi no gosto do
primeiro leite. Como fosse dado a fazer garatujações e
desabusado de boca, lá num inverno dos antigos, Simeão coçou a
cabeça e estipulou que o neto devia ser doutor de lei:
- Esse menino tem todo o sintoma do povo da política. É
invencioneiro e linguarudo.
Então, para aprimorar tais inclinações de nascença, caí nas
garras da prima Sinhá Azeredo, parenta encalhada na prateleira,
uma vez que casamento não achou por ser magricela e devota.
Morava em nação de chuva - um oco de coruja chamado Sossego,
onde só dava presença bicho penado. De noite, era aquela
algazarra de lobisomem, pio de coruja, asa de caburé, fora
outros atrasos dos ermos. Metida nos livros de devoção, Sinhá
Azeredo não tinha outra aptidão do que ensinar ao parente
sabedoria ligada aos anjos do céu. Saía da prima um cheiro de
vela, de bafo de coisa de oratório. De tardinha, sumia no quarto
das devoções enquanto ficava na soletração da cartilha. Sinhá
conhecia toda a raça de ventos e para cortar as maldades e
miasmas deles possuía reza da maior força. Por mal dos meus
pecados, o que a prima mais apreciava era conversa de
assombração, de meninos desbatizados que morriam sem o benefício
da água benta ou de herege esquentado em fogueira de frade.
Lambia os beiços de cera e ameaçava:
- Criança sem religião acaba no fogo dos hereges.
Meus dias no Sossego findaram quando fui pegado em delito de
sem-vergonhismo em campo de pitangueiras. A pardavasquinha dessa
intimidade de mato ganhou dúzia e meia de bolos e eu
recriminação de fazer um frade de pedra verter lágrima. Simeão,
sujeito severoso, veio do Sobradinho aquilatar o grau de
safadeza do neto. Levei solavanco de orelha, fui comparado aos
cachorros dos currais e por dois dias bem contados fiquei em
galé de quarto escuro. No rabo dessa justiça, meu avô deliberou
que eu devia tomar rumo da cidade:
- Na mão dos padres eu corto os deboches desse desmazelado.
Atrás da saia da prima Sinhá, lá uma tarde, viajei para o meu
novo viver. Como era tempo de chuva, dormi no balanço do trem.
Quando dei conta do andado, já a cidade apresentava suas casas e
um povinho apressado corria no debaixo dos guarda-chuvas. O
homenzinho das passagens, aparecido na porta do vagão, avisou:
- Campos! Campos dos Goitacases!
Anos passei no bem-bom da Rua da Jaca, em chácara de fruteira e
casa avarandada. A prima na devoção dos oratórios e eu na
vadiagem, com enganos de que esmerava no aprendizado das letras
e o que menos Ponciano fazia era aparecer na escola dos frades.
Passava semanas em velhacaria de pular muro atrás dos
bicos-de-lacres e coleirinhos. O avô Simeão, enterrado no
sem-fim dos pastos, não podia acompanhar as capetagens do neto.
De mês em mês, assim mesmo na época das águas, é que pisava
calçada na Rua da Jaca. Sem tirar a espora, vinha saber dos meus
adiantamentos no ensino dos padres. Mostrava a Simeão as
obrigações de leitura. Ele, quebrado da vista, balangava a
cabeça e dizia folheando a livrarada:
- Muita instrução, muita instrução.
[...]
2
Então, anos de serenata e farreagem poliram a patente de
Ponciano de Azeredo Furtado. Foi ocasião em que montei barba na
cara. Em viagem especial cheguei ao Sobradinho para requerer
consentimento do meu avô. Refestelado na cadeira de couro, o
velho despachou o pedido do neto acompanhado de conselho:
- Saiba o capitãozinho que duas coisas de principal um homem
deve ter. Barba escorrida e voz grossa.
Em verdade o que firmou esse meu pertence no queixo não foi a
licença de Simeão. Foi Dadá Pereira, uma dona de pensão de moças
desencaminhadas, que perdia hora sobre hora no cafuné da minha
barba. Era babada em gozo que ela dizia:
- Homem que é homem deve ser como o capitão.
Sabia eu também ser piedoso de São Jorge, Santo Antônio e São
José. Em tarde de procissão era o primeiro a aparecer, todo
barba brilhosa, para puxar andor. De peito estofado, passava
pela Rua do Sacramento cantando em voz cheia, que com
dificuldade cabia na garganta, as cantorias dos padres. O povo,
sempre lembrado da façanha do circo de cavalinhos, cochichava em
fala admirada:
- Lá nos paus dos andores vai Ponciano de Azeredo Furtado. É
aquele barbudo de cabelo de fogo.
Saía dos compromissos das procissões e de imediato caía nas
conversas de café e bilhar. O que valia ao neto de Simeão era a
bondade de Francisquinha, que em hora de Deus meu avô arranjou
para comandar a casa da Rua da Jaca. A velha ameaçava delatar o
que eu fazia até madrugada da estrela-d'alva. Sabidão, eu
desgastava as birras de Francisquinha em galhofismo:
- Diz nada. Amanhã boto em seu pescoço prenda de ouro.
Mas foi de supetão que dei baixa nesse viver descuidoso. Uma
noite, estando na pagodeira, de serenata armada em varanda de
moça donzela, apareceu, esbaforido, portador do Sobradinho.
Padre Malaquias de Azevedo, confessor de Simeão, mandava dizer,
com palavras de muito pesar, que Deus Nosso Senhor havia posto a
mão misericordiosa na doença de meu avô - curou o velho de uma
vez dos seus incômodos do baço. O recadeiro, fusquinha
bem-falante, ainda ajuntou seu pesar:
- Morte muito sentida, sim senhor, de verter muita lágrima, sim
senhor.
Em pé-de-vento passei pela Rua da Jaca para vestir roupa de
enterro. Cortava o coração mais de pedra ver Francisquinha, no
meio de suas agregadas, carpir a morte de Simeão. Ficou pregada
na cadeira do falecido alisando o espaldar como se ele lá
estivesse em descanso de domingo. Não agüentei - tive um repuxo
no peito e desarvorado deixei atrás o choro da velha, com
promessa de voltar de imediato.
- Logo acabada a piedade do sétimo dia, no mais tardar.
No trem, em canto sozinho, chamei o morto às falas, coisa que
não fazia nunca. Tanto tempo junto dele e tão distanciado de sua
pessoa. Nunca que eu apareci no Sobradinho ou em Mata-Cavalo
para um ajutório de neto, para misturar meus gritos de goela
nova nas suas ordens de velho. O que consolava era saber que
Simeão, nem por sombra, queria que eu aparecesse nos pastos,
medroso que Ponciano praticasse uma devastação nos compromissos
das negrinhas dos currais. Ele não conhecia o capitão. Do que eu
mais apreciava e fazia alarde era da convivência com os
rabos-de-saia dos palcos. Conhecido como eu nos teatros e
Moulin-Rouge não existia outro igual. As moças das ribaltas,
vendo minha despresença, perguntavam de fogareiro aceso:
- Onde anda Ponciano Barbaça?
Logo corria moleque atrás da minha botina. Simeão, desterrado
nos ermos, longe estava de conhecer o progresso do neto nos
terrenos das velhacarias. Só às vezes, num repente da suspeita,
virando a barba como eu também gosto de fazer, é que inquiria em
modos de sabido:
- Vosmecê não acha que está antigo para essas labutas de letras?
Convencia Simeão que estudo de saber era assim mesmo, pedia
tempo. Tomé de Azeredo Furtado, meu falecido tio, não recebeu
canudo de doutor da Justiça na idade dos quarenta e tantos?
Simeão resmungava, de novo retorcia a barba. E mais depois, no
canto da madrugada, partia para sua nação de boi. Saía o velho
por uma porta e eu por outra, que mais de uma janela de moça
facilitada esperava meu pulo. No rabo das despedidas, Simeão
sempre estipulava:
- Já está em ano de vosmecê tomar responsabilidade nos pastos.
Ia eu, no banco de viagem, relembrando esses e outros
acontecimentos, enquanto o trem, por fora da janela, puxava os
lonjais. Na curva de Santo Amaro a máquina apitou. Larguei no
meio a conversa de meu avô, pois já via o povo do Sobradinho na
estação. O padre, feição tristosa, caiu em meus braços:
- Que pesar, que pesar.
De noite, depois do enterro, que foi cerimônia de ser vista e
ouvida, jantei tristeza na mesa larga do Sobradinho. E de pé, no
fundo da sala, recebi o pesar dos currais. A morte do velho
desencavou gente que eu nunca vi e até além da meia-noite a
varanda foi rebuliço de espora. Na saída da última visita, o
Padre Malaquias requisitou negra de lava-pé. Deram ao reverendo
a bacia de prata dos Azeredos Furtados, como cabia em tal
ocasião. O batina mergulhou suspiroso os dedos na água e nesse
bem-estar entrou em sono largado. Fiquei de sozinho e outra vez
vieram as relembranças do meu avô. Como fosse noite adentrada e
uma coruja viesse fazer agouro na varanda, fiz recolher o
reverendo ao sossego dos lençóis e de minha vez caí no
travesseiro. Fui dormir em tristeza e esse acabrunhamento
acompanhou meus passos o resto da semana. Rezada missa de sétimo
dia, deliberei dar balanço nos deixados de Simeão. Era riqueza
de avantajado porte, não só em terras como em benfeitorias e
dinheiros. Diante de tanta escritura lavrada e papéis de valia,
torci a barba e medi sala em passo militar. A verdade é que
Ponciano de Azeredo Furtado era um sujeito enricado. Pensei com
meus botões:
- O capitão nasceu de vento em popa.
No arremate do inventário, que não teve embargo da Justiça, por
ser eu herdeiro de herança limpa, mandei levantar carneiro de
muita religião em comemorativo de meu avô. Fiz questão de
municiar o túmulo dele com dois anjos de asa larga, coisa
vistosa, de engrossar a fama do cemitério de Santo Amaro. O
tabelião Timóteo da Cunha, que cuidou da papelada de cartório,
quando a obra ficou pronta teve esta admiração:
- Empombada!
Acabaram meus dias de vadiagem. Tomei respeito, não só pela
herança de boi e pasto, como pela patente de coronel que em
seguimento recebi. Veio comitiva garbosa trazer a regalia. A
casa da Rua da Jaca, do jardim ao pé de abricó, ficou pejada de
gente. Com tanta glória à disposição, pensei em tomar estado, o
que era do muito empenho do Padre Malaquias. Além do mais,
andava eu na casa dos trinta e tantos anos e meu novo viver
pedia costela. Uma prima, filha do sepultado tio Tomé de
Azeredo, ficou toda ensabonetada para meu lado. Morava longe,
mas ao sentir cheiro de casamento voou em trem de ferro e veio
desabar na Rua da Jaca. Não chegou a entrar em cogitação. Queria
moça de bacia larga, onde eu metesse raiz de sujeito respeitoso,
com criação de muitos meninos. A prima não servia - um bambu
vestido era mais encorpado do que ela. Juca Azeredo, meu parente
do Morro do Coco, estando em passadio de semana comigo,
desaconselhou:
- Aquilo é tábua de passar roupa. Moça para o primo tem que ter
coxão fornido, capaz de agüentar os repuxos.
Concordei. A prima, desconsolada de ver meu desinteresse, pronto
voltou para a sua vida murcha. Nessa ocasião, fechei as portas
da Rua da Jaca, com justificativa de que o Sobradinho precisava
de mim:
- Melhor engorda do boi é o olho do dono.
No leme da casa do sertão joguei Dona Francisquinha, que gostou
de ver lacrada a chácara, uma vez que nos currais seu reinado
era mais vistoso, bem aparelhado de negras e mulatas, fora a
miudagem dos moleques. Quando os negócios pediam que eu ficasse
na cidade, tomava compartimento em qualquer estalagem do Largo
da Quitanda. Serenados os trabalhos da mudança, estudei, ajudado
pelo Dr. Pernambuco Nogueira, uma raposa da Justiça, as heranças
de Simeão. Na companhia de quatro campeiros percorri as posses
todas, da cauda ao pescoço, sem deixar de vasculhar o mais
desimportante pé de pau. Nos currais de Mata-Cavalo gastei
semana e meia em vistoria. Conferi as medidas das escrituras e
vi que em muita parte, pela velhice de meu avô, vizinhos de mau
caráter tinham adentrado mourões e aramados em prejuízo do que
era meu. Dei a conhecer aos ladrões o seu abuso. Não agi na
força dos rompantes, em desmandos e desavenças. Remeti a cada um
bilhete educado. Antão Pereira, boiadeiro do Sobradinho, gago de
nascença, achou graça do meu proceder mimoso. Na sua língua
tropeçada, avisou que povo de pasto nunca que ia entender carta
rendilhada, com o qual parecer concordou Saturnino Barba de
Gato, outro campeiro meu dos tempos de Simeão:
- Bom entendimento tem o compadre Pereira. Ladrão de pasto não
sabe lidar com letra de educação.
(O coronel e o lobisomem, 1964.)
UM QUILO DE ESPÍRITO PÚBLICO, POR FAVOR!
Calixto Peixoto, funcionário de pequeno porte de Bela Cruz do
Cariré, depois de devastar duas garrafas da famosa Vai em Frente
que é Mole, desandou em confidências. Com o ouvido do seu
compadre Gervão de Sousa às ordens, passou a dizer:
- Não tem, Gervão velho, coisa mais calhada para abrir as
verdades da gente do que uma talagada de cachaça. O sujeito fica
liberado de tudo. Sem aguardente na entranha não passo de
Peixotinho dos Impostos, mais serviçal que um capacho. Nas
minhas águas, sou outra prosopopéia. Sou Peixotão das Mulatas,
Doutor Calixto de Sousa e Athayde com ipsilone! Com ipsilone,
compadre Gervão! Que diz na cara do prefeito Zacarias do Monte
que ele não passa de um ratão velho, que só não leva a pedra
fundamental da Prefeitura para casa porque está muito enterrada
no barro. Sem calibrina, no meu natural mentiroso, digo o
contrário, sou serviçal de tudo que é graúdo da terra. Até
artigo de louvor andei derramando nas colunas da Comarca quando
esse animal de tração que é Zacarias do Monte inaugurou quarenta
anos de furtos e roubos na jurisdição de Bela Cruz do Cariré.
Lhe digo uma coisa, compadre Gervão, se baixar nesse ninho de
Ali-Babá uma inquirição do governo, não fica ninguém do lado de
fora. Entra todo mundo. Vai ser um processo de cem metros. Vão
ter que mandar vir reforço de papel até do estrangeiro, que o
nacional não vai dar. E eu entro também, compadre, porque nas
horas vagas, na hora em que não estou bebido de gambá, meto a
mão nos impostos, que não sou besta. Já trabalhei muito pelo
processo do município. O que eu quero agora, amigo Gervão, é
tirar proveito do meu reconhecido espírito público. Fazer como o
compadre muito bem fez, quando era gerente da falecida Fábrica
de Tecidos União. Dilapidou a firma de alto a baixo, de não
deixar uma chita para ninguém. Viva o compadre Gervão!
PORQUE LULU BERGANTIM NÃO ATRAVESSOU O RUBICON
Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por
que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu,
expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém
entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de
Curralzinho Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda
Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim
pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de
Curralzinho sacou do paletó na vista de todo o mundo, arregaçou
as mangas e disse:
- Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de
jenipapo. Agora é trabalhar!
E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e
caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo,
de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um
prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de
Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no
instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de
limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no
pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora
Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E
assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram
novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de
brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando
"O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor" que o
ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição.
Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha
mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi
andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na
sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:
- Ou vai ou racha!
E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:
- Agora a gente vai fazer serviço de tatu!
O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos
de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano
Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o
Sentinela Municipal, do "salutar benefício do chamado precioso
líquido". Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista
prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram
correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em
forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no
meio do trabalho de fundição, quando Lulu Bergantim, de repente,
resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com
pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez
discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa
Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:
- Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama
avisativo de minha chegada.
Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram
buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do
Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de
Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de
Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o
braço e afirmou:
- Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!
Lulu foi embora embarcado em nunca mais. Sua estátua ficou no
melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa,
de enxada na mão. Para sempre Lulu Bergantim!
(Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, 1971.)
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