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Wagner Lemos - Fale um pouco sobre suas origens e de como
começou o fazer literário em sua vida e como foi a trajetória até
chegar à arquitetura, comunicação e literatura?
Lilian Fontes - Eu nasci no Rio de Janeiro onde vivo até
hoje. Minha paixão por literatura vem desde a infância. Meu avô,
Amando Fontes, era escritor e seus amigos costumavam freqüentar uma
casa que tínhamos na serra onde eu passava as férias. Manuel
Bandeira vivia lá e sua poesia me entrava pelos poros, algumas eu
recitava de cor. Então, minha primeira relação foi com a poesia.
Olhava para os poetas e sentia um certo fascínio por estes “seres”,
achava que eles sabiam algo além. E daí, meu interesse pela leitura
foi aumentando. Na adolescência eu lia de tudo, desde livrinhos
românticos de banca de revistas até filosofia e os clássicos. E a
leitura foi me estimulando a me fazer criar as minhas histórias. Meu
primeiro conto eu escrevi com 16 anos.
Na época de ingressar na universidade, pensei em fazer letras, mas
acabei me dirigindo para arquitetura, pois tinha uma certa
facilidade para desenho, gostava muito de artes, de matemática.
Nesta época, havia muita insegurança quanto ao meu trabalho em
literatura, por isso fiz esta opção. Mas meu caminho era mesmo as
letras, não conseguia parar de me dedicar aos livros, e, em 1981,
quase terminando a faculdade de arquitetura, decretei que eu tinha
que encarar mais seriamente esta minha necessidade. Comecei a ler
sobre teoria literária e a formular meu livro de contos, Escrita
Fina, que só veio a ser publicado em 1991.
Bem, portanto, a minha formação universitária foi em arquitetura ,
profissão que hoje exerço esporadicamente, devido aos outros
caminhos que fui abrindo na minha vida. Em 1997, já com dois livros
publicados, terminei meu curso de mestrado em Comunicação e Cultura,
que busquei justamente por poder ampliar minhas áreas de atuação.
Era um curso transdisciplinar que me permitiu fazer uma tese na área
de literatura.
Atualmente, trabalho como subeditora de um jornal de artes e faço
alguns projetos de arquitetura. No Brasil, são poucos os escritores
que conseguem viver só de livros. As edições geralmente são
pequenas, o retorno financeiro quase ínfimo. Portanto, tenho de
dividir meu tempo de dedicação ao meu trabalho literário com outros
trabalhos que me dêem retorno financeiro mais imediato. Além disso,
tenho duas filhas que me ensinaram a escrever nas mais diversas
situações, ou seja, sentada no chão de seu quarto enquanto as vejo
brincar. Quando estou para finalizar um livro, costumo acordar às
5:30 da manhã, hora em que a casa ainda está tranqüila.
Wagner Lemos - Quais os seus gostos literários? Que autores
prefere? Quais a influenciam de forma mais incisiva?
Lilian Fontes
- Difícil precisar os autores que me
influenciaram, pois sempre li de tudo: ficção e todas as suas
vertentes, ensaios e muita poesia. Tive uma brilhante professora de
literatura no meu ginásio, a Marta de Senna que me deu o passeio
pelos escritores da nossa grande literatura como: Machado de Assis,
José Lins do Rego, Érico Veríssimo, José de Alencar, Clarice
Lispector, Raquel de Queiroz, etc. Aos 13 anos conheci pessoalmente
Rubem Fonseca por intermédio de uma amiga e comecei a lê-lo. Nessa
época eu também era apaixonada por Fernando Pessoa que me fez ter um
maior entendimento da vida.
Aos 24 anos resolvi me dedicar aos grandes clássicos: Proust,
Balzac, Dostoiévski, James Joyce, Cervantes e outros. Portanto, é
difícil traçar uma influência. Nos contos, um que admiro
profundamente é o Julio Cortazar, mas aí tem o Rubem Fonseca, Lygia
Fagundes Telles, enfim...
Wagner Lemos - Fale um pouco da experiência de trabalhar com
Rubem Fonseca, e trace detalhes de como foi esse projeto.
Lilian Fontes - Trabalhar com Rubem Fonseca foi extremamente
importante por eu ter captado na prática o ofício árduo de um
escritor. Ele me ensinou que não basta ter talento é preciso ter
garra para trabalhar e muito.
Wagner Lemos - Filosofia e Cosmologia... como entraram em sua
vida? Mais: você as utiliza de alguma forma na sua produção
literária? O que esses estudos mudaram em você?
Lilian Fontes - A filosofia faz entender melhor os
acontecimentos da vida, os comportamentos, as noções sobre
liberdade, criação. Cosmologia foi uma forma de ampliar este
conhecimento, ir além. Como eles entram na minha criação? Bem, estes
estudos modificaram o meu olhar sobre o mundo, sobre a existência
humana e assim vai fluindo pela minha literatura.
Wagner Lemos - Seu romance Dia Santo tem um enredo
interessantíssimo. Como surgiu a idéia dele?
Lilian Fontes - O romance Santo Dia se passa num dia, dentro
de um único lugar. Não foi um projeto definido anteriormente. Ele
começou a partir da primeira frase e aí foi me levando. Eu tinha
acabado meu mestrado onde se estudou muito a interferência das novas
tecnologias no nosso modo de ser, daí o protagonista ser um “ser
virtual”. Nos meus romances eu nunca sei como vou terminar. Aquela
história de que o personagem sai andando com pernas próprias
realmente acontece comigo.
O que normalmente ocorre, é que primeiro surge o tema sobre o qual
eu quero criar uma história. Dependendo da abordagem que quero dar,
desenvolverei uma narrativa curta, o conto, ou uma narrativa longa,
no caso, a novela ou o romance. Depois, entra a forma de narrar:
esta é que me dá mais trabalho. Até eu engrenar no jeito, no tipo de
escrita, demora. Minha preocupação maior é com o uso da palavra. Eu
sempre fui ligada em poesia. Embora eu não me pretenda poeta e sim
ficcionista, a poesia sempre me acompanha e eu acho que através dela
é que aprendi a verdadeira força da palavra, do uso da pontuação, da
língua. É curioso, às vezes ocorre de eu começar uma estória por uma
frase que vem e daí surgem os personagens. É como dizia Clarice
Lispector ao explicar que o seu material básico era a palavra e ela
dizia “o que vem à tona já vem com ou através da palavra ou não
existe”.
Wagner Lemos - Qual o projeto que está colocando em prática
atualmente?
Lilian Fontes - No momento escrevo um romance um tanto
trabalhoso. Tenho um livro de contos pronto, mas não sei se o
publicarei agora.
Wagner Lemos - Como gostaria de ser lembrada no futuro?
Lilian Fontes - Como escritora.
Wagner Lemos - Lilian por Lilian...
Lilian Fontes - Lilian por Lilian? Difícil responder. Sou uma
pessoa muito emotiva, sinto as coisas profundamente. Nisso tem um
lado belo e um lado de sofrimento. E é a escrita que me salva. |