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Eles
nos mostraram a vinculação dos folhetos de feira, a partir do século
XVII, com as "folhas volantes" ou "folhas soltas", em Portugal, cuja
venda era privilégio de cegos, conforme informava Téofilo Braga.
Na Espanha, o mesmo tipo de literatura popular era chamado de "pliegos
suletos", denominação que passou também à América Latina, ao lado de
"hojas" e "corridos". Tal denominação, como se sabe, é corrente na
Argentina, México e Nicarágua, Peru. Segundo a folclorista argentina
Olga Fenandéz Lautor de Botas, citada por Diéges Júnior, estas "hojas"
ou "pliegos sueltos", divulgados atravésde "corridos', envolvem
narrativas tradicionais e fatos circunstanciais - exatamente como a
literatura de cordel brasileira.
Na França, o mesmo fenômeno correspondia à "littèratue de colportage"
- literatura volante, mais dirigida ao meio rural, através do "occasionnels",
enquanto nas cidades prevalecia o "canard". Na Inglaterra - é
informação de Jean Pierre Seguin, através de Roberto Benjamin -,
folhetos semelhantes aos nossos eram correntes e denominados "cocks"
ou "catchpennies", em relação aos romances e estórias imaginárias; e
"broadsiddes", relativamente às folhas volantes sobre fatos
históricos, que equivaliam aos nossos folhetos de motivações
circunstanciais. Os chamados folhetos de época ou "acontecidos".
Num ensaio intitulado "Origens da Literatura de Cordel", nós
alongamos as notícias dessas origens do folheto de cordel não só no
século XVII, na Holanda, como aos séculos XV e XVI na Alemanha. Foi
através do ensaio da pesquisadora Marion Ehrhardt, intitulado
"Notícias Alemãs do Século XVI sobre Portugal", publicado na revista
"Humboldt" (nº 14, Hamburgo, 1966), que chegamos a essa evidência.
Examinando folhetos sobre assuntos portugueses do século XVI, que
resistiram ao tempo, - através de enfoque exclusivamente histórico -
Marion Ehrhardt nos fornece informações suficiente para cortejo
entre velhos folhetos germânicos e a literatura de cordel.
Na Alemanha, os folhetos tinham formato tipográfico em quarto e
oitavo de quatro e a dezesseis folhas. Editados em tipografias
avulsas, destinavam-se ao grande público, sendo vendidos em
mercados, feiras, tabernas, diante de igrejas e universidades. Suas
capas (exatamente como ainda hoje, no Nordeste brasileiro), traziam
xilogravuras, fixando aspectos do tema tratado. Embora a maioria dos
folhetos germânicos fosse em prosa, outros apareciam em versos,
inclusive indicação, no frontispício, para ser cantado com melodia
conhecida na época.
Já a respeito dos panfletos holandeses, tivemos as primeiras
notícias através do professor José Antônio Gonçalves de Mello, nossa
maior autoridade em história do domínio holandês no Nordeste
brasileiro. Ele examinou panfletos ("pamflet", em holandês) do
século XVII, concluindo sobre o seu contudo: "Os temas tratados,
pelo menos em relação ao Brasil, que são os que unicamente conheço,
são políticos, econômicos, militares, quando não são terrivelmente
pessoais. Um relativo à Guiana então holandesa, relata um crime, no
qual estão envolvidos personagens que vieram em Pernambuco. Há-os em
versos, mais a maioria em prosa, sendo freqüente a forma de diálogos
ou em conversas entre várias pessoas. Uns só de uma folha; a maioria
contém entre 10 a 20 páginas, em tipo gótico". Tudo isso mostra à
evidência que, embora tenhamos recebido a nossa literatura de cordel
via Portugal e Espanha, as fontes mais remotas dessa manifestação
estão bem mais recuadas no tempo e no espaço. Elas estão na
Alemanha, nos séculos XV e XVI, como estiveram na Holanda, Espanha,
França e Inglaterra do século XVII em diante.
No Brasil - não mais se discute -, a literatura de cordel nos chegou
através dos colonizadores lusos, em "folhas soltas" ou mesmo em
manuscritos. Só muito mais tarde, com o aparecimento das pequenas
tipografias - fins do século passado -, a literatura de cordel
surgiu e se fixou no Nordeste como uma das peculiaridades da cultura
regional.
História do Cordel do Nordeste –
Embora o tema (nomes e datas fundamentais em torno dos poetas
populares do Nordeste) já tenha sido rasteado por numerosos autores,
vamos resumir o que Átila de Almeida condensou, a propósito, em
recente ensaio intitulado "Réquiem para a Literatura Popular em
Verso, Também dita de Cordel", in "Correio das Artes" João Pessoa,
01.08.1982. O ano de 1830 é considerado historicamente, o ponto de
partida da poesia popular nordestina. Em torno dessa data nasceram
Uglino de Sabugi - o primeiro cantador que se conhece - e seu irmão
Nicandro, ambos filhos de Agostinho Nunes da Costa, o pai da poesia
popular.
Nascidos na Serra do Teixeira (PB), entre 1840 e 1850, foram seus
contemporâneos os poetas Germano da Lagoa, Romano de Mãe D´Água e
Silvino Piruá. E já contemporâneo destes, Manoel Caetano e Manoel
Cabeleira. São os mais antigos cantadores conhecidos, todos chegando
à década que se iniciou em 1890.
A década que começou em 1860 viu nascer grandes nomes, como João
Benedito, José Duda e Leandro Gomes de Barros. Mais adiante, na
década de 1880, nasceram Firmino Teixeira do Amaral, João Martins de
Ataíde, Francisco das Chagas Batista e Antônio Batista Guedes.
Depois dessa época até 1920 - afirma o escritor paraibano -, "a
poesia escrita e oral se tornaram coqueluche e os poetas se
multiplicam como moscas, principalmente nos Estados de Pernambuco,
Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará". Só nesse período foram
registrados 2.500 poetas populares! O movimento editorial do cordel,
como se sabe, inicia-se com Leandro Gomes de Barros, Chagas Batista
e Piaruá. Embora acredite-se que Leandro e Pirauá começaram a
publicar folhetos antes de 1900, não existem provas materiais desse
fato. Em 1902, Chagas Batista publicou um folheto, em Campina
Grande, que existe ainda hoje na Casa "Rui Barbosa", no Rio de
Janeiro. Há um outro de Leandro, publicado no Recife, em 1904.
A partir dessas datas, Leandro e Pirauá dominam o mercado de
folhetos de cordel. Depois de 1910, surgem outros nomes de autores
de folhetos, como Antônio da Cruz, Joaquim Sem Fim, Cordeiro Manso,
Manuel Vieira do Paraíso, Antônio Guedes, Joaquim Silveira, João
Melchíades, João Martins de Athayde. Na década de 20, emerge outra
leva de poetas de bancada, como Romano Elias da Paz, José Camelo de
Melo Rezende, Manoel Tomás de Assis, José Adão Filho, Lindolfo
Mesquita, Moisés Matias de Moura, Arinos de Belém, Antônio
Apolinário de Souza e Laurindo Gomes Maciel. Nas alturas de 1945,
Átila de Almeida vislumbra o que chama de "germe destruidor no
comércio de folhetos".
Uma fase de decadência em conseqüência de novos fatos determinantes
das transformações sociais, como o rádio, o cinema, a aceleração do
processo de industrialização do País, a construção de Brasília, a
facilidade de novos meios de transporte, estimulando as migrações
internas no Brasil. Esses fatores alteram a mentalidade do homem
rural nordestino, o grande consumidor da poesia popular escrita
oral, ou cordel. Devemos destacar no entanto que essa cultura não
morreu, podemos encontrar na contemporaneidade exemplos de
cordelistas como recentemente falecido, o cearense José Gonçalves da
Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré e o sergipano João
Firmino Cabral, que atualmente vende cordéis de sua autoria e de
outros cordelistas no mercado municipal da capital sergipana.
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