|
Caetano Veloso
O quereres
Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou
paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou
o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na
amplidão
Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco,
garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro
razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou
chinês
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu
sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou
mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura,
mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o
herói
Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima
prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca
dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como
és
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance,
rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o
inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o
mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou
obus
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão
desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres
assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há
em mim
Tigresa
Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando sua pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta, sem certeza, tudo que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e setenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancing Days
Ela me conta que era atriz e trabalhou no "Hair"
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que um leão
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri para o violão, num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento |