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Maria Belmoral
"Um homem não é o produto de laboratório.
Um homem é ele e mais as circunstâncias e,
eventualmente, sua condição de vida, apesar das
circunstâncias. É ele e mais sua casa, sua rua, seus
vizinhos, seus hábitos, seus costumes, sua religião, sua
culinária, suas canções, sua arte.
Quando, porém, essa tradição cultural é interrompida
brutalmente pelo poder político, comercial, econômico e,
principalmente, pelos meios de comunicação, o homem fica
impedido de atuar e impor culturalmente aquilo que está
intrínseco ao seu espírito. Então, ele se transforma
numa coisa, num macaco de imitação da classe dominante
que é justamente aquela que o mantém longe das escolas,
dos museus, das universidades.
Nenhum homem quer uma vida nova na qual não crê e na
qual, por mais feio e infeliz que seja, ele não será
ele. Pois se não for ele, como poderá sentir as coisas?
O homem quer esta vida que tem e quer que lhe dêem a
possibilidade de melhora-la; de ser feliz nos dias,
meses, anos que lhe restam. É isto que o homem pede; que
não o atrapalhem, não o atropelem, não o humilhem e não
o matem antes do tempo, pois a vida tem muitas coisas
belas - quase todas - e é preciso desfruta-las."
Fausto Wolff
CAMISETAS VERMELHAS
O suor contido em todas e (ainda) tantas camisetas
vermelhas, as peles queimadas pelo sol ardente, os
corpos cansados, as gargantas secas e, sobretudo, uma
convicção inabalável nas palavras por tantas vezes
revistas, modificadas, conjunturadas, repensadas,
justificadas, novamente justificadas e convencíveis
ditas por esses homens e mulheres, minto, guerreiros e
guerreiras, fizeram, de fato e na prática, virar verdade
o que era apenas uma possibilidade de um segundo Mandato
da Esquerda em nosso país. Mais que isso, esses
guerreiros e guerreiras incansáveis e trajados de
camisetas vermelhas, provaram-nos mais uma vez que a
História - em especial a nossa - é um processo de
criação, satisfação e recriação contínuas das
necessidades humanas. Penso que é isso que Fausto Wolff
nos tenta dizer brilhantemente, que é esse processo
histórico no qual interagimos é que nos diferencia dos
animais, cujas necessidades são fixas e imutáveis. Em
nosso caso, a História inevitavelmente se compõe por um
incessante processo de organização social (ainda bem),
por escolhas políticas (que o diga o resultado das
urnas), mas, preponderantemente, pelo desafio constante
à nossa capacidade de rompermos com todos os tipos de
exclusivismos e interesses únicos. O que está em jogo na
construção da nossa História, apesar das muitas
desigualdades, diferenças e pluralidade que recortam as
classes sociais, é a possibilidade de fazer valer a
vontade coletiva de sermos de nos opormos radicalmente
ao que a Direita se esmera em enraizar. Nossa tarefa,
nesse segundo Mandato, é garantir o pleno entendimento
da nova virtude do mundo moderno: o respeito pela
diversidade humana.
Dado o contexto, não nos cabe classificar os cidadãos -
inclusive os trajados de camisetas vermelhas - que
compõem nossa sociedade pela quantidade de conhecimento
acumulado, mas sim, respeitar, acatar e legitimar aquilo
que cada um deles pensa e sente e, conseqüentemente, o
que cada um deles oferece e influencia nas várias formas
de vida que são recriadas dentro da nossa região, que
por sinal, é tão culturalmente diversificada.
Um cidadão - como aqueles tantos que não vestiram outra
coisa senão as camisetas vermelhas nos últimos dias -
quando envelhece e morre, parte carregado de obras e,
sobretudo, carregado da mais ilustre responsabilidade: a
da consciência humana. O tempo que um homem guerreiro
vive e acumula conhecimento o diferencia dos outros,
tanto nas manifestações sociais, como no seu
entendimento político (repito, que o digam as urnas). Na
medida em que respeitamos essas diferenças, fazemos com
que os guerreiros de camisetas vermelhas vençam a guerra
do pensamento contra a matéria, a guerra da razão contra
o preconceito, a guerra do justo contra o injusto, a
guerra pelo oprimido contra o opressor. Respeitar a
diversidade ensina, pacifica e civiliza.
A condição para que uma vida social se concretize numa
região como a nossa parece ser, aos olhos do
neoliberalismo, a de que um cidadão - vestido ou não de
camiseta vermelha - não pense fora de sua casa (que o
digam os últimos anos do governo municipal de São
Bernardo). Em nossa região não há quem não advogue a
causa dos direitos do cidadão, quando, porém, se entra
nos conteúdos desse desejo, a discordância explode. O
que almejam, afinal, as elites da nossa região (que
votaram massificadamente contra a Esquerda e contra os
projetos que dela surgiram)? Reduzir a distância entre a
"massa" e elas? Claro que não! Penso que elas atuam no
sentido contrário, porém, (não se enganem) sempre
politicamente bem maquiadas, camufladas pelas ações
assistencialistas e na defesa dos programas
compensatórios.
Mas (que o digam as urnas novamente) os guerreiros e
guerreiras vestidos de camisetas vermelhas determinaram
seus atos e dirigiram seus comportamentos; foram desses
comportamentos que resultaram, afinal, os fatos sociais,
como a reeleição do Presidente Lula.
E (acredito mesmo, não é força de expressão) dentro
dessa razão é que se educa, se forma, se modela e se
define a maneira de ser da nossa gente, da gente do ABCD.
É na essência da sua consciência e do seu bom senso
(olhem lá as urnas de novo...) que nossa gente adquire
características próprias, tendências, impulsos,
motivações, aspirações, acumulo cultural e tudo mais que
couber dentro do seu espaço como cidadão. Com ou sem
camiseta vermelha.
Maria Belmoral é escritora, roteirista e autora da peça
Frida Kahlo |