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Convidado a comparecer à sessão de instalação da Academia
Brasileira de Letras, em 28 de janeiro de 1897, fundou a Cadeira
nº. 17, escolhendo como patrono Hipólito da Costa.
Foram
seus pais o comerciante português André Ramos Romero e Maria
Joaquina Vasconcelos da Silveira. Na cidade natal iniciou os
estudos primários, cursando a escola mista do professor Badu. Em
1863, partiu para a corte, a fim de fazer os preparatórios no
Ateneu Fluminense. Em 68, regressou ao Norte e matriculou-se na
Faculdade de Direito do Recife. Formou, ao lado de Tobias
Barreto (que cursava o 4º. ano quando Sílvio se matriculou no
primeiro) e junto com outros moços de então, a Escola do Recife,
em que se buscava uma renovação da mentalidade brasileira.
Sílvio Romero foi, no início, positivista. Distinguiu-se, porém,
dos que formavam o grupo do Rio, onde Miguel Lemos levava o
comtismo para o terreno religioso. Espírito mais crítico, Sílvio
Romero se afastaria das idéias de Comte para se aproximar da
filosofia evolucionista de Herbert Spencer, na busca de métodos
objetivos de análise crítica e apreciação do texto literário.
Estava no 2º. ano de Direito quando começou a sua atuação
jornalística na imprensa pernambucana, publicando a monografia
"A poesia contemporânea e a sua intuição naturalista". Desde
então, manteve a colaboração, ora como ensaísta e crítico, ora
como poeta, nas folhas recifenses, entre elas A Crença, que ele
próprio dirigia juntamente com Celso de Magalhães, o Americano,
o Correio de Pernambucano, o Diário de Pernambuco, o Movimento,
o Jornal do Recife, a República e o Liberal.
Assim que se formou, exerceu a promotoria em Estância. Atraído
pela política, elegeu-se deputado à Assembléia provincial de
Sergipe, em 1874, mas renunciou, logo depois, à cadeira.
Regressou a Recife para tentar fazer-se professor de Filosofia
no Colégio das Artes. Realizou-se o concurso no ano seguinte e
ele foi classificado em primeiro lugar, mas a Congregação
resolveu anular o concurso. A seguir, defendeu tese para
conquistar o grau de doutor. Nesse concurso Sílvio Romero se
ergueu contra a Congregação da Faculdade de Direito do Recife,
afirmando que “a metafísica estava morta” e discutindo, com
grande vantagem, com professores como Tavares Belfort e Coelho
Rodrigues. Abandonou a sala da Faculdade; foi então submetido a
processo pela Congregação, atraindo para si a atenção dos
intelectuais da época.
Em fins de 1875, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Foi para
Parati, como juiz municipal, e ali demorou-se dois anos e meio.
Em 1878, publicou o livro de versos Cantos do fim do século, mal
recebido pela crítica da corte. Depois de publicar Últimos
harpejos, em 1883, abandonou as tentativas poéticas. Já fixado
no Rio de Janeiro, começou a colaborar em O Repórter, de Lopes
Trovão. Ali publicou a sua famosa série de perfis políticos. Em
1880 prestou concurso para a cadeira de Filosofia no Colégio
Pedro II, conseguindo-a com a tese "Interpretação filosófica dos
fatos históricos". Jubilou-se como professor do Internato em 2
de junho de 1910. Fez parte também do corpo docente da Faculdade
Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais
do Rio de Janeiro.
No governo de Campos Sales, foi deputado provincial e depois
federal pelo Estado de Sergipe. Nesse último mandato, foi
escolhido relator da Comissão dos 21 do Código Civil e defendeu,
então, muitas de suas idéias filosóficas.
Na imprensa do Rio de Janeiro Sílvio Romero tornou-se
literariamente poderoso. Admirador incondicional de Tobias
Barreto, nunca deixou de colocá-lo acima de Castro Alves; além
disso, manteve, durante algum tempo, uma certa má vontade para
com a obra de Machado de Assis. Sua crítica injusta motivou
Lafayette Rodrigues Pereira a escrever a defesa de Machado de
Assis, sob o título Vindiciae. Como polemista deve-se mencionar
ainda a sua permanente luta com José Veríssimo, de quem o
separavam fortes divergências de doutrina, método, temperamento,
e com quem discutiu violentamente. Nesse âmbito, reuniu as suas
polêmicas na obra Zeverissimações ineptas da crítica (1909).
Sílvio Romero foi um pesquisador bibliográfico sério e
minucioso. Preocupou-se, sobretudo, com o levantamento
sociológico em torno de autor e obra. Sua força estava nas
idéias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que
imprimia em tudo que escrevia. A sua contribuição à
historiografia literária brasileira é uma das mais importantes
de seu tempo.
Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio
correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas
outras associações literárias.
Obras: Cantos do fim do século, poesia (1878); A filosofia no
Brasil, ensaio (1878); Interpretação filosófica dos fatos
históricos, tese (1880); Introdução à história da literatura
brasileira (1882); O naturalismo em literatura (1882); Últimos
harpejos, poesia (1883); Estudos de literatura contemporânea
(1885); Contos populares do Brasil (1885); Estudos sobre a
poesia popular do Brasil (1888); Etnografia brasileira (1888);
História da literatura brasileira, 2 vols. (1888; 2ª. ed. 1902;
3ª. ed. 1943, organização e prefácio de Nélson Romero, 5 vols.);
A filosofia e o ensino secundário (1889); A história do Brasil
ensinada pela biografia de seus heróis, didática (1890);
Parlamentarismo e presidencialismo na República Cartas ao
conselheiro Rui Barbosa (1893); Ensaios de Filosofia do Direito
(1895); Machado de Assis (1897); Novos estudos de literatura
contemporânea (1898); Ensaios de sociologia e literatura (1901);
Martins Pena (1901); Parnaso sergipano, 2 vols.: 1500-1900 e
1899-1904 (1904); Evolução do lirismo brasileiro (1905);
Evolução da literatura brasileira (1905); Compêndio de história
da literatura brasileira, em colaboração com João Ribeiro
(1906); Discurso recebendo Euclides da Cunha na ABL (1907);
Zeverissimações ineptas da crítica (1909); Da crítica e sua
exata definição (1909); Provocações e debates (1910); Quadro
sintético da evolução dos gêneros na literatura brasileira
(1911); Minhas contradições, com prefácio de Almáquio Dinis
(1914); Trechos escolhidos, seleção e prefácio de Nelson Romero
(Nossos clássicos, 25; 1959); Sílvio Romero: teoria, crítica e
história literária, com introdução de Antônio Cândido (1978).
A FUNÇÃO DA CRÍTICA
Não deixa de ser coisa perigosa o publicar neste pais um livro
de crítica. Além da falta absoluta que existe aqui desta ciência
e disciplina de espírito, acresce que os nossos ledores, grandes
e pequenos, como bons burgueses, estão tranqüilíssimos com tudo
quanto os cerca, e repelem soberbamente aquilo que os possa
perturbar.
Seus prejuízos contra o espírito crítico, quando pretendem
revestir-se de um aspecto sério, resumem-se nisto: "este país é
novo, e sua literatura nascente; a crítica longe de acoroçoar
desanima; ela é, pois, muito prejudicial." É coisa que se me tem
repetido algumas dúzias de vezes. O disparate é transparente.
Aquilo envolve uma falsa idéia do que seja a nova ciência de
críticar, sua força e seu alcance. Em que pode prejudicar ao
desenvolvimento espiritual de um povo o estudo que mostre-lhe
quais as suas conquistas históricas e suas aptidões imanentes?
Longe de ser-lhe nocivo, é-lhe de todo animador; e, para
mostrá-lo, basta lembrar o exemplo da Alemanha, cuja literatura
tomou o soberbo ascendente, que a distingue, fundada na crítica,
depois do grande movimento provocado por Lessing.
A nós que temos vivido de contrafações indigestas, a nós que não
temos vida própria, que somos um dos povos mais deteriorados do
globo; que, espécie de contrabandistas do pensamento, não temos
a forma das grandes conquistas e das grandes verdades da
ciência, só a crítica, a tão desdenhada crítica, nos pode
preparar um futuro melhor.
Ela, aqui, não deve limitar-se ao empenho de mostrar o largo
caminho que nos cumpre trilhar; deve, antes de tudo, desobstruir
o terreno, juncado de velhos preconceitos e falsidades; deve
alçar o látego destruidor e desfazer as legendas, para afirmar a
luz.
Neste ponto interrompe-me um pobre de espírito: "mas isto é
escrever com paixão; é ser bilioso... A frase é da moda; mas não
cheira bem.
Sim, e escrever com paixão, isto é, com pureza e verdade; é ser
apaixonado, isto é, ter a nobreza das boas convicções e até dos
bons estímulos.
Para certa gente, escrever sem paixão eu sei o que quer dizer: é
faltar à consciência e à dignidade, ter a cabeça cheia de
parvoíces, que se derramam sobre o papel; é chafurdar-se
constantemente no pestilento pélago dos elogios mentidos e das
bajulações indecorosas. Escrever sem paixão é repetir, em todos
os tons possíveis, as velhas frases louvaminheiras, que povoaram
este país de gênios e de prodígios, de sábios e de brilhantes;
gênios e sábios em alguns medíocres, que nos têm dado uns
folhetins... prodígios e brilhantes alcatifando os nossos rios
gigantescos e as nossas selvas seculares...
Quem ousa desafinar no meio do geral concerto é apontado nada
menos do que como "um invejoso das glórias alheias".
A inveja vem a ser assim o incentivo que dirige o crítico no
Brasil!...
Em que vale, portanto, o sacrifício de proclamar a verdade a
este povo, correndo o risco de ser apontado como o possuidor de
um sentimento repugnante?
Em nada.
Resta, porém, sempre a consolação de haver contribuído com
alguma coisa para derrocar o podre edifício de velhos erros, e
limpar a atmosfera que nos sufoca. Di-lo-ei, pois:
A vida espiritual brasileira é pobre e mesquinha, desconceituada
e banal para quem sabe pensar a luz de novos princípios. Aferida
pelo moderno método de comparação, inaugurado há muito nas
literaturas européias, ostenta-se caprichosamente estéril. A
força de desprezarmos a corrente de nossa própria história e
pormo-nos fora do curso das idéias livres, eis-nos chegados ao
ponto de não passarmos de ínfimos glosadores das vulgaridades
lusas e francesas; eis-nos dando o espetáculo de um povo que não
pensa e produz por si..
Todos os nossos pequeninos movimentos literários são eloqüentes
para atestá-lo.
Basta considerar, por agora, a renovação romântica deste século
com seu fruto predileto o indianismo. Nas grandes nações da
Europa, como a Inglaterra e a Alémanha, o romantismo foi, em
parte, uma volta aos sentimentos populares, uma ressurreição do
passado no que ele tinha de mais aproveitável. Não assim entre
nós. O nosso velho lirismo, com sua veia epigramática, que teve
um cultor em Gregório de Matos, e um representante em Gonzaga,
foi esquecido. A velha modinha foi abandonada, seu alcance
desdenhado, sua música preterida e as imitações francesas nos
assoberbaram. Desprezada a vida histórica, atiramo-nos aos
desvarios do ultra-romantismo posterior à revolução de Julho,
com todos os seus enganos e meticulosas fascinações. A crítica
não nos ensinou a produzir; os elementos da nossa história e do
nosso pensamento não foram elucidados. O papel dos três
concorrentes da nossa população não foi indicado, e um falso
sentimento de nacionalidade jogou-nos para o caboclo, e
glorificamo-lo.
Compreendo que na aridez do século passado, quando a literatura
da metrópole dava o triste espetáculo de homens que acalentavam
frases e tropos retóricos, julgando produzir idéias, compreendo
que, então, dois homens de talento elevado, Durão e Basílio,
escrevendo na Europa, voltados para a pátria e aproximando-se da
natureza, nos decantassem o selvagem.
A romântica brasileira, porém, que não entendeu nem a Basílio,
nem a Durão, apostou-se a desdenhar os outros elementos da vida
nacional, concentrando-a exclusivamente no caboclo.
Eis toda e falsidade.
Nossa poesia popular não foi estudada; nossas lendas, nossos
costumes ficaram despercebidos; a ciência da crítica, que
renovara o antigo terreno da filologia, das criações mitológicas
e religiosas, o antigo terreno das primeiras manifestações
humanas, nos ficou de todo fora do alcance.
Dizem que um dos méritos do movimento romântico europeu é haver
contribuído para tão fecunda renovação.
No Brasil passaram-se as coisas diversamente. A romântica
brasileira teve o prestígio de falsificar e obscurecer o estudo
de nossas origens, e acumular trevas sobre os três primeiros
séculos de nossa existência.
Aqueles que, como o escritor destas linhas, pretendem preparar o
balanço do que fomos para indicar o que devemos fazer na hora
atual, são espíritos que de todo romperam com as tradições de
desconceituado sistema.
Atravessamos uma época de crise para o pensamento nacional: na
política e na literatura o momento é grave. Numa, como noutra,
nos falta a força própria. Bem como na ordem social nos falha a
vida do município e a dignidade do trabalho independente, assim
nas letras falece-nos o peso das convicções maduras e a sublime
audácia dos espíritos emancipados.
E, todavia, é força dizê-lo, a velha romântica brasileira, com
seu indianismo; a pobre filosofia que nos ensinam, com suas
sofisticarias indignas, estão mortas, como desacreditados se
acham os dois bandos políticos, que tanto nos hão degradado. E é
mister caminhar... O futuro, pois, deste povo não está nos
poetas decrépitos, que lhe insuflam os males instintos; nos seus
romancistas fabulistas, que lhe desnorteiam o critério; nos seus
parlamentos e ministros, que o degradam e conspurcam com a
mentira; nos seus grandes mágicos, que sabem todas as línguas e
todas as ciências...
O futuro deste país deve estar nas convicções sinceras, nos
caracteres intransigentes, sacrificados a honra, disseminados
por aí além, desdenhados pelos poderosos do dia; e que ousam
dizer a verdade ao povo, como ao rei; não a pretendida verdade
dos declamadores; mas a verdade da história, a verdade da
ciência.
Pelo que me toca, ela é Mein Eins und Alles, na frase do poeta.
Isto só me basta. Estou acostumado com o abandono e o desdém.
Para concluir:
Os diferentes capítulos que formam este opúsculo foram quase
todos, em épocas diversas, publicados no Recife e recebidos com
indiferença por uns, e com indignação por outros. Fiquei
satisfeito... Hoje que aparecem formando o seu corpo natural num
volume, desejo-lhes o mesmo acolhimento. Isto para mim é um
sintoma; neste país aquilo que muito agrada, tenho a certeza de
que não presta.
Este pequeno volume faz parte de uma série de trabalhos meus
aparecidos pela maior parte na imprensa provinciana, e que agora
vão saindo em livros, sob a designação Oito anos de jornalismo.
A Filosofia do Brasil, já publicada, é o primeiro volume da
série, a que também pertencem os Cantos do fim do século, já
aparecidos, e outras obras, que seguir-se-ão. São trabalhos
escritos e publicados para ocorrer às necessidades da
colaboração jornalística, durante oito anos (1869-1876), que
vivi em Pernambuco.
Hoje, passando por indispensáveis alterações, aparecem formando
cada um seu todo compacto e natural. E que o pensamento de
dar-lhes, oportunamente, essa forma, presidiu a sua confecção.
Possa a circunstância de que foram todos eles escritos entre os
dezoito e os vinte e cinco anos, isto é, feitos por um moço,
ainda naquele tempo, com a alma cheia de todas as santas ilusões
da idade dos sonhos, servir-lhes de desculpa aos defeitos, se e
que, non le plus esclave, mais le plus valet de tous les peuples,
para falar como P. L. Courrier, sente ainda algum pendor para a
eqüidade.
Fevereiro de 1880.
("Introdução", A literatura brasileira e a crítica moderna.
Ensaio de generalização, 1880.)
FATORES DA LITERATURA
[...]
A popularidade imensa, e, em mais de um ponto, perfeitamente
exagerada dos livros de crítica artística e literária de
Hippolyte Taine, trouxe a crença geralmente admitida da
capacidade mágica de três palavras para a explicação completa
dos fenômenos literários e congêneres.
Meio, raça e momento são a trindade portentosa do criticar
contemporâneo; servem para solver todas as dificuldades.
Onde encontram um fato qualquer fora do comum recorrem muitos ao
meio, e o façanhudo fator aparece e arreda os embaraços.
Outros deixam de lado o meio e agarram a muleta do momento;
alguns, finalmente, calçam as botas da raça.
Não quero, nem posso contestar a influência de qualquer destes
fatores no desenvolvimento e na formação dos produtos
literários. Bem pelo contrário, muitas vezes tenho recorrido
também a eles e ainda agora vou de novo recorrer.
Mas sustento que, só por si, eles são incapazes de revelar, de
esclarecer o problema, todo o segredo dos gênios e dos grandes
talentos das letras...
Para torná-lo bem claro, não tenho necessidade de empregar
grande esforço e pesquisar grandes recursos. É bastante olhar
para uma fase qualquer de uma literatura notável.
Seja a Inglaterra, ou seja a Alemanha, ou seja a França em
alguma hora decisiva do XIX seculo.
Tome-se o primeiro destes países nas três iniciais décadas do
século.
O momento, o meio e a raça são os mesmos; como explicar só por
eles Byron, Wordsworth, Shelley, Keats, tão diversos entre si?
Repare-se que não falo no escocês Walter Scott, nem no irlandês
Thomas Moore.
Como explicar no romantismo de 1830, em França, Lamartine, Hugo,
Musset, Balzac, Vigny, tão dessemelhantes. A raça, o meio e o
momento foram os mesmos. É que nestas inquirições tomam-se
sempre esses elementos como tudo, neles encerra-se a totalidade
dos agentes e reagentes e esquece-se um fator primordial, um
núcleo indispensável, uma força viva, um centro de energia, a
individualidade.
Além da raça, que é geral para um povo, para uma nação dada,
além do meio, que também é geral pelo menos para uma grande
fração desse povo, além do momento que também é geral ao menos
para cada geração desse mesmo povo, e preciso que o crítico
assinale e dê conta de alguma coisa de inicial, de primitivo, de
fundamental, a individualidade, que em cada homem é uma
resultante obscura de toda evolução cósmica e humana, a
resultante de um passado indeterminado pela complexidade
inexplicável de sua indefinita duração.
Quero com isto apenas deixar assentado que os fatores de Taine
não explicam tudo, que eles são muito bons apenas como agentes
modificadores de um elemento importantíssimo, a individualidade,
considerada esta como um centro, uma soma de energias, um núcleo
de força e ação.
Assim considerada, ele escapa ao influxo da crítica, é uma
espécie de pressuposto, de substratum irredutível.
Só os três fatores de Taine é que podem ser submetidos ao exame
da história. Isto posto, qual deles tem mais contribuído para a
formação, a especialização, a diferenciação do caráter
brasileiro?
A raça, tenho sempre eu suposto; o meio, tem sempre respondido
um inteligente e destro crítico brasileiro, Araripe Júnior.
Convém examinar isto.
"A questão da história da literatura nacional", diz ele, "mais
do que outra, entendo só pode ser resolvida pela concentração
das nossas vistas sobre o meio físico. É o único fator estável
de nossa história, o único que se consegue acompanhar, sem
soluções de continuidade."
Sinto estar em desacordo com o ilustre crítico. O meio físico,
que também foi contemplado neste livro em capítulo especial, é
para mim um agente de diferenciação, e, por isso mesmo, não o
elemento estável e resistente.
A unidade nacional é garantida, a meu ver, pelos agentes morais
e pela energia étnica.
Foram as qualidades morais e intelectuais do colonizador,
ajudado pelas raças a que aliou sua cultura, suas letras;
religião, legislação, costumes, indústrias, etc., que mantiveram
o desenvolvimento unitário do Brasil.
Nosso problema histórico se me afigura ser este: indicar a
formação do povo brasileiro, como um produto sociológico
especial, distinto do português.
Para isto deve-se considerar, com os fatos, o colonizador
europeu como o .elemento principal de nossa formação, e em
seguida mostrar os elementos que se lhe juntaram, que o
alteraram até certo ponto, produzindo o brasileiro.
É claro que se o português não sofresse aqui influência nenhuma
estranha, o Brasil seria a reprodução de Portugal.
O brasileiro mostra-se, porém, diferenciado do português. Qual a
razão? Por efeitos do meio físico principalmente, diz o
Dr.Araripe. Por efeito principalmente das raças com que ele tem
cruzado, digo eu, e parece-me que mais acertadamente.
O meio exerceu e vai exercendo, não resta dúvida, entre nós,
grande ação; mas, sendo ele um agente primordial para a formação
primitiva das raças e para a explicação das civilizações
autóctones, nas civilizações transplantadas, sobre povos que
imigraram já de posse de suas qualidades históricas, o meio
físico, sendo um fator ainda muito importante, não é, contudo, o
principal.
Existem disto provas por toda a parte.
Que é que mantém a diversidade entre os povos que na Europa
ocupam a mesma zona e o mesmo clima há muitos séculos? Será o
meio idêntico entre muitos deles? Evidentemente são as suas
qualidades étnicas e suas tradições históricas.
Que é que estabelece a distância na América entre as nações que
experimentam quase o mesmo clima? São ainda as diversidades de
raça e de tendencias morais e intelectuais.
Os meios eram tudo para a humanidade primitiva e pré-histórica.
Uma vez estabelecidas as raças históricas, uma vez entrados,
como estão, nos tempos atuais, os povos não são mais um joguete
dos climas.
Há uma muralha que representa muitos milênios de luta em que a
humanidade adquiriu todas as qualidades, que hoje a distinguem.
Os climas passaram para o segundo plano e os agentes étnicos,
fisiológicos e morais, tomaram-lhes a dianteira. Em nossa
história o fator permanente, nos quatro séculos já percorridos,
tem sido o português. Em sua passagem para o brasileiro, é ainda
a um elemento etnológico, é à mestiçagem, que se deve pedir a
explicação do fenômeno. O clima fica em segundo plano.
O clima, tomando-o na acepção mais geral, insisto em dizer, foi
um agente valentíssimo na formação das raças e das civilizações
autóctones.
Nas épocas propriamente históricas sua ação tem continuado; mas
já não é apreciável, ou, pelo menos, não o é tanto quanto o
fenômeno dos mestiçamentos dos povos.
Durante muitos milênios pode ele formar as raças pré-históricas
e esboçar os povos atuais. Mas a sua ação e tao lenta, que não
se deixa notar nitidamente nas civilizações modernas.
Duvido que haja um antropologista capaz de determinar com
segurança quais as transformações experimentadas nos ultimos
dois mil anos, pelas populações da Europa, transformaçoes
produzidas so pelo clima.
Quais as modificações operadas pelo meio nos povos
indo-germânicos, imigrados para o ocidente? A história não sabe
responder.
Tão longe quanto é possível subir na corrente dos tempos, logo
que os helenos, os latinos, os celtas, os germanos, etc.,
aparecem na história, já se nos antolham com seus caracteres
distintivos. O mesmo pode-se dizer das velhas raças semíticas e
das supostas turanas.
O mais assombroso exemplo da influência do clima que se conhece
é a exercida sobre os arianos da Índia. Comparados aos da
Europa, nota-se-lhes uma enorme distância. Mas, quantos milhares
de anos não trouxeram o estupendo resultado? E este mesmo por
sua lentidão é hoje apontado post factum e não foi coisa
assimilável, dia a dia, pelos historiadores.
Há quatrocentos anos é o português transformado pelo clima...
Até que ponto tem chegado esta modificação?
Não creio que haja quem possa responder. Só daqui a três mil
anos será talvez possível ao futuro historiador dizer qual a
deformação produzida nos arianos pelo clima deste país.
Mas então provavelmente esta terra terá passado por uma dúzia de
mutações históricas, como a Grécia, como a Itália, como a Gália,
como a Espanha, como a Bretanha. Ela provavelmente não será mais
o Brasil, quero dizer, não será a terra da atual nação
brasileira...
O povo atual se obliterará provavelmente nas raças absorventes
do norte, nos anglo-saxônios e germânicos, por exemplo.
Na luta pela posse da terra não sei se os povos que nos
obstinamos a chamar latinos estarão livres de outras invasões, à
guisa das operadas no começo da Idade Média. Parece-me que não.
Haverá talvez só uma diferença: é que a invasão moderna vai-se
fazendo lentamente pela colonização.
Não sei o que será dos povos fracos da América do Sul, quando os
Estados Unidos e a Alémanha tiverem noventa ou cem milhões de
habitantes e sentirem necessidade de despejar gente para as
zonas meridionais.
Oxalá que nesse tempo tenhamos um povo feito e resistente, capaz
de absorver aquelas sobras, sem perder a sua individualidade.
Em todo caso, o que a história então há de consignar com
segurança é aquilo que hoje em dia já ela determina, isto é, as
mutações e mesclas das raças. A ação do clima não podera ser
seguida passo a passo.
Em nossa história de quatro séculos não sei que diferenças tenha
o meio produzido no caboclo, no negro e mesmo no português. O
que noto a olhos nus é o mestiço.
Este é o brasileiro por excelência, é o agente em torno do qual
faço mover a nossa história literária e política. E nele
evidentemente influi muito mais o contato das raças do que a
ação do clima.
Esta é longínqua, apreciável a largos espaços e de dificultosa
determinação, até no próprio futuro.
Suponhamos que, daqui a mais quatrocentos anos, as três raças
primordiais de nossa população tenham-se entrelaçado
completamente; que não haja mais caboclos puros nem negros
puros; que uma sabiamente dirigida corrente de imigração branca
nos tenha vindo ajudar nesta obra da obliteração das cores
escuras; que o tipo brasileiro seja então bem caracterizado;
qual será aí a obra da seleção étnica e qual a da seleção do
meio?
Por certo a primeira será mais profunda.
Há, além de tudo, uma razão peculiar ao Brasil e é esta: o clima
aqui nada tem mais a mudar no índio e no negro, que já são obras
da zona tropical, nada quase terá mais a fazer com o mestiço, o
genuíno brasileiro, que recebe dos dois povos tropicais os
elementos de resistência.
Determinada assim a influência do fator etnológico, resta
marcar, na obra da seleção étnica, o mestiçamento, quem mais tem
contribuído; se o índio, ou se o negro. O Dr. Araripe ainda aqui
se mostra em desacordo, dando a preferência ao caboclo. No livro
sobre seu parente, José de Alencar, referindo-se ao
incontestável predomínio dos mestiços de negro e branco entre
nós, doutrina evidentíssima, por mim sustentada, veio ele com
umas reduções, não de todo firmadas nos fatos.
Devo citá-lo para ser claro: "Com igual precipitação em um
recente trabalho, aliás notabilíssimo, sobre a Poesia popular no
Brasil, foi ele levado a dar ao elemento africano maior
preponderância no nosso desenvolvimento estético.
Digo precipitação, porque o crítico não teve tempo de lembrar-se
que, para decidir esta questão, seria necessário dividir
primeiro o Brasil em zonas.
No Pará, Amazonas, Ceará e Rio Grande do Norte, por exemplo, o
elemento negro é quase nulo; tudo cabe ao indígena; as
influências daquela raça apenas chegaram ali por contragolpe.
No Rio de Janeiro, Bahia e Minas, é onde pode ter lugar a
aplicação do negrismo em toda a sua plenitude.
Não se trata de aplicação de negrismo; trata-se de determinar a
formação dos brasileiros como um povo à parte, distinto do
português, e, para isto, buscam-se os fatores da operação.
O português entrou em uma evolução de diferenciação de seu tipo
originário pela ação meio físico, do negro, do índio e das
correntes estrangeiras. É o fenômeno complexo que se quer
determinar e não somente a estética do brasileiro, ou a
aplicação do negrismo... expressão injuriosa e de mau gosto.
Pondo em balanço a influência do negro e a do índio, sou levado,
pelos fatos, a dar a preponderância àquele contra este.
No Brasil só as extremas terras das fronteiras é que abrem uma
exceção positiva. São as províncias pouco povoadas do alto norte
e do oeste, onde o índio comporta ainda inútil e donde será
expelido, logo que o branco e o negro ali penetrarem amplamente.
É o caso do Amazonas, Mato Grosso, e, até certo ponto, de
Paraná, Goiás e Pará. Do Rio Grande do Sul o índio tem
desaparecido, mas ali o branco predomina.
A mestiçagem com o negro entra na fórmula que tracei: Maranhão,
Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe,
Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. Paulo, Minas Gerais,
Santa Catarina e o próprio Ceará e Piauí.
Ainda mais: a influência etnográfica da mestiçagem do negro com
o branco tende a ganhar terreno nas províncias em que o caboclo
ainda vive mais ou menos desassombrado. A colonização do Brasil
vai de leste para o poente e a vez de renderem-se os últimos
redutos do caboclo há de chegar. Não há precipitação de minha
parte; há apenas a consignação de fatos positivos.
Onde é, entre nós, maior a população, maior é a mestiçagem de
origem africana e portuguesa. Bem se vê que o alto norte e o
longínquo oeste ficam fora da fórmula.
O fato do predomínio no Brasil povoado da população oriunda do
mestiçamento das raças branca e negra tem sido contestado
acremente e é, pois, necessário insistir para estabelecer a
verdade."
O Dr. Araripe Júnior tem neste ponto sido um constante
adversário, cujos argumentos merecem sério e detido exame.
Minha afirmação foi sempre esta: no Brasil a maior parte da
população é de mestiços; entre estes, no corpo colonizado de
nosso solo, predomina a mestiçagem áfrico-lusitana, e são uma
exceção apenas as regiões do alto norte e do extremo ocidente,
onde o caboclo puro e ainda mais ou menos abundante e donde será
expelido o quando o branco e seu auxiliar negro ali penetrarem
amplamente.
Nas regiões povoadas, próximas das zonas extremas do norte e
oeste, o mestiçamento do branco e índio é talvez igual ou um
pouco superior ao do branco e negro. Mas isto é a exceção; o
resto do país entra plenamente na minha fórmula.
O fenômeno que hoje se passa diante de nossos olhos depois de
quatrocentos anos da descoberta é eloqüentíssimo. O índio
desapareceu de toda a região verdadeiramente povoada do Brasil
ante a concorrência do branco e do negro. Morreu, sumiu-se, em
parte obliterou-se nos cruzamentos.
Sob este ponto de vista, o Brasil pode ser dividido em três
seções:
a) Estados donde o selvagem puro desapareceu já totalmente,
deixando alguns descendentes no mestiçamento geral;
b) Estados onde ele existe puro em pequenas levas acantoado em
regiões desertas e tem alguns representantes no mestiçamento;
c) Estados onde existe puro em número pouco considerável
internado em desconhecidos recessos, e em número mais
considerável desfigurado nos cruzamentos.
No primeiro caso estão as províncias do Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande
do Norte e Ceará.
Na segunda hipótese estão Santa Catarina, Paraná, S. Paulo,
Minas, Bahia, Espírito Santo, Piauí e Maranhão.
Na terceira acham-se Pará, Amazonas, Mato Grosso e Goiás. Eis aí
os vinte Estados da República.
A fórmula é, pois, aplicável a todo o país; menos às fronteiras
do norte e do oeste, que, mais tempo menos tempo, acabarão por
entrar na regra geral.
[...]
O índio brasileiro está condenado à sorte dos povos da
Polinésia. Ali não só o homem desapareceu ante o concurso
europeu, como ainda desapareceram algumas espécies animais e até
vegetais com a introdução das espécies estrangeiras. É fato
provado por centenas de viajantes e que M. de Quatrefages pôs a
limpo na Revista Científica de Paris, de 9 de junho de 1877.
O índio não é ainda plenamente entre nós um objeto de ciência; é
antes, e acima de tudo, um assunto de poesia. Exceção feita dos
trabalhos lingüísticos de Batista Caetano, alguns estudos de
Couto de Magalhães e Carlos Hartt, sob o ponto de vista
etnográfico, tudo o mais que no Brasil se tem escrito à conta do
selvagem, e sem mérito absolutamente.
E se a questão é de amor para com as raças que constituíram o
nosso povo, por que motivo não se estuda o negro, como se estuda
o índio? Por que motivo em nosso Museu não há uma seção
africana? Por que não se investigam as línguas dos negros, sua
poesia, seus contos anônimos, seus usos e costumes, suas adagas
e festas, suas idéias religiosas, etc.?
É que para esta enormíssima injustiça contribui com toda a sua
força a massa imensa do prejuízo nacional... Ninguém tem a
coragem de estudar o negro para não passar por eivado de
casta... Esta é a questão e, muitas vezes, o maior defensor do
índio contra o negro é o pardo evidente e carregado!
É ainda um resíduo do romantismo. O Dr. Araripe, folgo em
reconhecê-lo, não participa grandemente da mania indiana.
Hoje defende o caboclismo mais por uma tradição da escola a que
pertencera em sua puerícia literária do que por uma preocupação
sistemática.
A verdade é, em geral, que se deseja fazer do estudo do selvagem
uma especialidade. O intento pode ser em certo sentido louvável,
mas tem sido improfícuo.
Não possuímos ainda a calma necessária, nem os métodos precisos
para abordar o estudo das raças selvagens objetivamente, como um
problema puramente antropológico ou histórico. Sonhamos ainda e
sempre um Brasil tapuio.
Se na própria Europa e nos Estados Unidos os grandes estudos
americanistas são ainda muito incertos; se os imensos trabalhos
sobre as civilizações do México, Guatemala e Peru são na máxima
parte flutuantes, como se depreende de todos os congressos
europeus, o que não se dará com o Brasil, sem especialistas, sem
escolas adequadas?
Dá-se o que se tem visto: hipóteses fantasmagóricas e absurdas,
frases, frases e mais frases...
Ainda não há muito a Exposição o demonstrou. O espécimen
pré-histórico velho de muitos milênios, pertencente, por certo,
a uma raça diferente do índio do tempo da descoberta, achava-se
mesclado aos espécimens dos tempos coloniais e até aos
pertencentes às populações mestiçadas da atualidade!
Apesar da boa vontade do pessoal do Museu, dali não surgiu uma
destas obras imponentes e decisivas que pudesse elucidar de uma
vez os problemas e trevas que cercam as nossas raças selvagens.
Não critico; assinalo apenas um fato.
Como quer que seja, porém, e a despeito das dificuldades, os
estudos americanos, apesar de imperfeitíssimos, acham-se
iniciados entre nós, protegidos pelo romantismo e em grande
parte pela fatuidade nacional, que ainda adormece no ledo sonho
de julgar-se indígena...
É velha mania da nobreza tupinambá de que muitos brasileiros são
ainda em extremo afetados.
No tempo da Independência a moléstia chegou a seu auge, e até
mulatos, como o finado Francisco Gomes Brandão, tomaram nomes
indígenas. Ele chamou-se Acayaba de Montezuma.
Um disparate, como outro qualquer.
Louvo os estudos americanos; mas como estudos, não como pasto a
veleidades étnicas.
Deveríamos também iniciar os estudos africanos. O negro,
espalhado pela África e América, é uma raça que oferece
interessantíssimos problemas.
Muitos sábios europeus, seguindo o exemplo de Bleek, atiram-se a
estas pesquisas. Façamos o mesmo. O negro e seu parente mestiço
tocam o nosso povo bem de perto. Não sejamos presunçosos, nem
tenhamos medo de dizer a verdade.
O predomínio aparente do indianismo na civilização brasileira é
um velho prejuízo, difícil de extirpar. Causas numerosas e
especiais contribuíram para arraigá-lo, e hoje ainda ele está de
pé.
Estriba-se falsamente em razões literárias, históricas,
geográficas e sociais. Na literatura aparece como um protesto
contra os invasores; vêem-se no índio a encarnação do gênio do
Brasil e o nativismo traduz no caboclismo.
Na história apela-se para o número avultado das tribos
primitivas, e recorre-se a grande porção de aldeamentos dos
selvagens catequizados na zona colonizada. É embalde que se
demonstra serem as enumerações dos velhos cronistas inexatas,
tomando eles simples denominações de famílias e de variedades de
um só grupo por outras tantas tribos e nações diversas.
É embalde que se mostra a decadência progressiva dos aldeamentos
e sua extinção quase completa desde o século XVIII.
Sempre o prejuízo vai fazendo seu caminho.
Na geografia apela-se para os nomes tupis que abundam em nossa
carta, sem reparar que esse fenômeno natural nada prova, além do
respeito a tradição. Na esfera social o índio tem mais
simpatias, deixou há mais tempo de ser escravizado e, por ser
menos escuro do que o negro, é mais querido.
O caboclo é mais idealizado, mais estudado, mais conhecido.
Sonhamos um Brasil tapuio, disse eu, e não reparamos que
desejamos o mal. Todas as nações americanas em que o elemento
europeu não predomina, como o México, Peru, Equador e Bolívia,
são as menos progressivas do continente. Não podem competir com
os Estados Unidos, o Chile, a República Argentina e o próprio
Brasil.
Devemos desejar que em nosso pais a imensa mestiçagem da
população seja habilmente reforçada pelo elemento branco. Mas
historicamente é de justiça e verdade conferir ao negro papel
eminente do que ao botocudo, ente fraco, desequilibrado e
prestes a extinguir-se. É luta pela existência; o mais débil
devia ser devorado. O exato conhecimento de nossas condições
etnográficas facilita a compreensão dos tipos literários.
(História da literatura brasileira, Capítulo V: Poesia)
Fonte: Academia Brasileira de Letras. |